[[legacy_image_305066]] A Marca de Uma Lágrima, A Droga da Obediência, O Dinossauro que Fazia Au Au. Quem foi criança ou adolescente nos anos 80 – e desde então – sabe quem é Pedro Bandeira. Presente na memória afetiva de muitos adultos, ajudou a formar novos leitores – justamente o que ele acredita ser sua função como escritor. Para ele, a educação, e não a religião, salva. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Homenageado na 15a edição do Festival Tarrafa Literária, que começa nesta quarta-feira (18) e nascido em Santos, nesta entrevista, o autor recorda sua juventude na Cidade e a origem de suas obras; também não foge de polêmica ao criticar os totalitarismos, quaisquer que sejam. “Toda minha vida foi ferida pela censura”, enfatiza. O senhor começou relativamente tarde na Literatura Infantil. Por que? Sim, bem tarde. Desde os 18 anos trabalho com jornalismo, com o meu texto, mas escrevendo o que o chefe de reportagem mandava. Quando estava na Editora Abril como redator, consegui na área infantil um freelancer, escrevendo histórias curtas. Certa vez, com quase 40 anos, uma amiga, a Marisa Lajolo, uma grande crítica de Literatura, me interpelou: ‘você escreveu tantas historinhas infantis, porque não escreve um livro só seu, com a tua ideia?’. Fui para casa e escrevi tentando imitar Monteiro Lobato, que criou uma menina de sete anos que brinca com sua imaginação. Ele foi genial nisso. Eu criei um menino urbano, que mora em um apartamento ao lado de um terreno baldio, onde vive a sua imaginação. Lá, ele acha uma pedra oval e diz ‘encontrei um ovo de dinossauro’. E era mesmo. Então nasce um dinossauro de verdade, que passa a ser o bichinho de estimação. Esse foi primeiro livro, O Dissonauro que Fazia Au Au, em 1983. E como surgiu A Droga da Obediência, que é do ano seguinte e já bem diferente? Surgiu da possibilidade de escrever para adolescentes. Como é o adolescente? Ele vive em turma. Então vou fazer uma turma. Uma turma que goste de histórias de suspense e mistério. Assim nasceram os Karas. E como eu vinha do jornalismo e do teatro, a ditadura militar me fez sofrer muito. Toda a minha vida foi ferida pela censura. Na hora que eu escrevi meus romances, fiz uma metáfora do que havia sofrido, especialmente no teatro, com a censura. A história é sobre um sujeito que quer dominar o mundo, criando uma droga que faça com que todos o obedeçam e calem a boca. O senhor foi pioneiro ao introduzir na Literatura adolescente o amor, em A Marca de Uma Lágrima. Até então, os livros para esse público primavam pela aventura e o mistério. De onde surgiu essa ideia? Duas inspirações. Fiz teatro, mas o teatro paga mal, mudei para o jornalismo (risos). Todo jovem ator sonha em fazer um grande protagonista. Um deles, é o Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand, sobre um sujeito que é muito culto, mas muito feio. A moça pela qual ele é apaixonado é sua amiga, mas se apaixona por outro amigo... o amigo gosta dela e pede ao Cyrano para escrever cartas a ela, que vai se apaixonando mais pelo rival. Eu quis mostrar essa história. Na adaptação, fiz uma menina que não é feia, mas está naquela fase adolescente de se achar feia. Ela conversa com o espelho, o espelho fala: ‘você é feia, você é gorda’, mas é ela mesma se projetando. Ela também faz poesias para que a melhor amiga namore o seu amor. Mas ela também escreve as respostas do menino. De repente, ela percebe: ‘eles se amam por minha causa. Eu sou uma escritora...’. É um livro também sobre a consciência de si mesmo, o despertar da autoestima. Tudo isso é preciso trabalhar com seu leitor. O meu leitor é meu protagonista. Se ele tem seis anos, vou falar das questões e emoções dos seis anos. Houve mudanças nas crianças e adolescentes nesses 40 anos? Por que até hoje, 400 anos depois, Shakespeare é um baita sucesso? Por que falou dos reis e rainhas da época? Não: porque ele falou sobre o amor impossível, barrado pelas questões sociais. Hoje, você pode pegar um menino negro e uma menina branca que se apaixonam, imagina o drama que será isso? Um casal de homossexuais? A sociedade, e até a família, irá contra a opção deles. Romeu e Julieta está mais vivo até do que na época dela. Pega Otelo, que demonstra como o ciúme é corrosivo e destrutivo: hoje, vemos os otelos