[[legacy_image_223151]] Desde 2005, a historiadora Silvia Hunold Lara percorre arquivos – no Brasil e no exterior – em busca de documentos sobre Palmares, “o maior movimento de resistência à escravidão da história do Brasil”. Paulista de Ribeirão Preto (nasceu em 1955), ela é doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e professora aposentada pela Universidade de Campinas (Unicamp). Autora de livros, artigos e ensaios sobre escravidão, em 2021 publicou Guerra contra Palmares: O Manuscrito de 1678 (com Phablo Roberto Fachin – Ed. Chão) e Palmares & Cucaú – O Aprendizado da Dominação (Edusp), além de lançar o site Documenta Palmares, com cerca de 4 mil fontes de informações. Entre os séculos 17 e 18, Palmares chegou a abrigar 20 mil pessoas. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! O Dia da Consciência Negra, neste domingo (20), faz referência à data em que um de seus líderes, Zumbi, foi assassinado, em 1695. Nesta entrevista, Silvia Lara fala da importância de Palmares e de como esse passado reverbera hoje. Ela pronuncia Gana Zumba e explica: “Gana corresponde a tratamento equivalente a senhor (ou grande senhor) e Ganga, a sacerdote. São palavras diferentes e o cruzamento de fontes e transcrições mais cuidadosas de várias delas indicam que se tratava de Gana Zumba”. Como Palmares se transforma em símbolo de resistência? Palmares foi o maior movimento de resistência à escravidão da história do Brasil. Foi o mais duradouro e, do ponto de vista territorial, abrangeu uma extensão muito maior do que vários outros quilombos – e houve quilombos muito importantes. As primeiras notícias sobre Palmares são do começo do século 17: referências a gente fugida que se assenta no mato, naquela região. É um nome genérico, zonas de matas onde há muitas palmeiras. Aos poucos, vai se tornando nome de agrupamentos específicos, assentamentos também chamados de palmar ou cercas, porque muitos eram cercados. Ou mocambos. Esses mocambos vão se formando, atravessando todo o século 17. Durante esse período, seja por parte dos portugueses, seja por parte dos holandeses que ocuparam a região, entre 1630 e 1654, esses assentamentos se tornaram uma resistência. Era muito difícil aniquilar esses mocambos, vistos como ameaça para as zonas açucareiras, as plantações, o gado, as casas senhoriais. Isso tornou Palmares, já nesse período, um lugar de resistência. Depois que Palmares, a grande cerca do Barriga, situada no que chamamos hoje de Serra da Barriga, foi destruída, em 1694, e Zumbi foi morto, em 1695, ainda continuaram mocambos chamados Palmares, numa região extensa. Tanto as autoridades coloniais no Brasil quanto as portuguesas em Lisboa quiseram acabar com a memória de Palmares, que volta a ser lembrado pelos abolicionistas, poetas, com memórias enaltecendo o feito e a resistência contra a escravidão. E nos jornais da imprensa negra, no final do século 19 e no início do 20. Palmares não aparece como símbolo de luta de uma hora para a outra. Tem uma história que caminha desde o século 17 e que foi se fortalecendo. Hoje, tem um significado de luta antirracista, luta pelos direitos de cidadania. Esse simbolismo tem a ver com o fato de que nossa sociedade não superou o preconceito e o racismo? Sim. Agora, isso tem muito menos a ver com o século 17, porque a história do racismo é muito complexa. Todo mundo acha que teve escravidão, então teve racismo, como se fosse uma coisa igual à outra. Eu diria que é muito mais uma herança do modo como foi feita a abolição e a construção da liberdade no Brasil. Hoje, se fala muito na Independência, a grande efeméride de 1822. Mas a Constituição de 1823, que foi outorgada, já exclui de direitos muita gente. A principal questão social da liberdade é o final do século 19. Durante o 19, há uma luta pela liberdade incompleta: não é para todos, nem dá direitos para todos. O que nós chamamos de racismo é desse período. Antes, você tem racialização, vários processos de discriminação, mas não como é o racismo científico que orienta políticas públicas. Palmares vai alargando o significado político por conta desses desdobramentos. O século 20 põe o racismo num grau alto, com políticas de eugenia, nos anos 1930 e 1940. A senhora afirma que não gosta de usar a palavra quilombo. Por quê? Não é que eu não goste. É questão técnica. Essa é uma palavra que se generalizou no século 18, por conta do movimento de repressão às fugas e aos assentamentos nos matos. A palavra aparece em 1680 relativa a Palmares. Ela se generalizou e acabou tomando um significado negativo, porque, por gente presa em quilombo, o capitão do mato recebia mais. Esses regimentos se generalizaram no começo do século 18. Quilombo é uma palavra quimbundo para acampamento militar, é diferente de