Seja dentro ou fora dos palcos, alegria é a palavra que define Ney Latorraca, de acordo com a amiga de uma vida inteira, a diretora e professora de teatro Neyde Veneziano (Luiz Fernando Menezes) Os palcos e as telas estão mais tristes – e muito mais pobres. A dramaturgia brasileira perdeu o ator, diretor e comediante santista Antonio Ney Latorraca, morto ontem, aos 80 anos, em consequência de um câncer na próstata, diagnosticado em 2019. Ney estava internado na Clínica São Vicente, na Gávea, Rio de Janeiro, e deixa o marido, Edi Botelho, com quem era casado há 30 anos. O velório será realizado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. A Prefeitura de Santos decretou luto de três dias pela morte do ator. Alegria. Seja dentro ou fora dos palcos, essa é a palavra que define Ney Latorraca, de acordo com a amiga de uma vida inteira, a diretora e professora de teatro Neyde Veneziano, também santista. “Ele era muito afetuoso. Quando meu marido morreu, ele foi o primeiro a me ligar (...) Depois de se tornar um ator famoso, ele se manteve sempre o mesmo, divertido e humano”. Neyde, Ney, a atriz e dramaturga Jandira Martini e o jornalista e crítico de cinema Rubens Ewald Filho eram inseparáveis – quase como um quarteto fantástico dos palcos de Santos nos anos 60. Entre 1964 e 1968, pelo Teatro Escola da Faculdade de Filosofia de Santos (Teffi), onde Neyde e Jandira cursavam Letras, foram diversas e memoráveis montagens. “Quando nós entramos (na faculdade) havia um trote diferente, um show de calouros”, relembra Neyde. “Chamamos o Ney, que tinha já feito um espetáculo pelo Colégio Canadá (Pluft, O Fantasminha) para nos ajudar”. Depois dessa ajuda, não pararam mais. Humor na veia Um talento nato, não poderia mesmo parar. Neyde descreve o ator Ney Latorraca como “o diretor de si mesmo”. “Já trabalhei com atores, inclusive de renome, que chegavam e perguntavam: ‘o que eu faço?’. Ele sabia o que fazer, dava importância grande ao corpo, à forma de falar”. Assim no palco, como fora dele: Ney era o humor e a gentileza personificados. Ele chegava na casa de Neyde, por exemplo, e se dirigia à mãe dela: ‘esse é o melhor café da minha vida’. Depois, já na casa de Rubens Ewald, era o café da mãe deste o melhor. “Ele era muito engraçado. Certa vez, entrou no meio de uma briga em um baile no Caiçara Clube e começou: ‘o que está acontecendo aqui?’, daquele jeito dele. A briga acabou: todo mundo começou a rir”. E aí, santista? Também santista, também ator, curiosamente, Nuno Leal Maia só foi conhecer Ney Latorraca em São Paulo, quando ambos faziam o musical Hair. “Ele fazia uma personagem, uma mulher turista que saía da plateia e ia para o palco. Ele era um ator completo, que transitava da comédia ao drama”. Na telinha, Nuno recorda de trabalharem juntos em Estúpido Cupido, de 1976 – a última novela em preto e branco da tevê –, e Vamp (1991), em que interpretou o padre Garotão, em oposição ao vampiro, conde Vladimir Polanski, vivido por Ney. “A gente mal se via nas gravações. Só no final, quando o padre ajuda a matar o vampiro”. Mas o sangue santista de ambos – inclusive no futebol – dava o tom da brincadeira. “A gente se encontrava, ele brincava: ‘e aí, santista?’. Eu dava risada”. Sabia tudo e mais um pouco Adjetivos, há muitos. Um, em especial, também deve ser aplicado a Ney Latorraca: generosidade. “Ele era tão amável, gostava de compartilhar, era um colega excepcional”, descreve Helga Nemetik. A atriz integrou o elenco do espetáculo Seu Neyla, escrito por Heloisa Perissé, para celebrar os 60 anos de carreira de Ney Latorraca. “Era época da pandemia, então ele participava do espetáculo, de casa, em um telão”, relembra. Durante os ensaios, as inevitáveis brincadeiras de Ney. “Uma vez, ensaiando, ele no telão, de repente, parou, ficou tudo estático. ‘Caiu a conexão’, pensamos. E nada. Um minuto depois ele explodia rindo: ‘que conexão, que nada!’. Ele tinha ficado paralisado lá, brincando com a gente”. As boas memórias ficam para sempre. A saudade também. “Ele sabia tudo e mais um pouco”, resume Helga Nemetik.