[[legacy_image_23929]] O terror é um gênero maldito por definição, e visto como uma forma menor de expressão, especialmente em Hollywood, onde diretores especializados em assustar o público raramente têm o reconhecimento que merecem. Basta lembrar que Alfred Hitchcock nunca recebeu um Oscar, a não ser honorário. O medo no cinema ocupa o espaço reservado às produções B, de baixo custo, qualidade discutível e retorno rápido. E em poucos lugares o terror foi mais desprezado que no Brasil. Sem uma tradição literária, como a do gótico, e sem o reconhecimento na arte erudita, como aconteceu com o expressionismo alemão, por aqui o medo ficou restrito ao folclore e às crendices populares. Fez todo sentido que alguém tão subestimado como o próprio gênero decidisse levar o terror às telas brasileiras, sem se incomodar com o desprezo generalizado – não tanto do público, mas principalmente da crítica. José Mojica Marins morreu no último dia 19 de fevereiro, depois de uma carreira de 50 anos, sem nunca ter deixado de ocupar os patamares inferiores da hierarquia do cinema nacional. Para o público, Mojica sempre foi sua criação mais célebre, o Zé do Caixão. Na verdade, ele próprio estimulou essa troca de papéis, se apresentando em incontáveis programas de TV vestido com a capa negra e a cartola do personagem, mais as unhas de tamanho impossível que davam um toque extra de estranhamento a uma figura já inusitada. Esse marketing do bizarro funcionava. Mesmo quem nunca viu um único filme de José Mojica Marins sabia quem era Zé do Caixão. Com sua produção principal lançada nos anos 1960, o diretor se posicionava em algum lugar entre o delírio tropicalista de Glauber Rocha e a comédia caipira de Mazzaropi. É provável que a maioria nem o visse como um diretor de verdade, e sim como uma aberração. Seus filmes eram considerados freak shows, nos quais aranhas de verdade passeavam sobre mulheres seminuas, e um coquetel de sangue, sexo e sadismo era a regra. Claro que o que se espera de uma obra de terror é que ela seja extrema, e elementos assim são a própria razão de ser do gênero. Mojica sabia do que o medo era feito e, mesmo com orçamentos inexistentes, não fazia concessões. Não à toa seus filmes foram lançados nos Estados Unidos, onde ele virou Coffin Joe. Lá, um segmento do público treinado pela estética trash de John Waters, a sexploitation de Russ Meyer e os delírios surrealistas de Alejandro Jodorowsky reconheceu o apelo chocante de clássicos como À Meia-Noite Levarei sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967). Pode-se dizer tudo de José Mojica Marins, menos que ele não sabia reconhecer um bom título para vender seus filmes. Quem mais ousaria tentar encher um cinema com algo chamado Delírios de um Anormal (1977)? E lotar salas ele conseguia, mesmo ficando com nada ou quase nada da bilheteria, por conta de negociações absurdas que são bem descritas pelos jornalistas André Barcinski e Ivan Finotti, na excelente biografia Maldito (1998). No começo da carreira, o diretor via filas enormes se formarem quando À Meia-Noite Levarei sua Alma entrou em cartaz, e se embebedava por saber que não ia levar um centavo dos lucros. Mesmo assim, ele foi em frente. Um artista da fome, como o personagem de Kafka, Mojica só queria exibir suas obsessões ao mundo, qualquer que fosse o preço – até o ponto em que o mundo se esqueceria dele como artista, e lembrasse só como uma caricatura. Para a maioria do público, Zé do Caixão nunca foi nada além disso. Para quem reconhece o criador pioneiro por trás da criatura, José Mojica Marins foi nada menos que um mito.