"A arte sempre terá o papel de abrir os olhos internos de cada um. Ela não modifica o mundo: é um instrumento para que se modifique o mundo”, afirma Marcos Caruso (Léo Rosário/ Globo/ Divulgação) Marcos Vianna Caruso, ou simplesmente Marcos Caruso, não nasceu para o teatro: nasceu com o teatro dentro de si. “Estava em mim essa necessidade de falar através de personagens o que eu gostaria de dizer”, resume o ator, hoje com 72 anos, que decidiu o que faria pela vida inteira aos 10 anos. Essa caminhada pelos palcos e telas o trazem mais uma vez a Santos como diretor do espetáculo Jandira: Em Busca do Bonde Perdido, cuja estreia nacional será este final de semana no Teatro Guarany. Com Isabel Teixeira no elenco, o monólogo coroa 40 anos de cooperação na dramaturgia entre Caruso e a atriz e autora santista Jandira Martini, morta em janeiro deste ano. Nesta entrevista, ele recorda a amiga da inteira, além de comentar as agruras de se fazer teatro no Brasil. E deixa um alerta: que se tenha cuidado com a ameaça de retrocessos em conquistas sociais. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! O teatro é de família? Como a arte entrou em sua vida? Meu pai era contador, minha mãe faleceu no parto, quando eu nasci. Sou filho único. Quando tinha seis, sete anos, passava as férias com minha avó no Rio, eu morava em São Paulo. Ela era costureira, comecei a imitar minha vó costurando uns bonecos de fantoche com retalhos e agulha, e brincava de teatrinho atrás da mesa da sala de jantar, divertindo as clientes enquanto esperavam a prova de roupa. Ali nasceu o ator, autor, diretor, cenógrafo. Minha tia-avó, começou a me levar para assistir peças infantis. Quando eu tinha 10 anos, ela me levou para ver Paulo Autran e Bibi Ferreira, em My Fair Lady. Ela contava que eu teria dito, no balcão do Teatro Carlos Gomes: ‘é ali que eu quero estar’, apontando para o palco. Fazer teatro no Brasil é um ato de coragem? Sim. Vivemos em um país onde a arte não é apoiada pelos governos, e quando é, é muito menos do que deveria ser. Não digo patrocínio, digo apoio mesmo, de casas de espetáculo, de possibilidades de viajar por um país continental, e sobretudo de apoio educacional, de termos o teatro na escola. Na França, estuda-se Molière, na Inglaterra, Shakespeare, em Portugal, Gil Vicente. Aqui não há essa relação da criança com o teatro. Se isso acontecesse, a criança se tornaria um jovem com interesse pelo teatro e o jovem se tornaria um adulto com interesse pelo teatro. Muitos atores de teatro acabam migrando para a tevê, justamente para conseguir melhor fazer teatro. Como você vê isso? Não passei por isso. Fiz televisão de forma muito bissexta até os 50 anos. Quando entrei na Globo, já tinha 30 anos de carreira e consegui sobreviver muito bem. Já tinha um nome como autor e ator, uma carreira sólida (no teatro). As peças que produzi, atuei, dirigi e escrevi foram me conferindo respeito. Eu levei mais público ao meu teatro pela televisão? Sim, porque é uma vitrine inacreditável. Quando você faz uma peça, fala para 400 pessoas por noite. No capítulo da novela, para 40 milhões de pessoas. Nesse sentido, você considera ter a missão de atrair um público mais amplo e cativá-lo no teatro? Não tenho dúvida. As pessoas ficam interessadas em ver pessoalmente quem elas conhecem pelo vídeo e acabam indo ao teatro. Eis aí a grande responsabilidade: de fazer com que o público se sinta honrado pela tua presença no palco. Não adianta fazer uma novela, ‘agora eu vou ganhar dinheiro no teatro montando qualquer porcaria’. O público te abandona e pode abandonar até o teatro. No cinema isso não acontece: o público não gosta de um filme, sai no meio da sessão e vai para outra; com um livro, não gosta, larga e pega outro. Agora, vai numa peça, não gosta, muita gente sai e diz: ‘não vou mais ao teatro’. Na pandemia, assim como a música, o teatro se utilizou das lives. Você acha que esse pode ser um caminho para ampliar o gosto pelo teatro? Não acho. Foi pontual, aconteceu quando as pessoas estavam impossibilitadas de sair de casa. E no teatro você tem que sair de casa – ou o teatro vai para dentro da sua casa. Mas o ao vivo, a interação, é fundamental. O teatro é feito de uma relação de sentidos: você ouve, experimenta o cheiro, o gosto, a visão, o tato... que só as artes cênicas e o circo podem oferecer. E o que vai fazer você ir ao teatro é sair dele com vontade de voltar. Como você vê as novas tecnologias, em especial a Ingeligência Artificial, nas artes em geral e no teatro? Progresso é bem-vindo. Se o Gutemberg não tivesse inventado a imprensa, estaríamos hoje picando a pedra com machadinha. Vamos evoluindo, mas, obviamente, temos que observar o que de progresso há em uma nova tecnologia