[[legacy_image_327983]] Dos estúdios da então PRG-5, a Rádio Atlântica, em Santos, para os da emissora de tevê Columbia Broadcasting System (CBS), em Nova Iorque, no mítico programa Ed Sullivan. O caminho parece improvável, para não dizer impossível, mas foi trilhado por uma das maiores cantoras do Brasil, nascida em Santos: Hilda Campos Soares da Silva, conhecida nos palcos como Leny Eversong. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Nunca ouviu falar dela? Ou ouviu muito pouco? A culpa não é sua: o esquecimento da mulher com uma das vozes mais potentes e versáteis de todos os tempos no País é um dos maiores mistérios da música brasileira. Para lançar luz sobre o enigma, que também significa decifrar um pouco do que é o Brasil, o jornalista e pesquisador de música Rodrigo Faour acaba de lançar A Incrível História de Leny Eversong ou A Cantora que o Brasil Esqueceu (Edições Sesc). “Entre a morte de Carmem Miranda, em 1955, e a explosão da bossa nova, em 1962, no Carnegie Hall, nenhum artista brasileiro fez tanto sucesso no exterior. Até hoje, aliás, nenhum artista brasileiro fez três temporadas em Las Vegas. Essa mulher ter sido simplesmente apagada da história é inacreditável”, diz Faour. Encontro com a arteLeny nasceu em 10 de setembro de 1920, em Santos (veja mais abaixo). Há pouca informação sobre sua infância e adolescência. Para esta fase, Faour se baseou em um par de entrevistas dela ao longo das décadas e no depoimento de seu único filho, Álvaro. O acaso colocou Leny na trajetória de Rodrigo. No início dos anos 90, quando era estudante de jornalismo na Pontifícia Universidade Católica, no Rio (PUC-RJ), um amigo, cujo pai era produtor em uma gravadora, lhe passou uma fita cassete usada para a gravação de um trabalho da faculdade. Na fita, estava escrito: Leny Eversong – Sereno. “Lembrei que minha mãe tinha uma enciclopédia de música brasileira. Eu folheava, achava engraçado esse nome estrangeiro ali... fiquei curioso, claro, e fui ouvir: meu Deus, que vozeirão é esse que eu nunca ouvi?”. Então, ele começou a comprar discos e colecionar o que pudesse dela. Em seus trabalhos em gravadoras, coordenou uma coletânea sobre Leny, em 2002, e incluiu a cantora em outras séries do tipo, ao longo dos anos. Toda essa atividade lhe rendeu um encontro inusitado: o filho de Leny, que estava desaparecido, criou um perfil no Facebook apenas para contatá-lo. “Se você for o Rodrigo (Faour), quero dar umas coisas de minha mãe, que eu guardei esses anos todos’, ele disse”. E o que recebeu foram fotos, um caderno de anotações e cinco troféus, incluindo um Roquete Pinto, que Leny ganhou em 1953 como melhor cantora... internacional! Rodrigo já estava fisgado e decidido a investigar o mistério: por que o Brasil a esqueceu? FatoresFaour refuta a hipótese de que o esquecimento de Leny tenha simplesmente sido fruto do tempo, como ocorreu com outros grandes nomes do passado. “Quando você faz uma retrospectiva da Era do Rádio, por exemplo, nos livros, você encontra Orlando Silva, Ângela Maria, Cármen Miranda, Emilinha Borba... mas Leny, não”. Dois fatores principais, pilares do que o Brasil é, concorreram para que a história renegasse Leny. O primeiro é o nacionalismo. Ao adotar um nome artístico estrangeiro e manter um repertório em outras línguas, foi menosprezada. “Até os anos 80, artistas que não cantavam ritmos brasileiros ou em português não eram tão valorizados. Veja a Jovem Guarda: inicialmente, havia preconceito. Os especialistas torciam o nariz, achavam que era entreguista”. PerversidadeO segundo fator apontado tem contornos de perversidade. Desde nova, Leny esteve acima do peso. A imprensa, ao citá-la, abusava do preconceito e da gordofobia. Há fotos dela posando em balança de farmácia, comendo bolo, comendo frango, bebendo em tonel de vinho, jogando pingue-pongue com bola de basquete. “É medonho. Faziam matéria na época como a gorda que canta bem. A ponto de, em 1968, quando foi fazer uma temporada nos Estados Unidos, que ela perdeu 40 quilos, manchete de uma revista foi: a mesma voz, em menor espaço”. Para corroborar essa hipótese, a tese de Faour também inclui entrevistas com outras artistas, inclusive atuais, também acima do peso, que têm histórias sobre gordofobia. “No Brasil, nenhuma cantora dita ‘feia’ fez sucesso. A única que nunca foi bonita e conseguiu, pela personalidade forte, inteligência, e por se enturmar com pessoas da ‘intelingentsia’, foi Aracy de Almeida. Mesmo assim, o auge dela é anterior ao surgimento da tevê”. Disso tudo, qual a lição que tira? “A gente tem que aprender a viver com a diversidade, se não, você sufoca talentos, sufoca identidade. Se for só pelo que o padrão quer, seja de beleza, de identidade, você empobrece”. TrajetóriaLeny começou a cantar aos 12 anos, no programa Vozes e Canções, da Rádio Clube de Santos. Três anos depois estava na Rádio Atlântica. Por essa época, em um período de dois anos, perdeu os pais e se viu órfã. Em dezembro de 1935, casou-se com o primeiro marido, Álvaro Sampaio Filgueiras, também músico, com quem teve o único filho, Álvaro. Começou a se apresentar nas rádios da Capital, na época. Em 1942, estreou em disco, como crooner da orquestra de Anthony Sergi, o Totó, mas o sucesso não vinha. “A Leny não se enquadrava em nada. Porque mesmo para o padrão do rádio, tinha excesso de voz, e isso numa época em que a voz era muito valorizada (...) Era difícil enquadrar a Leny num estilo, porque ela não era tão forte em nenhum nicho. Ou talvez fosse forte em todos, mas não ao ponto de ser a número 1”, analisa Rodrigo Faour. ElvisAté que, em 1955, recebeu convite para participar da inauguração da Rádio Mundial, no Rio de Janeiro, que abriu as portas da então Capital Federal e meca da música. Começaram shows internacionais, até a chegada aos Estados Unidos, com sua gravação de Jezebel, apresentada no lendário programa Ed Sullivan, em 6 de janeiro de 1957 – mesmo dia de Elvis Presley. Os dois se conheceram nos bastidores e Leny é a única artista brasileira a ter uma foto com o Rei do Rock. Porém, um fator familiar foi crucial para abreviar a carreira internacional. Leny queria estar próxima do filho, do qual perdera a guarda ao se separar do primeiro marido. “Se Leny tivesse morado nos Estados Unidos, estaríamos ouvindo falar dela até hoje”.