[[legacy_image_87963]] Quando Rebeca Andrade subiu ao pódio olímpico, em Tóquio, ela não estava sozinha: levou junto o MC João e um baile inteiro de favela. Do dia pra noite, o funk Baile de Favela, de 2016, se vestiu de ouro e prata e voltou com tudo às paradas. Na rádio TriFM, a música chega a alcançar 300 pedidos por dia – o que acontece só com lançamentos. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! “Reacendeu a música. Quando a Rebeca passou a usar nas apresentações, começaram a pipocar os pedidos, eram uns 50 por dia”, comenta o locutor e diretor artístico da TriFM, Val Tomazini. “E quando você começa a atender e toca a música, você triplica o número de pedidos”. Ou seja, é uma verdadeira tocha olímpica musical, que vai sendo levada, não de mão em mão, mas de boca em boca – ou de perfil em perfil, nas redes sociais. Ao aportar no rádio, potencializa a pira olímpica do sucesso e vai queimando de novo, até se extinguir, provavelmente quando as Olimpíadas acabarem e novas canções surgirem. “Hoje, ela toca três vezes por dia, para atender aos pedidos”, completa Tomazini. @@!!%?!!#!!!! Calma, esse monte de sinais não é uma falha do editor da página. Os símbolos indicam apenas palavrões. Isso mesmo, ‘palavrões’: originalmente, a letra de Baile de Favela, com seus fortes tons sexuais, encaixava a música no chamado proibidão, vertente do funk surgida nos anos 90, nas favelas cariocas, que trata da realidade crua das comunidades periféricas. Mas na TriFM, o ouvinte irá dançar até o chão com a versão ‘light’ do Baile – tática de alguns MCs, que suavizam as letras de seus proibidões para alcançar públicos mais amplos. “O palavrão ainda depende do contexto. Em rádios no Rio de Janeiro e Belo Horizonte, por exemplo, já toca. Em São Paulo, nunca ouvi”, analisa Tomazini. O funk de prata de Rebeca Andrade é o fenômeno, mas não está só. Outras canções olímpicas vêm sendo pedidas com frequência pelos ouvintes. Entre elas, Olha a Onda, do Tchakabum, que teve recentemente uma versão em homenagem ao surfista de ouro, Ítalo Ferreira, e Evidências, clássico de Chitãozinho e Xororó, resgatado das profundezas do ano 1990, pelos DJs que animam os intervalos das competições em Tóquio. Por que rádio? Mas, com tantas opções de se ouvir qualquer música, a qualquer hora, em qualquer lugar, por que pedir no rádio? Tomazini tem uma resposta. “É um jeito das pessoas mostrarem satisfação, de fazerem parte disso, como se entrassem em contato com a Rebeca naquele momento”. Se você também quiser pedir Baile de Favela – ou qualquer outra canção – na TriFM, não se reprima: 99688-1055, pelo WhatsApp. Depois, é só colar o ouvido no radinho (ou sintonizar no site). [[legacy_image_87964]] Como tudo começou... O coreógrafo Rhony Ferreira, há 30 anos na Confederação Brasileira de Ginástica, foi quem levou o baile para o tablado. A ideia surgiu ainda na Olimpíada do Rio, em 2016, quando a música tinha acabado de ser lançada e tocava nos intervalos das competições. “O pessoal cantava junto, era contagiante. Guardei na manga. Depois, quando a Rebeca voltou de contusão, lembrei da música e pensei que era a cara dela”. O resto é história. Reconhecimento de identidade Identidade e vontade física andam de mãos dadas quando o assunto é música, explica a coordenadora do curso de Ciências Sociais da Unimes, Syntia Pereira Alves. “A música não vem para o racional, é um impulso rítmico, um chamado físico”. O apelo específico de Baile de Favela tem dois vieses, em paralelo. Pela chancela olímpica, ela rompeu barreiras sociais, dando visibilidade, e validade, para o estrato no qual foi criada – no caso, o funk, a favela. “É como se a população do funk, da periferia, tivesse a sua identidade representada em um evento de elite (como a Olimpíada)”, analisa. Espelho social Ao mesmo tempo, a música seria como ‘a trilha do sucesso’ da menina que nasceu nas condições em que a canção descreve, mas que conseguiu superar as dificuldades e vencer. “Se ela pode, eu também consigo”, resume Syntia esse mecanismo social de se espelhar em quem ‘venceu’ – característica bem marcante do Brasil. “Na Europa, e até nos Estados Unidos, a educação é mais democrática, você baliza mais a sociedade de maneira mais uniforme, baliza as oportunidades, há mais escolhas”.