[[legacy_image_175942]] Se Pagu no Metrô fosse um livro de não ficção, esse texto começaria por seu final - pela descoberta que Adriana Armony fez sobre a última passagem de Patrícia Galvão (1910-1962), com câncer, pela França, nos anos 1960, enquanto pesquisava uma outra temporada dela em Paris, três décadas antes. Mas o livro é um romance, e contar isso pode estragar a experiência de leitura. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Uma nota: Pagu no Metrô pode ser uma obra de ficção, mas tudo ali relacionado à pesquisa é verdade. O alerta é da autora, que tirou uma licença no Colégio Pedro II, no Rio, onde é professora, para fazer seu pós-doutorado que envolvia tentar refazer os passos de Pagu e descobrir o que aconteceu com a autora de Parque Industrial entre 1934 e 1935, quando ela deixa o então marido Oswald de Andrade e o filho pequeno, Rudá, para se engajar na luta contra o fascismo na Europa. Em 2019, Adriana embarcou para a França e mergulhou nesta investigação, porque uma leitura feita anos antes, que acabava antes do fim, a tinha deixado com a pulga atrás da orelha. Essa curiosidade começou quando leu Paixão Pagu (Agir) - ou Autobiografia Precoce, na edição de 2021 da Companhia das Letras. Escrito em 1940 como uma “carta-confissão” ao seu segundo marido, Geraldo Ferraz, o texto acaba com o relato sobre sua passagem pela União Soviética. Mas depois houve Paris, e o que aconteceu lá foi muito pouco retratado em obras sobre Pagu. “O que me fascinou nesse texto foram as várias camadas e a complexidade da Pagu. E o que me chamou a atenção é que a carta se interrompe quando ela chega a Paris. E que ela não tem um fecho. Termina ali, com ‘Stalin, o nosso guia. O nosso chefe’. Ora, como uma carta não tem uma despedida? A imaginação de romancista voa”, conta a escritora, que em Paris empreendeu uma grande pesquisa pelos labirínticos arquivos de polícia e de hospitais e em bibliotecas para tentar preencher algumas lacunas biográficas. E preenche. O livro, escrito quase em tempo real, narra a saga dessa personagem, Adriana, escritora, em sua busca por respostas, suas descobertas e suas próprias aventuras. O inícioAdriana, que faz, antes, uma bela apresentação de Pagu e do contexto histórico, começou a pesquisa pelos arquivos da polícia, porque sabia que ela tinha participado de manifestações, e ouviu logo que boa parte do material tinha sido queimado na Segunda Guerra Mundial. Procurou por Patrícia Galvão, Pagu, Léonie Boucher, nome que ela usou lá, em seus 20 e poucos anos. Deu sorte na segunda vez - e depois de novo. De inédito, e que tudo bem revelar aqui, está um dossiê com detalhes de sua prisão, a ordem para que deixasse o país, os endereços em que ela viveu e a informação de seu desaparecimento da vista das autoridades. E mais. Na pasta de Pagu, Adriana encontrou um envelopinho lacrado. “Olhei de um lado, olhei do outro. Pensei: não vou perguntar se posso abrir. Se dissessem que não, eu nunca saberia o que tinha lá. Abri e encontrei uma foto da Pagu, que ninguém conhece, tirada lá quando ela foi pega (a foto da capa)”. E como Adriana sai desse livro? “Mais múltipla. Encontrei muitas mulheres dentro da Pagu e se desdobrando de dentro de mim. Muitas identidades em uma mulher que viveu tanto tempo atrás cujas histórias, reflexões e sentimentos continuem em mim e em tantas outras mulheres.” (Estadão Conteúdo) Pagu no Metrô, Adriana Armony, Editora Nós, 144 págs, R\$ 62, R\$ 43,40 o e-book.