[[legacy_image_255172]] O ritmo, mas sobretudo a energia que salta da canção como uma explosão de luz, impõe ao corpo o movimento. É impossível deixar de mexer ao menos um mindinho ao ouvir aquela versão de Twist and Shout. ‘Energia’, aliás, é uma palavra irônica para descrever a canção gravada após uma exaustiva sessão de estúdio que já beirava as 9h30 de duração, na noite de 11 de fevereiro de 1963. No vocal principal, estava John Lennon, que recordou, anos depois. “Não conseguia mais cantar, apenas gritar”. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! É esse ‘grito primal’ o que de fato se ouve em Twist and Shout – a 14ª e última faixa de Please Please Me, o álbum de estreia daquela que é considerada a mais influente banda de todos os tempos, os Beatles. Please Please Me foi lançado há exatos 60 anos, nesta quarta-feira (22). “Nasci junto com ele (o álbum)”, brinca o jornalista e escritor Jotabê Medeiros. A grande questão é: se a carreira dos Beatles tivesse começado e terminado nesse álbum, estaríamos hoje, 60 anos depois, falando sobre ele? “Talvez, sim”, pondera Jotabê. “Essa carreira parece com (o filme) Dois Filhos de Francisco: foi gestada com marketing e estratégias publicitárias”, analisa. Essas estratégias soariam ingênuas hoje em dia: fazer com que a tia de John Lennon ligasse nas rádios incontáveis vezes, pedindo uma música – assim como seu Francisco, pai de Zezé di Camargo e Luciano, faria décadas depois, no filme mencionado anteriormente. Uma tática mais ousada foi a do empresário Brian Epstein. Dono de uma loja de discos em Liverpool, ele comprou 10 mil cópias do primeiro single de seus pupilos, Love Me Do, lançado em outubro de 1962. Por essas e outras, o single, que tinha PS I Love You no lado B, chegou a um modesto, mas satisfatório, 17º lugar das paradas. Personalidades e impacto Nos ternos idênticos e penteados estilizados, Jotabê vê o cuidado intuitivo dos Beatles com a imagem, que outros grupos da época não tinham, para também embasar a construção do sucesso. Porém, se imagem é muita coisa, ainda assim, não é tudo: uma conjunção de fatores imponderáveis, e até misteriosos, pode ser elencada em uma tentativa de analisar o furor que os Beatles viriam a causar a partir desse álbum. Um deles é o fato do maestro George Martin, até então voltado à música clássica e de orquestra, ter produzido os Beatles. “O material deles era ruim. Mas eles tinham potencial e aquele carisma”, justificou em entrevista ao site Analog Planet, em 2004. Carisma é uma palavra-chave. Jotabê define como ‘combustão’ entre John e Paul. Para ele, John Lennon carregava uma angústia adolescente; Paul tinha a imagem do típico jovem dócil, mas um gênio harmônico. “Tem uma malícia meio bandida no John e o Paul (McCartney), com aquela cara de cachorro pidão”. avalia. A ‘malícia bandida’ de John iria resultar em algumas intervenções sutis, mas fundamentais para conferir uma personalidade forte à banda. Por exemplo, na canção I Saw Her Standing There, que abre o disco, um dos versos de Paul originalmente dizia: “She was just seventeen/Never been a beauty queen” (“Ela tinha apenas 17 anos/Nunca foi uma rainha de beleza”). John introduziu a mudança: “She was just seventeen/You know what mean” (“Ela tinha apenas 17 anos/Você sabe o que eu quero dizer”). “É muito mais picante”, observa. “Os quatro tinham uma química única. Não daria certo com nenhuma outra peça ali. Esse é um mistério: como foram dar tão certo quatro operários, moleques, que caíram no mesmo lugar, na mesma hora?”. Deram tão certo que em apenas sete anos lançaram 13 álbuns, sendo que alguns deles elevaram a música pop a um refinado patamar artístico. Não à toa, apenas Please Please Me já vendeu 52 milhões de cópias e é o álbum de estreia mais bem-sucedido do mundo. Curiosidades O álbum tem o nome da primeira canção dos Beatles a atingir o topo da parada britânica, Please Please Me, lançada em janeiro de 1963 – e que está incluída no disco. Das 14 faixas do álbum, 8 são composições originais de Lennon e McCartney. Curiosamente, foi a primeira e única vez que a dupla assinou McCartney-Lennon. A ideia é que eles usassem as duas formas, mas o próprio Paul chegou a dizer que Lennon-McCartney se tornou um “bom logotipo”. Após Love Me Do, o produtor George Martin queria que os Beatles lançassem a música How Do You Do It?, composta pelo compositor profissional Mitch Murray, como segundo single da banda. Os Beatles se recusaram e insistiram com Please Please Me, que foi um sucesso. Mas George Martin também estava certo: How Do You Do It? alcançou o topo das paradas com Gerry and the Pacemakers, em abril de 1963.