[[legacy_image_222880]] Um livro sobre o peso das questões raciais no Brasil e da desigualdade na terra foi um dos mais vendidos no País em 2021 e já bateu 250 mil cópias – um feito ímpar para um romance nacional, considerando o panorama, até histórico, do mercado editorial brasileiro. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Para o autor, o baiano de Salvador Itamar Vieira Júnior, o seu Torto Arado caiu no gosto do público por apresentar um Brasil que cada um carrega em si. Aliás, o próprio Itamar é, de certa forma, ‘protagonista’ da obra: seu pai viveu na pele muito do que é descrito no livro. Oriundo do campo, no interior da Bahia, foi criado pelos avós, que trabalhavam na terra alheia praticamente em troca de comida. Nesta entrevista, Itamar, que estará domingo, na 14a Tarrafa Literária (veja a programação completa em www.atri buna.com.br), fala ainda sobre os desafios do Brasil para se tornar um país justo e de seu novo livro, que deve chegar ao mercado no ano que vem. Você sempre quis escrever, mas seguiu carreira acadêmica em Geografia. Geralmente, quem sonha com a escrita trilha um caminho em Letras ou mesmo Jornalismo. Como se deu isso e como a Geografia influencia a sua literatura? Nasci numa família de renda baixa, nunca fomos incentivados a imaginar que a arte pudesse ser uma fonte de trabalho e de renda. Podíamos ver filmes, ler livros, ouvir música, mas a aspiração de fazer disso um meio de sustento foi sempre desencorajada. Me preparei pra ser professor, me formei em Geografia. Acabou que só lecionei por dois anos, depois fui trabalhar como analista no Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), mas continuei na carreira acadêmica, fiz mestrado, doutorado. Mas a Literatura nunca me deixou, sempre foi um suporte. A família não encorajava a arte como subsistência por uma questão prática ou havia preconceito? Era algo pragmático: precisamos nos manter. Meus pais pensavam ‘preciso preparar meus filhos para que tenham uma formação sólida, um trabalho digno, para que não passem as dificuldades que passamos’. Tanto era algo pragmático que uma vez, quando eu tinha 11 anos, meu pai e minha mãe compraram uma máquina de escrever pra mim. Ou seja: você pode escrever, ler, fazer o que gosta, mas reflita bem e siga caminho que lhe dê sustento até para fazer essas coisas. Eles tinham razão em relação a isso, pois quando tive tranquilidade em relação a trabalho pude me dedicar à Literatura. Você viveu Torto Arado ou foi inspirado nas experiências trabalhando no Incra? Meu pai teve origem no campo. Ele foi criado pelos avós paternos dele. Ele morava numa comunidade afro-indígena às margens do Rio Paraguaçu, no Recôncavo Baiano. Meus bisavós eram analfabetos e agricultores. Meu bisavô trabalhava em terra alheia. Essas memórias faziam parte da nossa vida. Quando meu pai chegou a Salvador, ele não sabia sequer o que era um banheiro. Não sabia o que fazer com um vaso sanitário, porque não havia onde ele morava. Meu pai não teve curso superior, fez Ensino Médio, trabalhou em muitas coisas ao longo da vida. Minha mãe só tem o Fundamental, durante um tempo trabalhou em muitas coisas, mas depois, com quatro filhos e sem ajuda, e naquela época, era raríssimo ter uma creche pública, ela se dedicou exclusivamente à educação dos filhos. A aceitação de Torto Arado pelo público é notável. A que você atribui isso? O que eu posso dizer de Torto Arado é o que os leitores me dizem sobre o livro. Cada pessoa tem sua interpretação. E uma coisa que passa por todos, independente da origem, é que esse livro, de certa forma, conta a história deste País, que é multicultural e tem seus traumas pra lidar. Veja, eu sou filho de uma pessoa criada no campo. É muito comum que haja ascendentes entre as pessoas que foram criadas no campo. De uma maneira ou de outra, a história de Torto Arado faz os leitores recordarem o que de certa maneira seja uma memória coletiva sobre nosso País. É a única explicação pra conexão que os leitores têm. Você aborda questões sociais, uma delas a da mulher negra. Como vê isso? A gente fala muito de racismo, de misoginia, de preconceito de classe de maneira compartimentada, quando a vida tem uma dinâmica própria e esses temas se atravessam. No caso de Torto Arado, essas mulheres são relevantes como personagens centrais. Por que? No meu percurso como servidor, pude conhecer as dinâmicas sociais do campo e uma coisa que me intrigava era o papel de protagonismo dessas mulheres em suas comunidades e famílias. Se a gente pensar na Esplanada dos Ministérios ou no Congresso, as mulheres ainda têm uma participação muito tímida. Em 70% dessas comunidades havia mulheres na liderança. Achava paradoxal: por que nas instâncias mais vulneráveis da sociedade há uma equivalência entre a participação de homens e mulheres? Mas essa pode ser uma visão romântica, porque elas não estão livres de outros problemas e são também vítimas do machismo. Mudou algo na desigualdade agrária descrita no livro? Não dá pra negar que há uma mudança em curso, que houve uma certa melhoria. Mas estamos ainda muito distantes de uma equidade. Acho que a mudança mais significativa seja o movimento de pessoas que vão se apropriando do discurso social. Elas não estão mais alienadas do porquê passam por aquilo. Isso tem mobilizado e incentivado mudanças. Nos últimos 20 anos, após a redemocratização, tivemos muitos avanços civilizatórios. Nos governos Fernando Henrique, Lula, Dilma houve assentamento de trabalhadores, reconhecimento de terras indígenas e quilombolas – o que não existia e era uma dívida histórica, uma reivindicação inclusive dos abolicionistas. A abolição não era pra ter sido assinada sem nenhum amparo social aos negros, que permaneceram mais de um século desamparados e ainda o estão. Você está produzindo algum livro agora? Em 2023, chega um romance novo. Quando comecei a escrever Torto Arado, queria traçar um panorama da relação de homens e mulheres com a terra, não somente no nosso tempo, mas que remontasse às estruturas do passado, raciais, coloniais, que ainda marcam a vida do Brasil. E vi que não consegui abordar tudo em Torto Arado. Dali já nasceu um projeto maior. Como você vê o Brasil no futuro? O Millôr Fernandes dizia que o Brasil é um país com o passado pela frente. O Brasil tem dois caminhos pra seguir. Um dos caminhos é seguir essa toada e viver olhando para frente como se nada houvesse acontecido. Mas eu tenho certeza de que esse não é o caminho adequado para que a gente possa avançar como sociedade. O outro é justamente fazer aquilo que o Millôr destacou: olhar para o nosso passado, e nossa história, a fonte das nossas desigualdades. Isso talvez consiga unir o País, reconhecendo que há algo importante a se resgatar dos nossos traumas coloniais, escravocratas. A partir daí, refundar o País, com igualdade, equidade, para todos os brasileiros. Sem igualdade, não é possível haver paz pra ninguém. O que permanece é uma violência sem-fim, de todos os lados. Mas só há um caminho para esse reconhecimento: a educação.