[[legacy_image_81852]] Um panorama da Literatura santista realizado pelo jornalista e pesquisador Alessandro Atanes serviu de referência para a composição do quarto volume da série Atlas das Representações Literárias de Regiões Brasileiras, intitulado Costa Brasileira, divulgado no final de junho pelo IBGE. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! A obra de Atanes, Esquinas do Mundo: Ensaios sobre História e Literatura a partir do Porto de Santos, orientou a equipe do IBGE sobre os romances que trazem Santos como protagonista, seja por via temática ou como cenário. O convite surgiu em 2013, quando o IBGE veio à cidade para fazer a pesquisa. Por meio de um ensaio da obra intitulado O Ciclo do Romance Portuário, que enumera uma série de obras literárias do gênero a retratar o Porto de Santos, a obra agregou histórias santistas ao Atlas, evidenciando o impacto do porto como formador sociocultural histórico da Cidade. “Toda a evolução urbana da cidade se fez devido ao Porto”, explica Atanes, “processo que se torna mais visível com a construção do cais no final do século 19 e que dura até hoje, com perimetral, alterações nos acessos, e o mais importante, todo o impacto que as operações portuárias causam à Cidade”. Entre as obras citadas por Atanes que foram relacionadas no Atlas, estão Cais de Santos (1939), Os Vira-Latas da Madrugada (1981), Barcelona Brasileira (2003). Obras históricas que remetem à era colonial, como A Muralha (1954), de Dinah Silveira de Queiroz, trazem registros importantes. Entre as favoritas do jornalista, se destaca o romance Navios Iluminados, de 1937, escrito pelo médico sergipano Ranulfo Prata, que serviu de tema para sua dissertação de mestrado em História Social. “Prata já era um autor experiente quando veio para Santos em 1927 trabalhar como radiologista da Santa Casa, foi também amigo e correspondente de Lima Barreto. Sua experiência na Cidade rendeu esse romance belo e triste, que conta a história do migrante José Severino de Jesus, que deixa a seca do sertão para buscar trabalho no Porto de Santos, no final da década de 1920. Mais do que ilustrar as condições dos trabalhadores do porto, ler Navios Iluminados é uma experiência que particulariza aquilo que somente a Literatura pode contar sobre a Cidade, seu clima mental”, explica. Literatura contemporânea em Santos Atanes segue com seu mapeamento literário e acompanha a presença de Santos no imaginário literário. “Um dos projetos é um ensaio sobre a cidade de Santos na obra do Alberto Martins. Seus poemas do livro Cais (2003), as duas novelas de A História dos Ossos (2005) e seu romance Lívia e o cemitério africano (2013), em que a protagonista usa o porto para contrabandear artefatos arqueológicos”. “Também tenho levado minhas pesquisas sobre as relações entre ficção e sociedade para a literatura latino-americana, ampliando as análises sobre as representações de outros portos, como Buenos Aires, Lima e Nova York”. No texto Lusitana melodia: uma conversa entre Sophia Breyner e Ribeiro Couto, de 2020, Alessandro Atanes contrapõe poemas sobre o mar, as navegações e viagens dispondo poemas do santista e da lisboeta lado a lado, em diferentes perspectivas sobre a temática marítima. Outro exemplo da vivacidade de Santos na obra contemporânea é Monstros, uma novela gráfica sem diálogos lançada em 2013 por Gustavo Duarte, via Companhia das Letras, que traz uma invasão de seres como Godzilla à Cidade. “Um deles é um polvo gigantesco que estraçalha as muretas tão amadas da Cidade, invadindo a Ponta da Praia, uma certeira metáfora ficcional para as ressacas”. No mesmo sentido, a obra gráfica Atlântico, de Lucas Busto, foi lançada pelo Facult com perspectivas ficcionais da cidade. Poesia como registro histórico O Atlas opta por não utilizar poesia, porém, Atanes ressalta a importância dos poemas como registros históricos da Cidade. Por meio deles, é possível observar as mudanças que ocorrem em Santos ao longo do tempo. “Nos autores da primeira metade do século 20, há um tom solene, de adeuses na beira do cais, uma melancolia”. “A poesia da virada do século 20 para 21 trata o Porto de forma completamente diferente. Madô Martins, Ademir Demarchi, Flávio Viegas Amoreira e Alberto Martins nos mostram um Porto dessas operações portuárias, em que o acesso ao cais é praticamente inviável para o morador da Cidade. Nos poemas desses autores, os elementos são a maresia, a ferrugem, a umidade. São duas sensibilidades para o mesmo cenário: nostalgia em um grupo e desolação no outro”, completa o jornalista. Blog Além de manter o mapeamento e o blog Estante do Atanes, o pesquisador pretende retomar cursos literários de forma remota. Alessandro Atanes também trabalha com tradução de obras em espanhol para português e mantém os estudos em Literatura Latino-Americana junto ao SUR Clube de Literatura Latino-Americana, atualmente em encontros on-line, que realiza leituras e traduções de autores do nosso continente.