[[legacy_image_94235]] Ao andar pelas ruas de Santos, a história se manifesta de inúmeras formas. Uma delas é na ausência da representatividade de mulheres em monumentos municipais. Menos de 5% são femininos, de acordo com um mapeamento digital independente feito pelo professor universitário e pesquisador Renato Frosch, que fomenta ainda mais a discussão de pertencimento – ou a falta dele. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Entre 89 monumentos até então mapeados por ele, as únicas mulheres eternizadas são Maria José Aranha de Rezende, Lydia Federicci e Maria Coelho Lopes - o monumento da última, no momento, está recolhido pela Prefeitura para reparos e deve ser recolocado no próximo mês. Além disso, a Administração Municipal acrescenta obras para Maria Féa, Madre Paulina e Yara Nascimento Santini, de uma lista oficial com 130 monumentos – considerando estes números, a porcentagem de mulheres é de 4,61%. “Esse é um retrato do século passado. Neste século, as coisas vão ser diferentes”, afirma a arquiteta e urbanista, pesquisadora de patrimônios históricos e culturais, Jaqueline Fernández Alves. Para ela, os monumentos representam culturalmente a “vida” de uma cidade. Por isso, com as mulheres sendo mais reconhecidas e respeitadas, a tendência é que surjam mais obras lhes dando visibilidade. Para que surjam monumentos realmente representativos do extrato populacional, Jaqueline encara como essencial o amadurecimento do diálogo em torno dessas questões. “A sociedade tem que ter mais clareza e se organizar para solicitar esses instrumentos”, enfatiza. No caso de Santos, de acordo com a Secretaria de Cultura (Secult), as sugestões de novos monumentos podem vir do Executivo, Legislativo, entidades de classe, movimentos sociais ou, até mesmo, de munícipes. As propostas são levadas à Câmara Municipal para serem votadas. De acordo com a pesquisadora, esse olhar crítico, voltado às referências que ‘demarcam’ espaços comuns, se mostra cada vez mais incisivo por parte da população – seja pela falta ou pela presença. “A cidade é de todos. Questionar figuras que homenageiam heranças de preconceito e representam poder é imprescindível. Só não pode ‘tacar fogo”, diz Jaqueline, referindo-se à estátua de Borba Gato, em São Paulo, que foi incendiada durante um protesto. Para ela, democraticamente falando, o ideal é fazer uma leitura crítica do que a figura representa no espaço e, se for o caso, requerer a retirada do monumento por meios legais. Mapa virtual O mapa virtual que elenca os monumentos de Santos de forma pioneira está sendo desenvolvido por Renato Frosch, também idealizador do projeto Santos Às Cegas – que, com acessibilidade e inclusão, promove passeios de bicicleta pelos monumentos da orla e utiliza impressões 3D, para aqueles que não podem ver, conseguirem sentir. Até agora, o inventário virtual (disponível neste site) categorizou 49 monumentos masculinos, 34 obras monumentais, 2 mistas e 4 com mulheres – sendo 1 de propriedade privada, de Anália Franco. O levantamento, feito geograficamente com base no Google Maps, se inspirou em um trabalho similar criado no Chile, pela iniciativa Monumentos INcómodos. “Este tipo de trabalho me atrai muito, porque discute a questão do monumento pela via da educação”, conta Frosch. Com relação à ausência de mulheres, o ponto que mais o intrigou, Renato faz o questionamento: “o que fazemos de diferente? Por que os monumentos ainda permanecem não mulheres?”. Elas fizeram parte de A Tribuna [[legacy_image_94236]] A poetisa Maria José Aranha de Rezende, conhecida como Zezinha Rezende, também está eternizada em um monumento santista, ao lado do de Lydia. Ela escreveu crônicas para o jornal A Tribuna durante 45 anos, a partir de 1953. Além de belos textos e poemas, uma de suas principais contribuições à região foi a fundação da Academia Santista de Letras. Ela foi uma das fundadoras da entidade e a primeira mulher a ocupar uma cadeira no grupo. Maria José morreu em Santos, em 1999, aos 87 anos de idade. Yara Nascimento Santini é filha do ex-presidente de A Tribuna Manoel Nascimento Júnior, que esteve à frente do jornal de 1909 a 1959. Ela foi casada com o jornalista Giusfredo Santini, que foi diretor-presidente de A Tribuna entre 1959 e 1990, sendo reconhecido por seu trabalho na administração do jornal. A estátua de Yara Santini foi inaugurada em 1983, no Centro Comunitário do Conjunto Habitacional Dale Coutinho, na Zona Noroeste de Santos. Na Orla de Santos há um monumento em homenagem à jornalista Lydia Fredericci, cronista em A Tribuna de 1939 até 1994, ano de sua morte. Um de seus feitos emblemáticos foi a idealização da Árvore de Natal Solidária – uma estrutura em formato de árvore natalina montada com 1.200 lâmpadas na Orla de Santos. As pessoas compravam as lâmpadas que seriam utilizadas na estrutura e o dinheiro era revertido a entidades sociais. O projeto iluminou a Cidade pela primeira vez em 1987 e seguiu até 1996. Mães de Maio homenageadas Em cerca de dois meses, os índices de representatividade de mulheres nos monumentos de Santos aumentarão. De acordo com a Prefeitura, nos próximos dias será iniciada a instalação de um monumento em homenagem ao movimento Mães de Maio – formado por famílias que perderam entes queridos durante a onda de crimes em maio de 2006. Foram 564 mortes em todo o Estado de São Paulo, sendo 74 apenas na Baixada Santista. As mães de maio lutam para que o Estado esclareça as mortes dos jovens que foram vítimas. A obra ficará na Praça Professor Domingos Aulicino, no bairro Santa Maria, Zona Noroeste. O monumento será construído em fibra de vidro, com 6 metros de diâmetro e 2,5m de altura. A obra será constituirá por uma roda formada por silhuetas segurando flores, instalada em uma plataforma circular com rampa de acesso, defronte à Avenida Jovino de Melo, e um canteiro de flores.