e o que de retrocesso pode haver. Neste caso, deve-se fazer que coíbam o retrocesso. Para isso, temos que estar atentos, não só os legisladores, mas todos nós, para que um tipo de inteligência artificial não eleja um presidente da república, por exemplo, com fake news. No caso do teatro, a IA não pode substituir o ser humano no palco, muito menos na plateia. Para nós, tem que vir de uma forma que não macule a nossa arte. Sobre a peça que você traz a Santos. Primeiro: como conheceu a Jandira Martini? Jandira estava em um grupo que me impressionou, o Royal Bexiga’s Company, que ela fundou com Ney Latorraca, Eliana Rocha (em meados dos anos 70). Em 1982, fizemos um espetáculo juntos, do Ionescu (Eugène Ionescu, 1909-1994, dramaturgo romeno radicado na França). A partir de então, sabia que ela tinha escrito um texto com a Eliana Rocha. Eu já tinha escrito Trair e Coçar... Em 1983, escrevi a novela Braço de Ferro na Bandeirantes e escalei-a para um dos papéis. Durante a novela, a gente começou: ‘vamos escrever juntos alguma coisa?’. Em 1984, com a abertura política, as Diretas Já, pensamos: ‘vamos falar sobre o quê?’. Sobre as falcatruas do poder. E nasceu Sua Excelência, o Candidato. Ganhamos o Prêmio Molière (principal prêmio de teatro no País, entre 1963 e 1994). Nos entusiasmamos e não paramos mais de escrever. Como Jandira: Em Busca do Bonde Perdido chegou em suas mãos? Jandira escreveu o texto entre 2015 e 2017. Ela estava tratando câncer no pulmão. Durante esse processo, escreveu um livro, exatamente o que está na peça, em primeira pessoa. Ela conta da doença de uma forma poética e bem-humorada, ela não sabia fazer nada sem humor. Ela editou o livro e quis que eu lesse. Li e disse: ‘Que lindo! Que coragem de se colocar!’. A Jandira era uma pessoa muito reservada nas palavras e nas relações. Isso proporcionou a ela uma maneira de falar de si para as pessoas. Até o dia que ela me disse: ‘acho que vou montar esse texto, vou dar o nome de Em Busca do Bonde Perdido’. O ‘bonde perdido’ é uma referência a Santos? Sim, é o bonde aberto da praia, que ia pelo Canal 1 para o Estuário, Macuco – ela comenta no início do livro. Então ela queria fazer (no teatro). Mas não deu tempo. Depois, os filhos consideraram que deveria ser feito e vieram até mim: ‘a única pessoa que pode dirigir é você’. O que me fez também querer dirigir é a possibilidade de fechar um ciclo de 40 anos de escrita com ela, que eu não consegui com ela viva. Então escolhemos Jandira: Em Busca do Bonde Perdido, com o nome dela na frente do título, para as pessoas saberem que estamos falando daquela mulher. Como Isabel Teixeira entrou no projeto? Ela trabalhou comigo na novela Elas por Elas, quando tivemos uma aproximação muito grande. Eu via a Isabel nesse papel: ela é uma atriz de teatro, tem 30 anos de carreira, é autora, diretora e produtora, como a Jandira, e tem um físico muito próximo. Você teve quatro casamentos heteroafetivos e hoje vive um relacionamento homoafetivo. Há alguns anos, sobre isso, você disse que “o momento que estou vivendo é lindo, porque agora tudo é possível”. É tudo possível mesmo? Não há um certo clima de retrocesso no ar? Há, sim. Mas quando se morde a maçã, não adianta querer fazer com que a pessoa volte para um determinado paraíso. Eu me libertei, como o mundo se libertou. Estamos vivendo um outro momento do mundo. Aonde ele vai, não sabemos; mas sabemos de onde veio e há lugares aos quais não queremos ou não devemos mais voltar. Portanto, tudo é possível, sim. Sou da geração do ‘é proibido proibir’, mas era um proibido proibir em um mundo de muita repressão, em que pedíamos liberdade. Hoje, a temos. O mundo se abriu de uma maneira que é muito bom viver nele, mas atentos a nós mesmos (à nossa fala): temos uma missão com as futuras gerações. Há gente ainda validando preconceitos. Como a arte pode atuar para mudar esse contexto? A arte sempre terá o papel de abrir os olhos internos de cada um. Ela não modifica o mundo: é um instrumento para que se modifique o mundo. Por mais que os preconceituosos existam, eles ouvem música, cantam no chuveiro, escrevem... têm uma escultura em casa. um quadro na parede. De alguma forma, a arte toca essa gente. E se não toca, têm que entender que o quadro que põem na parede, ou o livro que compram para enfeitar a estante ou ficar atrás da live, por mais que não leiam, aquilo é arte. O ser humano não sobrevive sem arte. O que é a esperança? É ver que o jovem de hoje é diferente de mim. Falo do jovem que eu era e do que eu gostaria de ser, que não serei mais. Mas de ver que o jovem hoje tem mais ferramentas para alcançar seus objetivos do que eu tive. E o amor? Amor é... fraternidade. Basta ser fraterno, que se exercita o amor.