matando desdêmonas na sociedade. A emoção humana não muda: é e será a mesma sempre. Fala-se muito da oposição dos jogos eletrônicos, da internet, em relação ao livro. Que haveria uma concorrência. Como o senhor vê isso? Antes da internet, ninguém lia nada. A história da educação brasileira é uma vergonha. Quando eu estudei, nas décadas de 40 e 50, só havia vagas na escola para 30% das crianças de Santos. Não se ensinava a 30%: se excluía 70% da população. Por isso, o Brasil é pobre e atrasado. As crianças não jogam bolinha de gude. Claro! Tem um belo jogo de computador. Nesse ponto, as coisas mudaram – e deixa mudar! A vida foi facilitada com a revoluçaõ da informática. Isso não prejudica em nada as crianças, só ajuda. Agora, meninos que hoje vivem com a internet nunca viram o pai ou a mãe lendo um romance, ou visitando uma livraria. Nunca ouviram uma história contada pelos pais. Você mencionou a ditadura, a censura. Como vê os extremismos em voga hoje em dia? Hoje está se tentando censurar a própria Língua Portuguesa. Querem criar o sujeito neutro, que nunca existiu, porque viemos do latim. Eu estava falando com crianças em uma classe, uma menina perguntou ‘Pedro, por que vc escreveu palavras feias no seu livro?’, ‘eu? como assim?’. ‘você disse que o homem é gordo e careca’... a vontade de dominar continua viva. Quase passamos por um golpe recente... era só um general dizer ‘sim, senhor’, hoje estaríamos sob uma ditadura semi-militar e totalmente paranoica. A minha obra toda tem a ver com democracia, liberdade. Tenho um livro em que um cachorro faz amizade com um gato, e resolve miar. Ele é perseguido porque é diferente. Isso pega até o homossexualismo. Hoje, um lado xinga o outro de fascista e o outro xinga de comunista, mas ninguém sabe o que é fascismo ou comunismo. Temos que conviver com o diferente. Mas temos sempre que resistir. A pessoa que tem os olhos mais abertos, que acredita em ciência, em democracia – que significa a convivência de todos – inclusive dos extremos, precisa resistir. Como deve ser essa resistência? É necessário investir tudo em educação. Até o século 15, o mundo do nosso lado era dominado pelo catolicismo. Até que, em meados do século 16, um padre católico chamado Martinho Lutero criticou o Vaticano, postulou que, para ser cristão, você pessoalmente deveria compreender a Palavra de Deus. No catolicismo bastava acatar a versão da Igreja. Então, o que ele propunha? Que se aprendesse a ler. Ocorre uma revolução de alfabetização no mundo de Lutero, depois no de Calvino. A Bíblia é traduzida para o alemão, para o inglês, para o francês. Se chegava a um camponês: ‘por que você está mandando sua filha e seu filho para a escola?’, ‘para eles se tornarem cristãos’. Se você fizesse essa pergunta a um camponês português ou brasileiro, ele retrucaria: ‘pra quê?’. O Brasil vota mal, porque não sabe ler. De certa forma, o senhor é uma peça fundamental para mudar esse cenário... Todo o sangue que corre nas minhas veias é para as novas gerações. Quero lançar mais livros que possam ser mostrados a um bebê, para ele se acostumar com aquilo, para pegar – e se rasgar, rasgou. Ele tem que nascer envolvido pelo livro. No Brasil se adota livro na escola. Na Inglaterra e Alemanha, não. Porque não precisa: a família cuida disso, leem história para as crianças. Aqui, não. As crianças chegam na escola zeradas. Mesmo crianças ricas, que ganham tudo. A professora vai ter que cuidar de uma coisa que a família já deveria ter cuidado. Como era a Santos que o senhor deixou em 1961? Com uns 15 anos, tive sorte de descobrir a parte cultural de Santos. Havia uma importância grande. Vi Otelo com Paulo Autran e Tônia Carrero, no antigo Teatro Independência. Vi Cacilda Becker, Sérgio Cardoso, no Coliseu. Havia um bar na Praça Independência, onde hoje é uma loja de roupas, o Bar Regina, que era o bar oficial da intelectualidade. Lá frequentava uma senhora que devia ter uns 40 e poucos anos, que se chamava Patrícia Galvão, a Pagu. A gente sentava em volta dela, ela fumando um cigarro atrás do outro, tomando samba (pinga com coca-cola) e falando de tudo. A gente não entendia nada do que ela estava falando, ia comprar os livros que ela indicava. Santos nos dava uma luz de intelectualidade. Quem me fez foi o Colégio Canadá, foi Santos.