[[legacy_image_3613]] Fatos históricos do século 18 serviram de inspiração para o romance da escritora Maria Valéria Rezende, 'Carta à Rainha Louca'. Nascida em Santos, em 1942, a autora radicada na Paraíba já foi reconhecida em importantes prêmios da literatura nacional. O lançamento do livro, publicado pela Editora Alfaguará, ocorre nesta sexta feira (12), às 17h, na Livraria Martins Fontes, localizada na Avenida Ana Costa, 530, no Gonzaga, em Santos. “A narrativa surgiu enquanto eu fazia uma pesquisa sobre o papel da mulher no período colonial na América Latina. Em certo momento, encontrei a carta de uma mulher que se defendia da acusação de criar um convento em Minas Gerais. Não encontrei nenhum outro relato dessa pessoa e, por isso, imaginei e criei a sua história”, revelou a autora. Isabel das Santas Virgens, personagem idealizada por Maria Valéria, é uma senhora, já presa. “Ela ouve dizer que Portugal tem uma mulher no trono pela primeira vez e decide escrever uma carta para a rainha (Maria I), apelando para a razão feminina contra os abusos cometidos pelos homens da Coroa” conta Maria Valéria, ao justificar o fato do livro ter o formato de uma carta. “Para isso, tive um grande trabalho para deixar a escrita compatível com a do século 18 e legível no século 21”. 'Carta à Rainha Louca' levou meses para ser escrito e só pôde ser concluído quando a escritora ganhou uma ajuda de custo. Com mais tempo, uma vez que parou momentaneamente de fazer o trabalho de tradução, conseguiu se dedicar à obra. “Minha expectativa para o livro é grande, gostei demais de escrever esse livro, era satisfatório sentar e entrar naquele mundo. Ele é diferente dos outros, tem uma leitura um pouco mais exigente. De qualquer forma, sigo aquilo que meu avô costumava dizer: 'A primeira pessoa que tem que estar contente é você!'" A vida na literatura Apesar de já ter publicado livros de contos e histórias, Maria Valéria não acredita possuir uma carreira literária. Tudo começou em 2001, época em que a escritora presenteava seus amigos que faziam aniversário com contos. “Até que um dia um texto meu foi parar na mão de um editor e tudo se desenrolou. Não sofri o que os outros (autores) sofrem. Não tive de ir atrás de editoras, elas que me procuraram”. Sobrinha de Maria José Aranha de Rezende (1911 - 1999), poetisa e cronista do Jornal A Tribuna (1953- 1999), Maria Valéria escrevia contos na juventude, mas sem pretensão alguma de que aquilo se tornasse uma profissão. “Jamais imaginaria ganhar um prêmio”. A escritora já foi reconhecida com o Prêmio Jabuti de 2015, pelo romance 'Quarenta Dias', e com o Prêmio Casa de Las Américas 2017, por 'Outros Cantos', na categoria Literatura Brasileira. Mesmo assim, acredita que para ganhar um prêmio literário é preciso ter sorte. “De certa forma, o texto tem que ter uma identificação objetiva com aquele júri”. Os outros romances escritos por Maria Valéria são 'O Voo da Guará Vermelha' e 'Vasto Mundo'. Já entre os contos estão 'Conversa de Jardim', 'Histórias Nada Sérias' e 'A Face Serena'. O Brasil e os livros Para Maria Valéria, o maior problema da literatura no País está no acesso aos livros. “Fico injuriada quando dizem que o brasileiro não lê. A verdade é que os livros não chegam a certos lugares! Em 30 anos de vivência no Nordeste, conheci a cultura do cordel. É o que eles têm para ler, encontram nas feiras e se reúnem para acompanhar as histórias. Aquele que não sabe ler, ouve o outro lendo. É assim que o brasileiro tem acesso, mesmo que pouco, à cultura”. A autora destaca a importância de aproximar os escritores dos leitores nos festivais, mas faz críticas às divulgações. “Em 2017, João Pessoa (PB) foi palco do Encontro Nacional do Mulherio das Letras. Quem é de fora do Estado nem ficou sabendo. Há muitos holofotes apontados para o eixo Rio-São Paulo, enquanto o resto do País é deixado de lado. Precisamos mudar isso”. A escritora santista acredita que uma das únicas maneiras de viver com direitos autorais é através da exposição na mídia. “Em geral, os autores costumam ter alguma maneira de garantir a sobrevivência que não se contrapõe à atividade de escrever. Na maioria das vezes são professores universitários”. Além disso, outro ponto fraco está na distribuição. “Nas décadas passadas, cada estado possuía seu próprio distribuidor e cada bairro tinha sua livraria. Hoje, o mercado foi liderado pelas cadeias de shopping, que apostam mais na venda de traduções do que em produtos brasileiros”. Entre as vantagens, reconhece a facilidade em publicar uma obra. “Atualmente, existem editoras independentes que fazem edições de 100 exemplares. Isso ajuda o escritor”.