(Marcio Farias/Divulgação) No banquinho da bateria, no centro do palco, uma história maravilhosa se passa diante de seus olhos. É desse “lugar privilegiado” que João Alberto Barone Reis e Silva, 62 anos, o João Barone, descreve os ‘seus’ – que fique claro! – 40 anos como baterista dos Paralamas do Sucesso, no recém-lançado livro de memórias 1, 2, 3, 4! Contando o Tempo com Os Paralamas do Sucesso (Máquina de Livros, R\$ 75,00). Pois esta é a sua história: a de um “encontro às cegas”, como descreve, com Herbert Vianna e Bi Ribeiro, que deu tão certo. Nesta entrevista, Barone fala da ideia de escrever essas memórias, do carinho entre os três paralamas que os impulsiona a seguir na estrada, além de recordar momentos marcantes desses 40 anos, como abrir um show de Lulu Santos no Circo Voador, no Rio de Janeiro, o primeiro Rock in Rio, de 1985, e até a mítica casa santista Heavy Metal – primeiro lugar onde os Paralamas tocaram fora da capital fluminense. De onde veio a ideia para escrever este livro? E por que agora? Fui tentando compor uma narrativa falando sobre música depois de escrever três livros sobre um tema de que gosto muito: a participação do Brasil na Segunda Guerra. Meu pai é ex-combatente, escrevi três livros sobre esse tema. E começaram a me perguntar: ‘quando você vai escrever sobre música?’. Comecei sem intenção de virar uma biografia oficial da banda. até porque não queria falar da banda, queria falar da minha experiência. Faço uma regressão até a infância, de como a música permeava a minha vida, de meus irmãos que ouviam rock, meu pai também gostava de música. Aquelas tentativas mais ingênuas de tocar, primeiro violão, depois a bateria, até a hora em que encontrei o Bi e o Herbert e minha vida mudou. Eu tenho falado: foi um encontro às cegas que deu muito certo. Deve ter sido uma escrita muito emocional... Bem sentimental. São histórias muito ternas e profundas da minha vivência. Eu falo que estou ali naquele lugar privilegiado que é o banquinho da bateria. Você manja tudo dali, como se fosse uma visão por trás das cortinas. E esse elo que nos uniu como Paralamas há 40 anos ainda permanece vivo. Começo a contar como a gente estava se reerguendo depois do acidente do Herbert, com grande de otimismo por ele continuar tocando e cantando, e a gente seguir com a banda. Eu faço uma espécie de falso epílogo ali. É curioso, hoje em dia, a gente está falando de 23 anos desde o acidente: a gente está há mais tempo juntos depois do acidente do que antes, nossa realidade já é essa há mais tempo, com os álbuns que gravamos desde então, nossa rotina de shows – estamos aí, terminando a turnê de 40 anos. Do seu ‘banquinho da bateria’ o que você se recorda de ter visto de mais notável? Testemunhei esse desenvolvimento incrível que o Herbert teve como compositor. Quando a gente começou, ele já estava mostrando aquela capacidade de fazer canções que engancham, que é o grande apelo da música pop: a canção que faz você assobiar. Como o Paul McCartney falou: quando o leiteiro assobia a tua música na hora de entregar o leite, é porque você acertou. Nos meus sonhos mais selvagens, eu imaginava que poderia ser baterista, mas dentro de casa, tocando nas almofadas. E um belo dia: agora sou baterista. Qual o momento em que você se deu conta: agora eu sou músico? Os portais se abriram pra nossa geração dos anos 80, e acho que o grande oráculo disso foi a rádio Fluminense FM, no Rio. Eles começaram a tocar as fitas das bandas que não tinham gravadora. A gente gravou a fita demo em novembro de 82. A música começou a tocar em dezembro, a rádio tratou de ajudar a gente a fazer uma noite no Circo Voador (casa de shows emblemática ao Rock Brasil 80), abrindo para o Lulu Santos, que era um cara com que a gente tinha uma sintonia grande. Depois desse show, ficamos muito bem falados na crítica, a banda revelação do verão 1983, o Herbert começou a ser procurado pelas gravadoras. O momento crucial foi quando a gente assinou com a Odeon: ‘caramba, vamos gravar um disco!’