"Brinco que, daqui a pouco, não precisaremos mais estar aqui: o compositor estará quase descartado e cada um vai fazer sua música”, comenta Almir Sater (Fábio Rocha/Globo/Divulgação) Almir Eduardo Melker Sater, ou simplesmente Almir Sater. Em seu batismo musical, porém, o nome é um detalhe: na viola construiu a sua personalidade. De quebra, popularizou ao grande público o instrumento típico dos lamentos sertanejos, do imaginário caipira, da mística nordestina. Natural de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, aos 67 anos, o instrumentista, cantor, compositor e ator é o nome que, empunhando a viola de 10 cordas, apresentou o Brasil a si mesmo, ainda que aberto para o mundo (na sua música, há influência de folk rock e até de blues). Neste sábado (20), Almir estará no palco do centro de convenções da Ponta da Praia, em Santos, no show que faz com sua banda. Nesta entrevista, Almir Sater fala de suas raízes libanesas e de como a música se impôs na sua vida; também fala dos bastidores de seu atual personagem, Rachid, na novela das nove da TV Globo, Renascer. E de maneira irônica, mas crítica, analisa como a tecnologia pode transformar a todos em compositores – mas a que preço? Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Como a música entrou na sua vida? Campo Grande, de onde venho, é muito rica musicalmente. Lembro que uma vez teve um show de uns amigos, três, quatro anos mais velhos – quando você é mais jovem, faz muita diferença; então era um show dos mais velhos. Eu gostei muito daquela emoção de ver as pessoas ao vivo, no palco. Eu já tocava um pouco de violão, como qualquer estudante que aprende três acordes, mas naquele dia senti que queria um pouco mais. Comecei a tocar mais, mas nunca imaginei que fosse ser um músico profissional. Nunca pensei que pudesse chegar onde cheguei, a viver de música. A família não teve nenhuma influência? Minha mãe tocava piano modestamente. Ela era professora de inglês, usava country music para os alunos aprenderem. Eu comecei a ter contato com música folk americana pela minha mãe. Havia uma tia minha, do Rio de Janeiro, que tinha sido aluna do Villa-Lobos e foi para Campo Grande. Mas o piano nunca foi meu forte: minha mão só servia para instrumentos de corda. E então você foi cursar Direito no Rio de Janeiro... Foi um pretexto, uma faculdade mais fácil que eu pudesse passar no Rio, meus primos já estudavam lá. Mas aos poucos a música foi me absorvendo e eu não consegui terminar o curso. Há uma história de que você decidiu de fato largar tudo e trilhar o caminho da música após ouvir uma dupla caipira, no Rio de Janeiro. Como foi isso? Fui visitar uns amigos que moravam nas pensões da Rua do Catete. Eu morava perto e atravessei o Largo do Machado, onde sempre havia muitos eventos de música nordestina. Nesse dia, para minha felicidade, coisa do destino mesmo, havia ali uma dupla mineira ponteando a viola. Eu tocava violão, gostava do som da viola, mas nunca havia tido contato. Quando vi aquele violeiro tocando... havia uma mística, ele disse que estava usando uma dedeira que era uma unha de águia, E ele tocava muito bem. Pensei: ‘quero essa vida’ e vi que o Direito foi entortando a partir dali... Como foi o caminho a partir dali? Tinha um amigo meu que estudava no Rio, a gente brincava de fazer duetos. Aí ele mudou para Campo Grande, eu também, comprei uma viola caipira e ficamos brincando de ser uma dupla, de forma amadora. A gente participava de festivais, mas nunca pensava em se profissionalizar. Até conhecer o grande Tião Carreiro. Quando comprei a viola e fui para Campo Grande, havia amigos lá que tocavam muito bem. ‘Tô com a viola caipira, o que vocês me aconselham?’. Eles: ‘Tem dois discos chamados Tião Carreiro – Solo de Viola. Compra esses discos’. Aquele conselho foi fundamental. Comprei os discos em que o Tião Carreiro praticamente faz todos os solos dos hits dele e aquilo me ajudou muito. Foi meu primeiro método, até porque não havia muito método. Aprendi muito com Tião, como também com os anônimos, como aquele violeiro no Largo do Machado, e outros que fui conhecendo. Não tem escola, então cada violeiro mostra algo diferente. Esse é o lado encantador da viola. O Pantanal é uma influência na sua música? O Pantanal nunca foi muito musical, tem pouca gente, é o lugar dos bichos, não tem uma cultura musical muito rica. Nossa influência vem muito mais da fronteira paraguaia. Campo Grande sempre foi recheada de lugares com música ao vivo. Na minha infância, cada vez que a gente ia numa churrascaria, numa casa noturna, eram os paraguaios tocando ao vivo. Minha música tem uma influência da música paraguaia. Mas nas suas canções há um certo