[[legacy_image_17582]] De um lado, o bar com música ao vivo; do outro, a vizinhança. A delicada batalha entre o meu som e o sossego alheio – ou vice-versa – envolve a combinação de reclamações acirradas e casas que nem sempre cumprem a lei. Em um ou outro caso, o som pode morrer, revelando o elo frágil dessa queda de braço: o músico, que sofre um baque em sua subsistência. “Criei minhas duas filhas tocando na noite”, resume Luiz Cláudio de Santos. As filhas, hoje, têm 34 e 31 anos, o que dá bem a medida da vivência de Cláudio empunhando um baixo ou violão na noite santista. Um dos primeiros participantes do lendário Torto Bar, em 1984, cuja maior característica era justamente a música ao vivo, orgulha-se ao dizer: “Toquei em Santos inteira”. “A gente entende que não pode atrapalhar a vida dos outros, mas a nossa vida também não pode ser prejudicada”, argumenta. [[legacy_image_26481]] Cantora profissional há 9 anos, Rafaella Laranja afirma desconhecer uma casa em Santos que não tem ou teve problemas com reclamação sobre barulho. “A música é como a feira livre: todo mundo gosta, mas ninguém quer na porta”, resume. Para ela, a associação entre bar e som ultrapassa a subsistência: também é uma escola ao futuro músico. “Ia muito com meus pais ao antigo Radio City Café, assistia Celso Lago e Viviane Davoglio, pra mim os nomes fortes da noite santista, ajudaram demais na minha formação. Aprendi observando”. Pôr uma musiquinha O jornalista e compositor Julinho Bittencourt lembra que até a música na concha acústica, na orla do Canal 3, foi silenciada por causa de reclamações. “Ficou fechada mais de um ano (a concha) por causa de um morador”. Um dos fundadores do Torto Bar, Bittencourt avalia que houve uma mudança em relação ao status da música na noite. Há 30 anos, vivia-se o auge do som ao vivo nos bares. Segundo ele, as casas já eram montadas pensando na banca que iria tocar, com palco e equipamentos adequados. [[legacy_image_26482]] “Hoje, existe um certo despreparo por parte de alguns bares. Dizem, ‘vou pôr uma musiquinha’, só que não têm equipamento, nem proteção acústica”. Ao mesmo tempo, se há 30 anos já haviam reclamações de som alto, também era mais frouxa a fiscalização, considera Julinho. Hoje em dia, as leis são cumpridas com mais rigor – o que é muito bom, avalia, mas traz consequências amargas para o profissional. “O que encontro de músico reclamando que não tem trabalho. E quando tem, ele precisa levar todo o equipamento”. Cartilha O presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Santos (SinHoreS), Heitor Henrique Gonzalez Takuma, afirma que, na maioria das vezes, os bares estão em discordância com a lei e que é seu dever buscar a regularização. Porém, considera que falta informação clara sobre o que pode e não pode. “Acho que deveria haver uma cartilha para novos comerciantes”. Falta de informação prévia. É exatamente do que se queixa o empresário Manoel Luiz Lopes Gaia. Após uma reclamação da vizinhança, a fiscalização foi ao estabelecimento e constatou a irregularidade. Agora, tenta se adequar. “Estou há 12 anos lá (com o bar) e tem coisa que descobri só agora”. Música em qualquer lugar A Lei de Uso e Ocupação do Solo santista em vigor, de 2018, permite música ao vivo em qualquer lugar da Cidade. Pela regra, é possível haver bares nas chamadas vias coletoras e centrais, mas não nas locais – ruas pequenas, que começam e terminam no mesmo bairro. E esse seria o único impedimento para que nessas vias não houvesse som: a ausência de bares. “Mas quem já estava instalado nessas vias antes da lei pode continuar – e ter música. O que não pode é ampliar o estabelecimento, que fica congelado”, explica Fernando Chagas, assessor técnico da Secretaria de Finanças de Santos (Sefin). Em qualquer caso, contudo, é necessário respeitar as limitações sonoras, de acordo com o zoneamento, que são impostas pela norma 10.151, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).