[[legacy_image_328160]] Um dia, Edson Amâncio encontrou Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821-1881) e sua vida mudou. Esse encontro, hoje, se traduz em Meu Dostoiévski: Minutos Finais, livro do neuroci-rurgião e escritor, que será lançado neste sábado (20), às 17 horas, no Café Carioca (Praça Mauá, 1, Centro, Santos). Nesta entrevista, Edson Amâncio relembra o impacto do escritor russo em sua vida e de como, mais de 140 anos depois de sua morte, ele continua atual – não só literariamente, mas como um profundo conhecedor da alma humana. Com sete livros publicados, Edson analisa ainda a dualidade ciência e arte. Também fala sobre as Experiências de Quase Morte (EQMs), assunto que estuda cientificamente e é tema de um de seus livros, Experiências de Quase Morte – Ciência, Mente e Cérebro. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! De onde vem a admiração por Dostoiévksi? O primeiro contato foi na adolescência, aos 14 anos. Minha família não era muito de leitura, então eu procurava livro na biblioteca pública (em Sacramento, Minas, sua cidade natal). Na primeira vez que eu fui lá, dei de cara com Recordação da Casa dos Mortos, um livro muito emblemático dele. Quando li esse livro, não consegui largar, fiquei muito impressionado. A partir desse momento, comecei a me interessar. Na primeira oportunidade, peguei uma biografia dele. Não consegui desligar. A atração que tive pela obra também tive pela vida, tão tumultuada quanto os personagens. Há algo em Dostoiévski que, eventualmente, o vincule à Medicina, que o senhor também professa? Ao entrar na faculdade, tive um interregno (na leitura). O curso médico era muito apertado, tinha aula o dia inteiro, à noite eu ainda dava aulas em cursinho. Quando cheguei no quarto ano, em uma aula de Neurologia, o professor mencionou que Dostoiévski havia dado uma contribuição involuntária à ciência: ele descreveu, em alguns personagens, mas principalmente no príncipe Michikin, de Os Idiotas, sobre epilepsia. No século 19, a Medicina desconhecia ataques de epilepsia precedidos por uma aura de alegria e prazer, como ele descrevia no personagem e que ele mesmo sentia. A ponto dele colocar na boca do príncipe que daria a vida por aquele momento de alegria. Os neurologistas europeus, a partir do livro, foram pesquisar e constataram que, embora raro, esse fenômeno ocorre. O seu livro é narrado por várias pessoas. De onde surgiu a ideia dessa narrativa plural? Conheço as principais biografias, todas em detalhes: onde nasceu, morreu... quis sair disso, que já está amplamente esgotado. Viajei várias vezes à Rússia, conheci o tataraneto dele, fiquei amigo do pessoal do Museu Dostoiévsky. Criei uma relação de proximidade muito grande, a ponto de saber alguns detalhes que não estão nem em biografia. Nasceu daí. Então peguei o melhor amigo dele, o Maikov, que frequentava a casa dele, era um poeta importante, criei a voz dele. Depois, a voz do enteado dele, Pacha. Criei baseado no que sabia da personalidade dele, em cartas e relatos. E criei a voz da mulher dele, a Ana Grigorieva. A personagem que me deu mais trabalho foi a amante dele, que era uma mulher belíssima, era escritora também, e se apaixonou por ele quando ela tinha 21 anos e ele já tinha 30 e poucos, Polina Súsnova. Todos os personagens femininos da obra dele são inspirados nela. Finalmente, eu o coloquei na Índia, onde ele nunca foi. Mas aí eu caracterizo que ele é o meu Dostoiévski, não uma biografia: é o jeito que eu o vi a vida inteira. Existe uma tendência a romancear os distúrbios mentais e associá-los à criatividade artística. O que diz o médico Edson Amâncio? Escuto isso em muitos lugares. As pessoas costumam atribuir genialidade a doença neurológica. Se isso fosse verdade, que Dostoiévski era gênio por