[[legacy_image_26184]] Cai a chuva repentina, silenciosa como neve. E como ando envolvida com usos e costumes japoneses, lembro que em Tóquio chovia tanto quanto aqui. Naquela capital superpovoada, ai do motorista que passasse sobre uma poça e molhasse algum pedestre: ia parar na delegacia. Realidade bem diferente da nossa. Experimente ficar na ilha que divide a avenida da praia, esperando para atravessar. Não há como escapar da água lançada pelas rodas, sempre acabamos atingidos, pela frente ou por trás. E não espere que lhe deem prioridade: mesmo que um pare, o que vem ao lado ou na sequência pode não perceber, e o estrago será ainda maior que o banho indesejado. Melhor ficar em casa desfrutando do friozinho fora de hora, com sorte, na companhia de uma xícara de chá (imagino o outono se espreguiçando, em sua cama de folhas)... Fora do trânsito, ainda se encontra delicadeza entre nós. Estive mal do estômago e só melhorei com chá de hortelã. Comentei com uma amiga, e lá veio ela com dois raminhos frescos da erva, tão gratificantes quanto um buquê de flores. Também presenteei outra amiga com chá preto indiano trazido da França. Estava acondicionado numa pequena lata redonda, bonita como a que a avó materna só abria para visitas especiais. E quando a presenteada me enviou foto do bule e da xícara onde iria saboreá-lo, comprovei que era a pessoa certa para herdar minha preciosidade. Nestes tempos tão brutos, pequenos agrados nos protegem como escudos. A morbidez paira no ar: estranho os que se dizem poetas e só divulgam notícias mórbidas, procurando atrair a atenção dos destinatários; estranho os vampiros de afeto que apenas querem receber, sem nada oferecer. Estão em toda parte e o melhor antídoto é colecionar alegrias, carinhos e vitórias do dia a dia. Palavras gentis em mensagens fonadas, interesse sincero de amigos distantes, mostras de bem querer de leitores que nunca vi, reconhecimento dos iguais, afagos da família, tudo isso é força, luz, vida a nos impulsionar e motivar. A chuva parou e um sol tímido tenta nos aquecer, mostrando que tudo passa. Os passarinhos já aproveitam o estio. Eles não se preocupam com o que acontecerá em seguida, se voltará a chover ou a temperatura subirá. Delicados, vivem o momento presente, com intensidade. Precisamos aprender com eles.