[[legacy_image_357436]] Ney de Souza Pereira, pessoa física, nascida em Bela Vista, Mato Grosso do Sul, em 1º de agosto de 1941. Similar à canção O Vira, de Os Secos e Molhados, de 1973, ao subir nos palcos pelo mundo, transforma-se em outra coisa. Essa ‘outra coisa’ não tem tempo, nem lugar, e responde pelo nome de Ney Matogrosso: uma das maiores vozes do Brasil, seja na música, seja na inspiração libertária de suas performances antológicas. O público santista poderá testemunhá-lo mais uma vez neste sábado (18), com seu show Bloco na Rua, no palco do centro de convenções, com ingressos à venda pela internet. Ney saiu de casa aos 17 anos, após desavenças com o pai militar, para viver a sua liberdade e em busca de si mesmo. A arte era um dos pontos desse trajeto. Aos 82 anos, e há muito reconciliado com o pai, é bastante reservado e econômico nas palavras. Mesmo assim, nesta entrevista, recorda o início da carreira, a relação com a fama e fala sobre a censura sofrida na ditadura. Também discorre sobre o caráter sagrado do palco, o panorama musical de hoje e considera não ser deste tempo. “Não me interessa ser. Veja: meu tempo não era melhor: mas eu não me adapto a este tempo”. Tanto faz: Ney Matogrosso já é eterno. Você é mais um cantor ou um ator? Como uma coisa sustenta a outra para chegar à sua performance? Em tudo. Não é separado. É tão automático que eu nem raciocino sobre isso. Mas não danço o tempo inteiro, danço nas partes em que posso. Tem música que canto sentado, que me mexo menos, mas quando é pra dançar, eu danço. Mas não há uma preocupação de dançar menos para cantar mais. No início dos anos 70, você vivia como hippie, livre, sem amarras. Você queria ser artista. De repente, Secos e Molhados literalmente cai no seu colo. Naquele momento, a fama foi um efeito colateral de estar num palco? Sim, era um efeito colateral. (Mas recebi) com naturalidade. Não sou mais, nem menos. E tinha uma coisa a meu favor: a fama não me atrapalhava, porque ninguém sabia quem eu era, por causa da maquiagem. Depois do Maracanãzinho lotado com 20 mil pessoas (show histórico do grupo Secos e Molhados, em 10 de fevereiro de 1974). No dia seguinte, eu estava na praia, e ninguém sabia quem era eu. Sobre a maquiagem do Secos e Molhados e do Kiss serem idênticas: simples coincidência ou coincidência suspeita? Não sei de mais nada sobre esse assunto. Durante um tempo ainda pensei nisso. Só posso afirmar o seguinte: eu não copiei ninguém. A minha inspiração veio do Teatro Kabuki, que eu via lá na Liberdade (bairro de São Paulo). Nessa época, pouco antes do Kiss surgir, o Secos e Molhados fez uma turnê no México... Sim. Apareceram lá uns camaradas, empresários americanos, que queriam me levar, achavam minha performance muito boa, mas que o som tinha que ser mais pesado. Eu disse ‘não quero, estou começando uma história no meu país, não vou largar tudo e para os Estados Unidos’. Nunca foi meu sonho ir para os Estados Unidos. Naquela época, revistas de música norte-americanas já tinham publicado nossas fotos com os rostos pintados, falando do que Secos e Molhados estava gerando para a indústria musical no Brasil. Você reforça uma figura andrógina nos shows. Muito além do personagem de um artista, essa figura não seria uma parte do próprio Ney, que sofreu repressão por sua sexualidade, e consegue expressar essa faceta com liberdade no palco? Antigamente, eu nem raciocinava sobre aquele ser. Mas eu não tenho a preocupação de ser homem ou mulher no palco. E hoje eu até acho que sim, seja um outro lado meu que aflorou e eu elaborei. Se não fosse uma parte intrínseca do meu ser, não teria convencido ninguém. Se fosse apenas uma invenção para ganhar dinheiro, fazer sucesso, não teria sobrevivido. Era verdadeiro. Nesse sentido, gostou do show da Madonna? Não fui lá ver, eu vi pela televisão. Acho que é extremamente profissional. Mas não me prende. É muito mais tecnológico do que artístico. Claro, tem a parte artística toda, aquele monte de gente no palco, mas eu queria vê-la mais sozinha, cantando. Dizem que ela nem cantou, que ela dublou, não sei se isso é verdade. Mas eu queria vê-la cantando mais. Se é cantora tem que cantar. Por sua postura, sofreu censura na ditadura? Não cheguei a ser preso, mas tive muitos problemas. Uma vez, em Brasília, pararam o show, porque a mulher de um militar reclamou que eu estava sem camisa. Foram lá atrás me dizer que eu não poderia cantar sem camisa. Eu disse ‘então eu viro as costas, vou embora e o público vai depredar esse ginásio’. Pronto. Entrei, continuei fazendo o show e fui me embora. Mas por conta disso, passei