[[legacy_image_316794]] A música retoma a forma. Silenciado pelo tempo, que lhe tirou o viço da madeira, enferrujou as cordas e arrancou teclas. Um velho piano Stenway modelo O, da década de 50, vai aos poucos recuperando o antigo frescor. Doado por A Tribuna à Pinacoteca Benedicto Calixto, o piano está em São Paulo, sendo totalmente restaurado. A previsão de entrega é para o dia 11 de dezembro. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! “Ele está 70% concluído. Mexemos na parte mecânica, cordoamento, chapa, teclado e caixa de harmonia”, afirma Rubens Soares da Silva, o responsável por devolver a vida ao instrumento. Como se pode observar nas fotos ao lado, um trabalho minucioso, que poderia ser concluído em até 50 dias, com dedicação exclusiva, segundo avalia Rubens para situações similares. Como não foi o caso, e apesar de levar dois meses no total, a entrega será feita antes do prazo previsto. [[legacy_image_316795]] Não é raro, mesmo a quem falte intimidade com o instrumento, não ter ouvido falar do nome Steinway, uma das melhores marcas de piano do mundo, fundada em Nova Iorque, em 1853. O que a torna é o preparo de caixa e a escala de cordas. “Dá mais qualidade na passagem dos timbres, dos graves para os agudos, sem sobressaltos”, explica Rubens. CoraçãoA ‘caixa’, no caso, é considerada o coração do piano, segundo Rubens. Porém, o mais trabalhoso no processo de reconstruir o instrumento é a colagem dos martelos e a regulagem da peça acoplada a cada um deles, na base das cordas. Os martelos, acionados pelas teclas, atingem a peça, que faz as cordas vibrarem, gerando o som. A caixa acomoda tudo isso: de sua qualidade dependerá a qualidade do som gerado. O que, para Rubens, é uma grande virtude dos modelos Steinway. Além do O, com seus 1,83 metro, há ainda o L, com 1,5 metro, o B, com 2,11 metros e o D, com 2,76 metros. Outras marcas que Rubens aponta como tão boas quanto a Steinway são a austríaca Bösendorfer e a japonesa Yamaha – assim como a Steinway, ambas também centenárias. “Hoje, na minha opinião, o piano mais antigo costuma ser melhor do que um novo. A madeira, o acabamento, são melhores”, avalia. [[legacy_image_316796]] Sem tocar uma notaEle bem que tentou. Fez algumas aulas. Mas não leva jeito para tocar piano. “Basta cuidar deles para que os artistas toquem”, limita-se a dizer Rubens. Mas, nesse ofício de preparar o veículo para o talento se realizar, tem méritos que nenhum pianista alcança. “Percebo o que eles não percebem. Um barulho diferente, uma falha mecânica”. Nem sempre foi assim. Aos 14 anos, o paulistano Rubens engraxava sapatos, até se deparar com um consertador de pianos. “Você quer vir trabalhar comigo? Com carteira assinada’, ele me propôs. Eu topei”. Alguns anos depois, o chefe acabou virando sogro: Rubens casou com a filha dele. Hoje, está à frente da Zebichristha Pianos, batizada a partir das iniciais dos nomes das quatro filhas: Zenith, Beathriz, Christhiane e Thais. Feito, literalmente, com amor, o negócio é tão sólido quanto a madeira que dá forma aos pianos. Para Rubens, sem puxar a sardinha ao ofício, o piano é imabatível. “Vale a pena ter um. Um teclado, por mais que o imite, nunca chegará aos pés na acústica. Piano tem alma”.