[[legacy_image_228489]] O que têm em comum o Theatro Guarany e o Banho da Dona Doroteia? Bem, se não fosse pelo teatro, que está completando 140 anos, um dos maiores ícones do Carnaval santista talvez não existisse – ao menos, não com esse nome. Reza a lenda que, em 1923, Luís Vieira de Carvalho, conhecido nos meios carnavalescos como Lorde Gorila, se inspirou em um espetáculo em cartaz no Guarany para criar o Banho. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A peça tinha um nome nada republicano: 21 na Zona. Contava a história do Cabo 21, mulherengo nato que, certo dia, na praia, foi falar com uma mulher de uma maneira reprovável: “Dona Doroteia, vamos furar aquela onda?”. O assédio, hoje em dia inaceitável, era um sinal dos tempos: à época, da plateia, Lorde Gorila teve apenas um estalo. Junto com o Clube de Regatas Saldanha da Gama, fundou uma tradição carnavalesca que reinou por décadas na Cidade. Esta é apenas uma das muitas histórias que permeiam o Guarany, o primeiro teatro “de verdade” de Santos. “Na segunda metade do século 19, a Cidade já era uma importante praça comercial, por causa do café, mas não havia um lazer à altura, para essa elite”, avalia o jornalista, pesquisador da História santista, Sergio Willians. Segundo ele, que também contou a história do início desta reportagem, em Santos só havia duas casas improvisadas como teatros, uma na Praça Mauá – “caindo aos pedaços”, como descreve Willians. A outra, chamada Teatro do Rink, na altura da Avenida São Francisco, onde hoje é o Palácio Saturnino de Brito, era muito mais do que um teatro. “Havia de tudo, tourada, patinação... e espetáculos teatrais”, acrescenta. 'Vaquinha'A Associação Comercial de Santos, fundada em 1870, no lastro do café, já era uma das mais representativas do País em meados daquela década. Em 1876, articulou uma comissão formada por Antônio José Vianna, Francisco Martins dos Santos e Joaquim Xavier Pinheiro para dar à Cidade um teatro à sua altura. Os três saíram para vender 512 cotas para compor um fundo de construção. Mais da metade dessas cotas acabou adquirida pelo presidente e vice da própria Associação Comercial. respectivamente, Nicolau Vergueiro e Antonio Ferreira da Silva, o Barão do Embaré. Com dinheiro em caixa, as obras começaram em 6 de janeiro de 1881. O projeto ficou a cargo do engenheiro Manuel Ferreira Garcia Redondo, com concepção arquitetônica seguindo a tradição neoclássica do Teatro São João de Lisboa, de 1792, e do São João do Rio de Janeiro, de 1810. Em 7 de dezembro de 1882, o novo teatro, que colocou Santos na rota dos grandes espetáculos internacionais, foi inaugurado: o nome, Guarany, foi uma homenagem ao livro de José de Alencar, de 1857, e à ópera de Carlos Gomes (1870). IncêndioCom a inauguração do Teatro Coliseu, em 1924, e a mudança do eixo da vida santista, do Centro para a praia, a partir dos anos 40, as luzes da ribalta do Guarany foram se apagando. Depois de se transformar em cinema pornô e até ser fatiado em boxes de lojas populares, veio o que parecia ser o último capítulo de uma história da glória cultural santista. Em 13 de fevereiro de 1981, um incêndio consumiu o teatro. Sobraram apenas as paredes externas, em estado precário. O renascimento começou nos anos 2000, com a desapropriação do terreno pela Prefeitura. As peças foram se encaixando. Fez-se um projeto, conseguiram-se os recursos e a obra começou, em 2006. “Nós tínhamos a ideia de fazer igual ao que era. Não quis negar o passado. Aqui tem um tempo ‘trívio’, passado, presente e futuro”, analisa o arquiteto da Prefeitura de Santos Ney Caldatto, responsável pelo projeto de restauro. Essa ‘junção de tempos’ está nos detalhes: no corrimão em ferro das escadas, que remete a Paulo Mendes da Rocha, e nas divisórias em vidro dos camarotes, por exemplo, harmonizando com as paredes de 1882, cujas saliências e rugas descrevem o peso da história que carregam; ou nos dois pilares originais, encontrados durante as obras, que hoje ornam o foyer. No plano geral, o Guarany que hoje se vê é o mesmo de há 140 anos. Graças a um panfleto de espetáculo. “Não havia nenhuma informação sobre a disposição interna. Encontramos em um livro um folheto com o desenho interno discriminando os lugares”, relembra Ney. Ou seja, algo como ocorre hoje, quando se entra em um site para comprar ingressos a um show, por exemplo, e há a planta da casa para se escolher o lugar. Superados os desafios, em 7 de dezembro de 2008, meros dois anos depois do início das obras, o novo Guarany foi inaugurado, com a apresentação da ópera que inspirou o nome do teatro, na Praça dos Andradas. Depois, as portas foram abertas à comunidade. “Quando falamos do Theatro Guarany, estamos falando de uma joia da cultura santista e do quinto teatro mais antigo do Brasil em atividade. Além de ser a casa da nossa escola de artes cênicas, o Guarany é um espaço que mora no coração dos artistas da Cidade, encantando também os profissionais que vêm de fora”, diz o secretário de Cultura de Santos, Rafael Leal.