dois anos proibido de voltar a Brasília. Nunca vi você se posicionar publicamente sobre política. Como vê o Brasil hoje? E a polarização? Polarização é nojenta, desnecessária, primária. Cada um tem o direito de pensar o que quiser. Pra quê isso? Uma guerra civil por causa de política? Agora, com política partidária eu nunca me envolvi, pois não me interessa. Eu voto nas pessoas em que acho que tenho de votar. E sempre votei no Lula. Você tem preocupação com o meio ambiente, até mantém uma pequena reserva florestal no Rio, para animais da Mata Atlântica. Como vê a tragédia no Rio Grande do Sul? É uma coisa assustadora, porque é o prenúncio de algo que pode começar a acontecer com regularidade. Aliás, já está acontecendo no mundo, não é só em Porto Alegre ou no Brasil. A ignorância contribui para que tudo se agrave. À medida que não se acredita na mudança climática, não se prepara e não há saída quando acontece. Você é uma pessoa religiosa? Não tenho religião. Mas eu acredito... muito diferente da crença bipartida, do ou você é católico ou evangélico. Isso nem passa pela minha cabeça. Pode-se dizer que você expressa sua religiosidade no palco? Pode ser também... porque é um momento de total concentração minha, momento sagrado. Essa percepção eu tenho. Antes de entrar em cena, imagino o topo da minha cabeça aberta, entrando uma coisa por ela, que vai sair pelo corpo e emanar à plateia. É um ritual. O que você teria feito se não fosse artista? Não sei... desde criança, sempre achei que fosse artista. Poderia não ser cantor, porque não era minha meta, achava que seria para o teatro. Mas a música me pegou e eu não me sinto capaz de me afastar dela, por exemplo, três ou quatro meses para fazer uma peça. Já tive proposta de fazer teatro, mas não aceitei por não me achar capaz de deixar a música. Falando em música, o mercado mudou. A tecnologia facilitou a gravação e a distribuição. Mas o conceito de álbum deu lugar ao single: você lança uma música hoje, em três meses lança outra. O que você acha disso? Insuportável. O único que lancei nesse esquema, eu havia feito um trabalho do começo ao fim, a gravadora me propôs lançar quatro primeiro. Eu disse ‘vocês até podem lançar quatro primeiro, mas depois vão lançar o resto’. Assim saiu o disco da pandemia, Nu com Minha Música. A gravadora, depois, não lançou o CD, então eu mesmo imprimi e vendi. Tem uma capa que eu escolhi, a informação que eu selecionei. Quando ouço uma música, quero ter a referência do que foi feito ali. Hoje em dia não se sabe nem que é compositor de mais nada. Nem quem são os músicos que tocam no trabalho. O jeito de se ouvir música mudou... Não se ouve um disco inteiro. E os recados acelerados? Acho isso o fim da picada. As pessoas não se dão ao trabalho de ouvir um recado no tempo em que se está falando. Isso não me agrada. Você acha que alguém vai me mandar um recado eu vou acelerar? Quero ouvir a voz da pessoa. Não sou deste tempo, não me interessa ser. Veja: meu tempo não era melhor; mas eu não me adapto a este tempo. Estou no meu tempo. Em uma entrevista, você mencionou que houve uma identificação com Rita Lee de alma gêmea. Nesse sentido, à parte a paixão amorosa, você teria em Cazuza um irmão menor ou não? Não... nunca olhei Cazuza de cima para baixo. Sempre o admirei artisticamente. Ele foi o teu grande amor? Foi um deles. Não tive só um – felizmente (...) depois que namorei Cazuza, convivi 13 anos com uma pessoa, coisa que não admitia. Com Cazuza foi rápido e muito intenso (quatro meses). Mas o amor durou até o fim da vida dele, amor independente de sexo, de ser humano a ser humano. Tem alguma história memorável com Santos? A única vez que passei mal em um show foi aí, em um desses grandes clubes, nos anos 70, com Secos e Molhados. Passei tão mal que teve que encerrar o show. O problema? Eu jantei. E não é que a comida estivesse estragada: eu dançava muito mais do que hoje em dia. Ali eu aprendi: não posso comer antes de fazer show. Até posso comer uma fruta, mas não comida. Você completa 83 anos este ano. Como se sente? Eu aceito tudo na vida. Aceito a idade, como aceito até a morte. Mas a idade não pesa ainda. Eu estou muito leve, elástico, flexível. Mas eu me cuido: faço ginástica desde os 50 anos, diariamente. O que é ser um homem com H? Melhor: um ser humano com H? As pessoas precisam ter boa vontade, respeito com o próximo, solidariedade... são os bons princípios para com o outro. Eu tenho respeito pelas pessoas. Eu ando pela rua, ninguém me destrata. Pelo contrário: pegam meu braço e dizem ‘te adoro!’. Você acha que eu não gosto disso? (risos)