[[legacy_image_64062]] Após um chamado de seu violão, Alceu Valença criou o disco Sem Pensar no Amanhã, lançado nas plataformas digitais. Outros dois, também já gravados, estão nos planos para serem lançados até o fim do ano. Um terceiro, sobre o sertão profundo, deve chegar ainda mais para frente. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! A intimidade com o violão em casa é algo que ele só lembra de ter acontecido no final dos anos 1970, quando, residente em Paris, em uma espécie de exílio cultural, gravou o disco Saudade de Pernambuco, que, à época, foi vendido encartado no extinto Jornal da Tarde e virou artigo de colecionador até 2016, quando foi relançado pela gravadora Deck, a mesma que agora lança Sem Pensar no Amanhã. Nesta nova temporada, o instrumento só podia vir para os seus braços à noite. "De dia, tinha uma obra aqui perto de casa que produzia uma barulheira infernal. Fiz até uma sinfonia das britadeiras", brinca. A mulher, Yanê Montenegro, também sua produtora, do quarto, mandava sinais de aprovação. Alceu se sentiu cada vez mais à vontade. O próximo passo foi ir para o estúdio acompanhado apenas do violão e do produtor Rafael Ramos. Esse primeiro lançamento tem 11 faixas - 10 regravações e uma inédita, o samba que batiza o trabalho. "O violão queria tomar conta de tudo, rapaz. Ficou meu amigo. É gente finíssima! O meu tio, que tocava muito bem, sempre me disse que eu tinha uma mão direita maravilhosa. Nos meus discos, sempre toquei mais guitarra. Em um show muito grande, como os que eu faço, não dá para tocar violão acústico, ficar parado na frente do microfone. A plateia fica dispersa", diz o compositor. Apesar de ser um disco majoritariamente de regravações, Alceu amarrou as canções como se fossem um roteiro cinematográfico. Procurou relações entre elas e novas sonoridades. Não queria nada solto. Alceu vive a quarentena em seu apartamento no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. Desde que começou a pandemia no Brasil ele não viaja para sua casa, em Olinda. Porém, o compositor diz não reconhecer o endereço no valioso bairro da zona sul carioca como sua morada. "Nunca tive intimidade com essa casa, sabia?", diz. Só em 2020, depois do carnaval, Alceu tinha uma agenda com 45 shows no Brasil até junho. Outros 16 estavam programados em uma turnê pela Europa. "Não paro em canto nenhum. Sou um caminhador. Minha mãe dizia que eu era um Óvni. Veja minhas músicas. Elas falam de estradas, trens..." Alceu conta que já contraiu a covid-19 um pouco antes do carnaval de 2020. Ao voltar da gravação do DVD Valencianas II, que fez junto com a Orquestra de Ouro Preto, na cidade do Porto, em Portugal, sentiu os primeiros sintomas. No desfile do Bloco Bicho Beleza no Parque do Ibirapuera, sentiu um cansaço extremo no meio da apresentação. Pediu que o cantor Herbert Azul continuasse com o show. Precisou se deitar dentro do trio por alguns minutos. Foi para a folia no Recife e a tosse não o abandonava. A mulher e os dois filhos também apresentaram os sintomas. Tempos depois, um exame de sorologia mostrou que todos tiveram a doença. Mesmo assim, aos 74 anos, não se descuida. "Estou totalmente resguardado. Saio para caminhar com uma máscara e uns óculos enormes de plástico. Não peguei na mão de ninguém nesse tempo todo. Só da minha mulher, claro", diz. Na expectativa de ser vacinado, ele brinca. "Depois de tomar a ‘vachina’, vou fazer uma excursão para a China. Esses dias uma chinesa fez um TikTok com uma música minha, acredita? Queria ver como é por lá. Fico encantado com a tecnologia que eles têm", diz ele, para logo depois desanimar ao pensar na quantidade de horas que teria de passar dentro de um avião.