[[legacy_image_89166]] Um dos grandes nomes do teatro brasileiro, o ator, diretor e artista plástico Nelson Baskerville, de 60 anos, revisitou memórias e reflexões ao vir a Santos, sua cidade de origem, dirigir um espetáculo em celebração aos 25 anos do Grupo Tescom. Em entrevista para A Tribuna, Baskerville analisa as ‘jogadas’ e desafios que o teatro enfrenta atualmente, “de forma heroica”, como acredita. “O teatro não está em xeque. A relação do governo com a Cultura é que está, totalmente, em xeque”. Analisando a nova dinâmica de atuação que precisou ser adotada por conta da pandemia, Baskerville enfatiza a relação de força do teatro ao se adaptar para o on-line de forma “quase imediata”, com a questão da falta de incentivos culturais no País. “Acredito não ser a primeira vez que tentam acabar com a Cultura. Mas, talvez, nunca tenha sido de forma tão explícita e sem vergonha como agora. Só que as manifestações culturais vêm do povo, da necessidade de expressão. Acredito ser um rio que eles não têm muros para segurar”, ressalta, com firmeza. Com isso, Baskerville presume que o teatro retomará as atividades presenciais, quando possível, com ainda mais êxtase e que toda essa situação inspirará as obras teatrais que estão por vir. Além disso, para ele, essa “reação” da arte ainda será muito estudada em anos pós-pandêmicos. O formato híbrido (termo utilizado para o teatro que se apodera de técnicas audiovisuais para transmitir as peças de forma virtual) também é encarado com otimismo pelo artista. “Esse ‘teatro do streaming’ vai complementar o teatro brasileiro de um jeito muito forte. É uma coisa que veio para ficar”. Ao longo da pandemia, o santista se aproximou de produções do tipo com o projeto Solos em Confinamento, que dirigiu. Neste mês, a versão Terminal Só está em cartaz em sua 3° temporada. São 24 cenas gravadas nas casas dos próprios atores e atrizes, abordando “as coisas mais íntimas de quem foi obrigado a se voltar pra dentro”. Para conferir, no Instagram @terminal.so. O xeque Em meio à falta de incentivo para a área cultural, Baskerville comenta as polêmicas em torno da Lei de Incentivo à Cultura (Pronac), antiga Lei Rouanet. No último mês, o presidente Jair Bolsonaro assinou um decreto alterando a lei, para dar ênfase à arte sacra e às belas artes. “Essa lei é um instrumento muito importante de participação do estado na Cultura e foi demonizada por questões ideológicas”, frisa. Para Baskerville, o medo do atual governo é com relação à voz dos artistas, que não se calam frente a desmontes sociais e culturais. Com relação à ênfase no viés religioso na Cultura, o diretor acredita serem conceitos que não devem se misturar. “Igreja não é Cultura: é fé. Elas ocupam lugares diferentes, mas, às vezes, lutam pelas mesmas coisas”. Mas, em contrapartida, assume que “tudo é político”. [[legacy_image_89167]] Influência regional A Baixada Santista, para Baskerville, é berço de uma potente cena teatral. Ressalta nomes como Sérgio Mamberti, Ney Latorraca, Nuno Leal Maia, Miriam Vieira e Ronaldo Fernandes, que ganharam projeção nacional a partir daqui. Sua própria história no teatro começou no Ensino Médio, na Escola Estadual Primo Ferreira. A Farsa do Príncipe Invisível, do santista Greghi Filho, foi sua peça de estreia. “Quando subi no palco pela primeira vez, sabia que era aquilo que eu queria fazer”. A partir daí, suas relações com o teatro se fortaleceram cada vez mais. Ele se formou na Escola de Arte Dramática da USP e, com o passar dos anos, consolidou seu nome no teatro, se destacando como diretor. Ele atuou em peças consagradas e, na TV, esteve em novelas como "Éramos Seis" e o "O Rei do Gado", e minisséries, como "As Cariocas".