. Era mais fácil ir à Lua do que gravar um disco (risos). O Herbert chutou o curso de arquitetura faltando três ou quatro matérias, eu e o Bi largamos também, não dava mais pra conciliar. Como esse encontro de vocês se solidificou e permanece por tanto tempo? Temos noção clara de que a música é uma somatória: o Herbert é muito talentoso, estudou música, violão, tocou bossa nova, sabia harmonias, sempre foi um cara mais preparado. Ele que falou pro Bi comprar um baixo. Aí chamaram o Vital, que batucava na carteira, pra ser o baterista. Quando eu entrei, houve esse encantamento mútuo. O Herbert foi muito generoso, viu a musicalidade intuitiva minha e do Bi: a gente não aprendeu na escola, foi aprendendo com ele. Poderia ser Herbert Viana e seus Paralamas, mas ele generosamente deu esse espaço a mim e ao Bi. Devo tudo o que sou aos Paralamas. Colocamos músicos adicionais, mas a gente sempre foi um tripé criativo. Isso sempre foi muito bem resolvido. E ainda tem o quarto mosqueteiro, o Zé Fortes, amigo do Herbert na faculdade, e o Herbert convocou-o para ser o empresário. Ele não sabia nada de nada, e foi aprendendo como a gente. Um pouco da responsabilidade de estarmos juntos até hoje atribuo ao Zé: ele nunca permitiu que a gente se metesse em roubada, preservou o núcleo criativo sem que precisasse se estressar com contrato, grana ou ego. O Paralamas que saiu do Rock in Rio de 1985 foi diferente do que entrou? Com certeza. Quando começou o rebuliço com o Rock in Rio, a gente ficou na esperança de que conseguiria ser incluído. A gente sabia que seria uma vitrine gigantesca. Aí aconteceu um episódio pitoresco: o Zé, nosso empresário, começou a ir atrás da organização para saber se havia chance dos Paralamas serem chamados. Ele conseguiu então um encontro com o Roberto Medina (empresário, criador do Rock in Rio) e quando ele chegou, o Medina ‘ainda bem que você veio aqui, porque eu ia chamar Os Paralamas’. A gente saiu consagrado: ao longo de 1985 fazíamos dois shows por noite no mesmo ginásio. E este ano vamos de novo ao Rock in Rio (amanhã, às 16h40), a quarta, quinta vez, mas terá esse viés dos 40 anos do festival. Vamos fazer um show muito emocionante. Você é fã confesso dos Beatles. Mas não há no som dos Paralamas nenhuma influência direta – há mais até do The Police. Como foi construído o som de vocês? Depois que Lennon morreu, fiquei num bode danado, comecei a me ligar no que estava acontecendo de interessante em música no meu momento, na virada dos anos 70 para 80. Comecei a prestar atenção no The Clash, no reggae do Bob Marley. Então veio o Police, aquela levada da new wave, das bandas mais moderninhas da Inglaterra. Quando a gente começou a tocar junto, teve no Police uma referência forte, porque fazia uma coisa diferente daquele rock derivativo do blues, aquele formatão meio Stones. Aquilo encantava a gente, assim como as bandas de ska inglesas, e foi sendo referencial até pra gente se diferenciar da música que estava sendo feita. O Herbert achava que seria determinante se diferenciar do resto das bandas. Imagine que você tem 20 anos hoje e toca numa banda desconhecida chamada Paralamas do Sucesso. A tecnologia atual facilitaria o caminho de vocês? Por que? A gente vive uma realidade sonhada há muito tempo, com a democratização da produção musical. Naquela época, era muito difícil ter acesso à produção, as gravadoras controlavam tudo, tinham os próprios estúdios, botavam os artistas onde acreditavam, tanto o cara que vendia o primeiro trabalho por conta de uma efeméride, até bandas que eles acreditavam pudessem ter uma carreira. Era um filtro muito estreito. Hoje, qualquer um grava um disco no seu laptop, no quarto, com qualidade e critério. Mas isso não facilita, no sentido de ter retorno do trabalho. O desafio ainda é chegar ao público? É. Mesmo que seja o micropúblico de que o Lulu Santos falava: ‘antes de vocês começarem a gravar, precisam ter o seu micropúblico’. Hoje em dia todo mundo quer começar por cima. O artista novo vai fazer show na megacasa de espetáculos porque tem 3 milhões de seguidores no Tik Tok. O sucesso hoje está associado à volatilidade das mídias sociais. A gente não moldou nossa ideia musical para vender mais ou ficar famoso. Tem alguma história com Santos? O primeiro lugar que a gente tocou fora do Rio foi aí, no Heavy Metal (casa que ficava no mezanino de um prédio, na Avenida Bartolomeu de Gusmão). Depois, a gente passou aos palcos maiores, fizemos o (Clube) XV, o Caiçara, onde o lustre do salão balançava quando começava o show. Era incrível. Paralamas para sempre? Talvez seja a única coisa que a gente fale com certa arrogância e pretensão: queremos continuar fazendo o que a gente faz, da maneira que a gente faz, independentemente do grau de sucesso que ainda se possa conseguir.