[[legacy_image_309774]] Gene Kelly, Fred Astaire Ginger Rogers, nos anos 30 e 40; Gregory Hines e Brenda Bufalino, nos anos 70; Savion Glover a partir dos anos 80. Seja na década que for, à imagem do deus grego Hermes, todos esses atores e músicos pareciam ter asas nos pés. Nada a ver com uma famosa marca de energéticos: quem dá asas é o talento, aperfeiçoado por muito treino. Senhoras e senhores, com vocês, o sapateado! Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! “É uma dança gestual, de um corpo que precisa se manifestar de maneira percussiva. É uma dança completa, que aceita qualquer pessoa”, define Susan Baskerville, professora de sapateado no estilo americano – aquele que o mundo inteiro conhece através de Hollywood – via Broadway. Embora haja registros de uma dança folclórica similar ao sapateado ainda no século 5, foi na Irlanda que a prática se desenvolveu meio que por acaso, durante a Revolução Industrial, no século 19. Nessa época, os operários usavam tamancos para isolar o corpo do calor e da umidade do solo das fábricas. Nos períodos livres, nas ruas, reuniam-se para disputar quem conseguia fazer o maior e mais variado número de sons com os pés. O chamado sapateado americano, o tap dance, nasceu de um caldo cultural. Dos irlandeses e ingleses, e dos africanos, que também já tinham modalidades de comunicação percussiva. “Os irlandeses dançam com os braços ao longo do corpo, parados, mexendo da cintura para baixo. Já os africanos realizam uma percussão com o corpo curvado”, esmiuça Susan. Porém, se o tap dance, ou sapateado americano, é o mais difundido pela cultura de massa, a forma de se comunicar, ou dançar, pelos pés, é algo bem mais abrangente, quase uma característica básica do ser humano. Assim, Susan enumera: o próprio centenário sapateado irlandês, chamado irish tap, e o sapateado espanhol, o flamenco. O Brasil também tem os seus sapateados: a chula, nascida em Portugal, que entrou no País pela porta do Rio do Grande Sul; e a catira, cuja influência é mais ampla: mistura de elementos indígenas, africanos e europeus. O que precisa?Considerando o nome da dança, é quase automático responder “o sapato”. Mas, saiba: nem ele é assim tão indispensável. Se os irlandeses, nos primórdios da dança, no século 19, utilizavam sapatos de alumínio com moedas de cobre acopladas na sola, os africanos desenvolviam sua arte descalços. A própria Susan já se desvencilhou de uma situação adversa, ao dar aulas em uma cidade no interior da Bahia. “Para pessoas que nunca sapatearam na vida e sem sapatos. Adaptamos latinhas amassadas de refrigerante, uma na frente, outra atrás dos pés”, relembra. “Digo a você que é possível aprender de chinelo, descalço...”, enfatiza. Então, o que é preciso para aprender a sapatear? “Vontade. Se houver vontade, qualquer pessoa, com um bom professor, pode aprender”, resume Susan. O sapatoDe fato, a vontade faz milagres. E por mais que não seja indispensável, é melhor exercer essa vontade com o calçado adequado do que com sapatos adaptados. “Como na natação, em que se usam a toca e o óculos”, compara Susan. Ou seja, é possível nadar sem, mas fica melhor com. Da mesma forma é o sapato para o sapateado. Mas, sendo assim, há sapatos e sapatos. Desde R\$ 200,00 a R\$ 2 mil. Hoje em dia são de couro, com duas plaquinhas de metal aplicadas à mão na frente e atrás, sendo que o tamanho das plaquinhas vai indicar o timbre da percussão. “Os mais profissionais têm assinatura, pois são testados para a capacidade de som”, explica Susan. Música com os pés A história de Susan com o sapateado surgiu por um acidente feliz. Como muitas meninas de sua geração, começou na dança pelo balé clássico. Irrequieta, a passagem foi efêmera. “Fui expulsa do balé”, ri. Até o dia que viu na tevê um curso de sapateado. Nessa época, morava na Capital. “A bagunça era permitida, porque a essência é o ‘barulho’, o som, a música do sapateado”, conta. A ‘música do sapateado’. Eis um conceito importante. Ao contrário de outras danças, em que se segue o ritmo, no sapateado faz-se o ritmo. “Como se houvesse uma pauta musical, mas percussiva. Por exemplo, em uma melodia que só tenha o baixo tocado, é possível colocar o ritmo com o pé”, explica. “Se você tiver clareza nos pés, consegue até revelar uma melodia”. Aos 17 anos, Susan veio para Santos e já começou a dar aulas. Hoje, aos 52, ela respira a dança. Leciona na Academia Contra Passo e Roberta Gracioso Escola de Ballet para todas os públicos e idades. “Muita gente procura o que não teve na infância. Mas é para qualquer pessoa. Muita gente entra na aula com seu estresse diário e sai leve”.