[[legacy_image_279555]] Morreu ontem em São Paulo, aos 86 anos, o diretor, dramaturgo e fundador do Teatro Oficina, José Celso Martinez Corrêa. A última aparição pública do icônico nome da arte brasileira foi em Santos, em junho, quando participou de homenagem feita a ele pelo Festival de Cenas Teatrais (Fescete). O dramaturgo, um dos mais importantes nomes da arte cênica nacional, estava internado desde terça-feira na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital das Clínicas, na Capital Paulista, após um incêndio ter atingido o apartamento em que morava. Ele teve 53% do corpo queimado, além de inalar fumaça. Tempo eternoEm suas redes sociais o Teatro Oficina Uzyna Uzona confirmou a morte de Zé Celso com a seguinte citação: “Tudo é tempo e contratempo! E o tempo é eterno. Eu sou uma forma vitoriosa do tempo (...) Nossa fênix acaba de partir para a morada do sol”. A diretora do Fescete, Kaela Lacerda Norato, lamentou a morte do dramaturgo. “Há menos de um mês, Zé Celso nos honrou com a sua presença no Fescete, que homenageava esse símbolo e, por meio dele, todos os coletivos teatrais. Os motivos artísticos pelos quais escolhemos o Zé para homenagear são mais do que óbvios para todos os que conhecem sua trajetória e seu papel no teatro brasileiro, mas talvez o motivo mais caro para nós tenha sido o de poder prestar um tributo de amor, carinho e reverência para ressaltar em vida a influência que esse diretor brilhante teve em inúmeros grupos teatrais da região”. EnergiaEla ressaltou o brilhantismo e o assombro que ele causou quando, contrastando com sua aparente fragilidade física, exalava extrema potência e força ao falar. “Sua fala era brilhante, aguçada, enérgica e quanto mais falava, mais ele se empolgava e seu brilho nos olhos crescia, se espalhando para os olhos de todos que escutavam. Um homem genial, amoroso, devoto ao teatro, enérgico e vivo! Tão vivo quanto hoje, pois o que nos deixa é apenas seu corpo físico; suas obras, seu legado e seus ensinamentos continuarão vivos nos inúmeros coletivos que tiveram contato com ele”, complementou. O escritor Flávio Viegas Amoreira, que em artigo em A Tribuna de 15 de dezembro de 2022 denominou Zé Celso de ‘Xamã Transmoderno’, esteve com o diretor no mês passado, em Santos. “Zé Celso, ao lado de Darcy Ribeiro e Glauber Rocha, integrava a tríade de formadores do Brasil como civilização do terceiro milênio: criativa, ecológica, igualitária. Viveu o teatro como forma de vida: encantando cada segundo. Ele começou por Santos com Pagu”. TropicalismoZé Celso já foi responsável por peças marcantes e considerado um ‘tradutor’ do movimento tropicalista para o teatro. Dirigiu encenações que se opuseram a um contexto de ditadura ao lado das colaborações de nomes como Glauber Rocha e Caetano Veloso. Entre seus trabalhos como diretor estão as peças O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, e Roda Viva, de Chico Buarque. Aos 86 anos, o diretor se casou com o ator Marcelo Drummond, com quem já vivia há quase quatro décadas, em uma grande festa no teatro cuja trajetória se confunde com a sua própria história de vida. O casamento-espetáculo ocorreu em 6 de junho e se encerrou aos gritos de ‘evoé’, uma saudação a Baco, deus dos vinhos e das festas. Marcelo Drummond e mais duas pessoas também estavam no incêndio. Foram encaminhadas ao hospital por inalação de fumaça, mas liberadas em seguida. HomenagensO diretor Ulysses Cruz, um dos grandes nomes do teatro ressaltou o quão brilhante Zé Celso era. “Vi a montagem original de O Rei da Selva. Saí com febre. Cheguei em casa alterado... e assim estou, até hoje! Nunca esqueci. Obrigado grande Zé”. Já o diretor Kleber Mendonça Filho frisou o impacto que era Zé Celso em seu trabalho. “Eu não sou do teatro, mas meus filmes foram todos impactados de alguma forma por Zé Celso, com a energia de atrizes e atores, da arte e pitacos amigos de roteiro, um senso de direção e visão sobre o Brasil. Esse é o significado de um real impacto na Cultura. Obrigado Zé Celso.” O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também publicou uma homenagem ressaltando o legado do diretor. “Corajoso, sempre defendeu a democracia e a criatividade, muitas vezes enfrentando a censura. Transformou o Teatro Oficina em São Paulo em um espaço vivo de formação de novos artistas. Deixa um imenso legado na dramaturgia brasileira e na cultura nacional”, destacou. LegadoJosé Celso Martinez Corrêa nasceu em Araraquara, no Interior de São Paulo, em 30 de março de 1937. Mudou-se para a Capital Paulista e estudou Direito na Universidade de São Paulo (USP) entre 1955 e 1960. Foi lá, nas aulas de teatro, que conheceu outros artistas com quem fundou, em 1958, o Grupo Oficina. Em 1966, porém, um incêndio atingiu o Teatro Oficina, que precisou ser reformado. Após a reconstrução, em 1967, Zé Celso fez a montagem de uma peça que o consagrou como um dos grandes nomes do Tropicalismo brasileiro na dramaturgia: O Rei da Vela, escrita por Oswald de Andrade. Em 1968, dirigiu outra de suas mais famosas peças: Roda Viva, com texto de Chico Buarque. O dramaturgo precisou se exilar em 1974, durante a ditadura militar, e foi para Portugal, onde fez dois documentários: O Parto, sobre a Revolução dos Cravos, e Vinte e Cinco, sobre a independência de Moçambique. Retornou para São Paulo em 1978, começando um movimento para manter aberto o Teatro Oficina, que foi rebatizado como Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, tombado em 1982 e reinaugurado em 1983. A companhia teatral é uma das principais e mais longevas da história do país. Em 2017, o grupo remontou O Rei da Vela, trazendo o fundador do Oficina Renato Borghi de volta ao papel do protagonista Abelardo I. Em 2019, Roda Viva também foi remontada em uma temporada de ingressos esgotados.