[[legacy_image_284522]] Os streamings de música são dominantes, atualmente, mas não conseguiram acabar com os discos de vinil. Pelo contrário, essa mídia tem se consolidado no mercado mundial, tendência que é cada vez mais forte também em Santos. As feiras realizadas no último fim de semana no Sesc Santos, e as que vão ser montadas amanhã e domingo, a partir das 13h, no Centro de Cultura Patrícia Galvão, comprovam a popularidade dos tradicionais LPs na Cidade. “Os discos voltaram porque as pessoas sentem falta de tocar e ter algo físico, algo pessoal”, diz Cláudia Chelotti, de 65 anos, dona de um dos mais tradicionais sebos de Santos, no Boqueirão, e que participou da feira, junto com vários expositores. “Trouxe a feira para que os discos sejam acessíveis a todos”, explica Flávia Nocetti, responsável pela programação musical do Sesc Santos. Mas para ter os próprios discos, o que o colecionador logo percebe é que esse está longe de ser um hobby para qualquer bolso. O vendedor e expositor Sérgio Dias, de 56 anos, dono de uma loja de LPs usados no Gonzaga, diz que o valor é baseado na raridade e na quantidade de unidades que há no mercado, também contando a qualidade em que o produto se encontra. Os preços, com isso, podem variar. Na feira do Sesc, os discos em oferta custavam R\$ 10 ou R\$ 40, dependendo do vendedor. Na média, um disco fabricado no Brasil saía entre R\$ 60 e R\$ 80, e os importados e de músicos brasileiros atuais, por não menos que R\$ 150 ou R\$ 200. O colecionador que buscava obras mais difíceis de encontrar precisou desembolsar uma quantia bem maior. O vinil mais caro da feira era da edição de 1965 de Mancini Também é Samba, do arranjador brasileiro Waltel Branco, por R\$ 850. O estudante e colecionador Gabriel Martins, 17 anos, é um dos que gostariam que a cultura do vinil fosse mais acessível ao público. Ele comenta que, por sua paixão por filmes de James Bond, chegou a investir mais de R\$ 300 em um disco com as músicas da franquia. A psicóloga Maria Luiza de Lima e Silva, 24 anos, concorda que os preços são altos. O interesse dela pelo vinil começou aos 18 anos, por influência da avó. A maior quantia que se dispôs a pagar por um único disco foi R\$ 180. “Eu me aproximei pelo prazer de ter a mídia física. Aprecio a arte da capa, posso ler a letra no encarte e o som é diferente. Assim, posso apreciar melhor todo o trabalho que o artista teve”, comenta. Sérgio Dias destaca que esse é um dos motivos para a volta da popularidade dos discos. “O vinil é uma obra mágica. É como ler um livro. Ele tem seu ritual especial para ser ouvido, é seu charme”. O funcionário público e colecionador Lucas da Silva Torres, de 26 anos, prefere as feiras às lojas on-line. Para ele, as feiras reúnem pessoas de todo tipo, além de trazerem sensações e lembranças. Torres considera o mercado on-line mais segmentado, voltado a um público específico, e também mais caro. Por essa razão, busca seus LPs em bazares, brechós e lojas físicas. [[legacy_image_284523]] GeraçõesA mídia analógica tem se popularizado nos últimos anos entre jovens, e continuado em alta entre os consumidores de maior faixa etária, unindo diferentes gerações em torno da paixão pela música consumida de uma forma que deixou de ser a mais convencional. De acordo com dados da indústria fonográfica norte-americana, a venda de discos de vinil aumentou 20% no ano passado, somando mais de US\$ 1 bilhão e superando em muito o mercado de CDs. Com esse ressurgimento do vinil, colecionadores acabaram se tornando também vendedores. É o caso do expositor Ricardo Wagner Alves, de 58 anos. Ele compra discos há 44 anos, desde o início de sua paixão pelo rock, na adolescência, e passou a comercializar usados por influência de outros vendedores. Ele acredita que a internet facilitou o acesso aos toca discos, bem como a interação entre colecionadores. Alves calcula que alguns de seus LPs devem valer mais de R\$ 3 mil, por serem a primeira prensagem. “E meus discos não são os mais valiosos. Já vi um do Roberto Carlos, Louco por Você, que custava quase R\$ 10 mil”, diz ele se referindo ao disco de estreia do cantor, lançado em 1961. Cristiane Magalhães Martins, 51 anos, professora de musicalização para bebês, considera “minucioso” o cuidado dos colecionadores. “O vinil é insubstituível, encantador. A música é atemporal e, para muitos, o vinil foi o primeiro contato, o começo de tudo”. Entre os expositores de Santos, um dos mais conhecidos é João Marciliano Fernandes Leão, o Fera, de 55 anos, dono de uma loja de discos e CDs no Gonzaga, desde 1994, Para ele, os discos têm a ver com memória afetiva para os mais velhos. “Recomprar algo que você já teve quando mais novo traz de volta aquela época”. Os discos representam também parte importante da história da música para o jornalista Leandro Saueia, de 48 anos. Apesar de colecionar LPs desde jovem pelo amor à música, e não à mídia física, Saueia aponta que ouvir um disco de vinil é mais do que diversão. “As crianças precisam ouvir mais do que 20 segundos de cada música nas redes sociais. Elas têm de entender a emoção”. VitrolasComo uma vitrine do passado, atraente por trazer memórias e seguindo o espírito da feira de vinis no Sesc Santos, no último fim de semana, uma exposição mostrou vitrolas, gramofones, toca discos e brinquedos das décadas de 1970 e 1980. O acervo pertence a Maurício Antenor, de 51 anos, que coleciona os mais variados objetos e equipamentos vintage há mais de 25 anos. Comerciante em Sorocaba, Antenor possui mais de 4 mil itens como rádios, CDs, LPs, toca discos e até mesmo uma relíquia, um gramofone de 115 anos. O expositor viu a feira do Sesc como uma oportunidade para criar a sensação de viagem no tempo. “O mais satisfatório é ver as pessoas se divertindo. Jovens se interessam e perguntam sobre os aparelhos que não conheciam, ao mesmo tempo que idosos se emocionam ao ver coisas que tinham na juventude”. (*) Reportagem feita como parte do projeto Laboratório de Notícias A Tribuna - UniSantos sob supervisão do professor Eduardo Cavalcanti e do diretor de Conteúdo do Grupo Tribuna, Alexandre Lopes