mocambo, que pode ser roça, moradia no mato. Vem da forquilha que você põe para fazer a tenda no mato. Há significados diferentes. Quilombo, na África, tem uma conotação mais militarizada e mais móvel do que um mocambo. Quando começa a aparecer a palavra quilombo, a partir de 1680, Palmares já não é mais um reino linhageiro. Esse reino foi destruído em 1678; o Macaco, os principais mocambos são destruídos. Nos anos 1680, não há mais uma relação de linhagem entre as chefias dos vários mocambos. Eles são mais volantes, militarizados, e a palavra quilombo se aplica para esse período. A senhora fez a transcrição do acordo de paz de 1678, entre Ganga Zumba e o governo de Pernambuco. Qual a importância desse acordo? Foi um documento publicado pela primeira vez no ano passado. Era conhecido e tem vários autores que consultaram um dos originais. Existem duas cópias: uma no Arquivo Ultramarino e uma no arquivo da Universidade de Coimbra. Uma é a cópia que seguiu para Lisboa, quando o governador foi avisar o príncipe regente que ele tinha feito o acordo, e a outra foi copiada nos livros da secretaria em Pernambuco. E a gente pode comparar e ver ligeiras modificações. Uma terceira cópia, que está perdida, seguiu para Palmares, levada por soldados que foram explicar o acordo ao Gana Zumba. Esse acordo foi negociado entre uma embaixada que veio dos Palmares com as autoridades em Pernambuco. O documento foi aceito pelo Gana Zumba e implementado. O que leva Ganga Zumba a negociar com aqueles que queriam a destruição dos Palmares? O governador, em 1677, enviou uma grande tropa que destruiu vários desses mocambos que compunham essa rede governada por uma hierarquia de governantes ligados entre si. É o que a gente chama de uma linhagem. São nomeados como mãe, sobrinho e tal. Em geral, na tradição centro-africana, é uma maneira de mostrar hierarquia, não quer dizer uma consanguinidade, que sejam mãe ou sobrinho de fato. Essa rede linhageira é destruída e várias das pessoas, governantes e chefes presos ou mortos. Isso leva o Gana Zumba a negociar. Essa também é uma tradição centro-africana de, na derrota, negociar e fazer um acordo, estabelecendo regras entre perdedor e vencedor, que os portugueses também empregavam para dominar alguns estados centro-africanos. Na África, isso tinha, inclusive, a ideia de preservar os súditos da escravização. Aqui, é para preservar da reescravização. É o que Gana Zumba tenta fazer. Cria uma aldeia (Cucaú)... Ele se mistura um pouco com a política que portugueses e autoridades coloniais usavam com os indígenas: colocar padre nas aldeias, que era uma forma de controle sobre as populações. Então, a política centro-africana se mistura com essa política indigenista. O acordo é algo bastante importante, porque evidencia como Gana Zumba foi reconhecido como chefe de Estado. Isso não é pouca coisa. O acordo já foi tratado como traição do líder a Palmares. Como surge essa tese? Ela deriva de uma interpretação um tanto anacrônica, porque imagina sempre uma luta pela liberdade feita num certo molde, com certos objetivos que são muito mais contemporâneos do que do século 17 e dessa cultura centro-africana. Acho que essa ideia de que há uma traição, que Zumbi envenena Gana Zumba... A documentação não permite saber quem envenenou. Zumbi adota outra faceta dessa cultura africana: quando há rivalidade entre grupos políticos dentro dos estados centro-africanos, você pode ter o enfrentamento, mas uma forma, também, é a de um desses grupos se afastar e ir para a fronteira, se instalar e criar outro reino. É esse o movimento do Zumbi. Há trabalhos, inclusive de arqueologia, sobre os indígenas na região. Resta muito para pesquisar? Há muita coisa para fazer. As pesquisas de arqueologia, por exemplo, nem sempre levaram em conta que os indígenas se estabeleceram na região de Palmares no final da década de 1690 e ao longo do século 18. De qualquer modo, a relação entre os palmaristas e os indígenas é algo que está para ser explorado. A Documenta Palmares tem pistas a esse respeito. O livro que escrevi é um passo nesse fazer história a partir dos Palmares e não a partir da repressão. Qual a importância de, no século 21, a gente retomar fatos do século 17? Como Palmares foi o maior movimento de resistência à escravidão, ele tem uma simbologia política muito grande hoje. Como nós vivemos numa sociedade extremamente desigual, em que a desigualdade está imbricada no racismo, voltar a estudar Palmares e, por exemplo, descobrir essas raízes centro-africanas ajuda a entender como é que homens e mulheres, no século 17, lutaram contra a desigualdade e para preservar valores que para eles eram muito importantes. A história é uma forma de conectar o passado ao presente para que a gente possa ter futuro.