[[legacy_image_122316]] Duzentos anos hoje de Fiódor Dostoiévski. O escritor russo nunca foi tão vidente quanto em nossa era carente de significação, perdida de sacralidade, oca de epifanias – os encantamentos que nos redimem, em parte, de todo sofrimento. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Descobri-o por conta própria num canto obscuro da imensa biblioteca do Colégio Canadá: era Crime e Castigo – e não me venham falar que os 14 anos são nossos melhores dias... aquele romance terrífico pela lucidez me abriu a cabeça aos temas essenciais para o resto da vida. A consciência, esse mistério e seus subterrâneos, a culpa, a expiação, a compaixão em toda sua magnitude redentora, a primeira catarse duma mente inquieta escrita pelo mais poderoso escritor desde Shakespeare. Só o monólogo de Hamlet diante do crânio de Yorick se iguala ao pungente poema do Grande Inquisidor em profundidade filosófica introduzida em ficção. O bardo inglês e o atormentado profeta russo erigiram as mais olímpicas e abissais arquiteturas dramáticas delineando o conceito da tão decantada natureza humana como a conhecemos desde os gregos. Ainda na adolescência Fiódor revelou-me a verdade contundente do cristianismo visceral num conto doloroso que recomendo em tempos de miséria quase ‘czarista’ que vivemos no tal neoliberalismo: A Árvore de Natal da Casa do Cristo vale como condensação de todos os evangelhos. Sem concessões ao estilismo formal, extravagante, é pelo conteúdo a sublevação psicológica de Dostoiévski. As atmosferas densas e opressas, os personagens alinhavados com esmero, a tensão e até o humor, nele tudo se rende à mensagem grandiloquente diluída nas estórias que fascinam por si, acrescentando-nos a pedagogia do espírito. O que o mundo busca que não esteja contido em sua obra? Redenção pela beleza, senso de humanidade, combate ao materialismo vão e ao diabo da indiferença? Memórias do Subsolo revelou-me manifesto angustioso pela autodescoberta corrosiva, mas libertadora: ambiguidade, dúvida iluminadora, desconfiança da razão, foi-me redentor ao aprender conviver com defeitos na busca por aprimoração. Dostoiévski, um companheiro imaginário a que sempre volto: é a busca, a entrega, a reflexão obsessiva sem o alívio de julgamento. Nunca me permiti uma abordagem acadêmica ao lê-lo; sempre me envolvi num ato de amor, espectador de abismos, leitor de nossa tragédia e tentativa de algum afago acolhedor. Sem raiz, jogado no fluxo consumista de coisas e gentes, o homem transmoderno tem em Fiódor seu ‘avatar’ perfeito. Indique Dostoiévski a um jovem, o conduza pelos labirintos, o primeiro Dostoiévski a gente nunca esquece. Curiosidade é o maior legado e ele nos sacia do questionamento de quase tudo. Comece pelo mais belo tratado sobre amor e resiliência: Noites Brancas. O sofrimento e a sobrevivência a ele são seu grande motivo e não são nossos grandes temas? Saúdo Fiódor como um íntimo, pedindo licença para essas linhas ao seu maior expert brasileiro, meu amigo EdsonAmâncio (neurocirurgião e escritor). Leia-o!