clima pantaneiro, se não nos arranjos, mas nas letras, com a natureza presente... Os bichos, a natureza, encantam a gente. Mas o isolamento, a sensação de ter todo o tempo do mundo, torna mesmo o Pantanal um ótimo lugar para compor. Meu vizinho mais próximo fica a 5 quilômetros... o espírito é leve, as ondas que circundam aquele lugar é leve, parece que a gente tem mais facilidade para captar inspirações. Em 1990, quando você foi fazer a primeira versão da novela Pantanal, já era um músico reconhecido. Como surgiu o ator em você? O palco facilita algumas coisas quando você vai representar. Às vezes, o show está muito ruim, as condições estão ruins, você mal consegue tocar: você conta histórias, tem que ser artista lá em cima, porque as pessoas vão a um show para serem felizes, não para sofrer. Quando fui fazer Pantanal, havia sido convidado para cantar duas músicas, como Almir Sater. E fui meio resistente a isso. Disse: ‘já que vou entrar numa ficção, queria ser parte dela’. O autor, o Benedito Ruy Barbosa, estava na fazenda aquele dia: ‘Então você quer um papel?’. Eu disse ‘pode ser o mínimo, mas se eu for tocar, quero tocar como um pantaneiro’. Ele brincou comigo, escreveu num papelzinho um texto e me entregou: ‘fala isso aqui para mim daqui a 10 minutos’. Fui, falei o texto. Ele: ‘Bonito... Você quer participar da novela?’. ‘Quero’. Então ficamos falando do folclore da viola. O Ruy Barbosa conhece muito esse universo, ele já tinha feito algumas peças de teatro que falavam do cramunhão, dos pactários, Então ele criou um papel maravilhoso para mim. A partir daí, a minha carreira teve um impulso muito grande. Pude tocar no Brasil inteiro. E o Rachid, de Renascer? Esperava a repercussão que vem obtendo? O papel é muito bom, também do Ruy Barbosa, reescrito pelo neto dele, o Bruno Luperi, que é um craque. Tenho meus parentes libaneses, Campo Grande é uma ilha de árabes cercada de japoneses por todos os lados. Quando passou a novela primeira vez (em 1993), meus tios ficavam encantados com o Arutin (Luís Carlos, 1933-1996), que fazia o papel na primeira versão. Ele fez muito bem e a gente ficava brincando de imitá-lo. Eu já tinha feito Pantanal e, na época, fiquei ‘putz, se eu fosse mais velho, poderia ter feito esse papel’. Contei isso para o Bruno, ainda durante o remake de Pantanal, quando ventilaram a nova versão de Renascer. E o Bruno ‘vou te chamar, hein?’. Sentia que ia ser bom, já queria ter feito, e desta vez, tinha idade. Você popularizou a viola para um grande público no Brasil, com canções que, embora honrassem a tradição regional, tinham roupagem moderna. Quais as suas influências? Nunca trabalhei em cima da música regional. Tive, sim, influência da música regional, mas sou muito feito da minha geração, com influência do folk rock. (Bob) Dylan, James Taylor, o folclore inglês, o blues. E muito do som da viola, mas não da música caipira em si. Gostava muito do violeiro, daquele cara que ponteava, do instrumentista. E nunca fui muito do cantor, sempre gostei do compositor. Como você vê as novas tecnologias, em especial a inteligência artificial, sendo aplicadas à música? Sou um pouco ignorante sobre isso. Mas no que eu sinto, acho que vai chegar um ponto que cada ser humano vai compor a sua música. Vai pegar do João, do Augusto, do José: quero um pouco de cada um e a inteligência vai apresentar uma música que é sua – entre aspas... o ser humano está ficando tão egocêntrico, que vai querer só ouvir as coisas dele. Hoje em dia, as pessoas vão no show mais para cantar do que para ouvir. Mais para filmar do que para ver. Então não sei onde vai chegar isso. Eu brinco que, daqui a pouco, nós não precisaremos mais estar aqui: o compositor estará quase descartado e cada um vai fazer sua música. Um de seus grandes parceiros é Renato Teixeira, que nasceu em Santos. Conhece a Cidade? Tem alguma história aqui? Minha mãe é de Santos, do Macuco. Os imigrantes quando chegavam no Brasil, era pelo Porto. Meus avós moraram muito tempo em Santos. Eles tinham um sotaque árabe, com acento português, era muito engraçado. Minha mãe nasceu aí, mas foi ainda menina para Campo Grande, com meus avós. Porém, ela gostava muito daí. A primeira vez que eu fui para Santos, tinha cinco anos: foi o primeiro mar que conheci. Aliás, tenho uma foto no mar de Santos. O que seria da sua vida sem a viola? Muito sem graça. Não consigo imaginar. Eu devo tudo à viola caipira. Se eu tocasse violão, por mais que eu tocasse bem, há uma influência mundial. A viola é muito mais nossa. Qualquer coisa que você faz, representa muito. Tive muita felicidade de começar minha carreira tocando viola, nominado violeiro: eu gosto dessa palavra.