causa da epilepsia, a gente teria que erigir um monumento à epilepsia. Não é verdade: uma pessoa que tem epilepsia grave como a dele passa 12 dias fora do ar, incapaz de fazer algo e se comunicar. Ele era um gênio, apesar da doença, e não o contrário. Dostoiévski é um dos grandes leitores da alma humana. Além da epilepsia, como a sua obra pode auxiliar o conhecimento? O que chama a atenção na obra é que ele descreve a maldade do ser humano de uma forma sem limite. Seja na morte do pai pelos próprios filhos, em Irmãos Karamazov, ou no assassinato da usurária pelo Raskolnikov, em Crime e Castigo. Ele usa muita criança sofredora. Tem um conto de Natal em que uma menina, com a mãe, ambas pobres, a menina segura a mão dela, a mãe morre, a criança não percebe e diz ‘mãe, tá ficando muito frio aqui’. Então ela se refugia atrás de um carrinho vendo as janelas, todo mundo comendo, festejando o Natal. Ela acaba morrendo também, mas vê o Cristo criança vindo buscá-la com uma enorme árvore de Natal. Ele descreve a maldade, mas descreve também a evolução das pessoas, e o perdão, ele sempre foi o cara que perdoava. Ele passou por muitas agonias, problemas de saúde, perdeu filhos, então a piedade está muito presente nele. Ler a obra de Dostoiévski pode nos fazer melhores? Certamente. Pelo menos no meu caso, desde que li a Recordação... virei outra pessoa. A leitura dele é muito envolvente, as situações criadas, e o desfecho delas são sempre muito positivos. No próprio Crime e Castigo, Raskolnikov nega que é o assassino. Um dia, ele está na delegacia, chega um cara que confessa o crime. Aí, ele enlouquece e faz a confissão, não porque ele quisesse – ele achava a velha uma inútil, uma usurária –, mas porque havia um cara que seria condenado no lugar dele. Essa coisa da redenção, da melhora do ser humano. tem esse lado em que o crime faz oposição à redenção. Como é conciliar a prática médica e a escrita? Na minha própria experiência, eu não seria o tipo de médico que sou se não tivesse esse conhecimento de Literatura. e eu não escrevi nada até hoje que não tenha esse lado meu da Medicina envolvido. Não vou para o consultório sem levar um livro pra ler, um caderno para anotar. Faltou um paciente, escrevo. tiro muita coisa dessa convivência numerosa e variada que a gente tem no trabalho médico. Tiro muita coisa dali, disfarçando, mudando diagnóstico médico, obviamente. Eu me inspiro muito nas coisas que eu vivo, e a Literatura me faz ser mais humano, me melhorou muito como ser humano. O senhor tem um profundo trabalho de pesquisa nas chamadas Experiências de Quase Morte (EQMs), quando alguém clinicamente morto é ressuscitado e retorna contando que esteve consciente e vivendo experiências inusitadas. O que já concluiu sobre esses casos? Estou absolutamente convencido. Já conversei com mais de 150 pessoas que passaram por isso e familiares que presenciaram. O que eu não tenho é explicação científica de como isso acontece. Há meia dúzia de teorias. Uma delas, que me chamou a atenção, é a questão de que nós temos no nosso corpo uma substância chamada DMT. Essa substância que nós fabricamos é 10 vezes mais alucinógena do que o LSD. Ela existe, por exemplo, na planta da ayahuasca. Um pesquisador de Nova Iorque mostrou recentemente que na hora da morte aumenta a quantidade de DMT no organismo. A pergunta: o DMT teria um papel nessa história? Por que não é todo mundo que tem a experiência, se todos tem a substância? Pela ciência, chegaremos à alma, a fonte das artes? Não tenho conhecimento avançado sobre física, mas as coisas estão andando nesse sentido pelo lado da física quântica. Quando você imaginou que um físico diria que um objeto pode estar em dois lugares ao mesmo tempo? Eu acho que vem muita coisa por aí. Esperamos sobreviver para ver.