[[legacy_image_310805]] Subitamente, aquela fulguração se abateu ao pé de uma árvore, tornada, com ferragens e sangue, com trapos e ossos, terra e fraturas, essa aventura suis e horrível da morte. A velocidade disparara a sua hora final, o silêncio cobria o campo dolorido, ao pé da árvore, junto à reta da estrada. Albert Camus deixara de existir. Horas e horas pelo mundo inteiro esta semana pensamos nesse momento das três horas da segunda-feira inglória, horrorosamente manchada de morte e mergulhada em desastre. Pensamos e revivemos esse instante dramático, colossal, essa rutura sem o minuto de adeus, a notícia chegando assim instantaneamente mesmo como foi. Como irremediavelmente foi. Não se pode, então, escrever nada esta semana sobre literatura, sem a tarja negra desta jornada da semana de 4 de janeiro. Aí se situa a morte de Albert Camus e é profundamente doloroso e estranho que se ponha alguém a encarreirar palavras sem misturar nelas o soluço e a lágrima, mas logo nos encontramos diante da explicacão que o espanto fornece, porque na verdade é espantoso que tudo isto tenha subitamente assim apagado naquele pequeno trecho de chão onde um carro se despedaça ao pé duma árvore e Albert sofre a trituração do choque que fica na sua noite, na noite em que se vai e some a fulguracão que era. Os livros estavam espalhados pelas estantes, mas foram fáceis de achar. O mais difícil foi esse Noces, o mais antigo que temos dele, da edicão magrinha da editora Charlot, de 1939. Albert mal passara dos 26 anos e escrevia muito seriamente, acerca dos quatro pequenos ensaios que estes não deviam ser estimados mais do que eram, isto é, “como ensaios, no sentido exato e limitado do termo”. Era aquele o último ano da paz. Na guerra, Albert Camus passaria ao combate... Sim, chamou-se Le Combat, o jornal clandestino que circulou durante a Resistência e que não poderia permanecer como era, um combate, o mesmo depois, quando a Libertacão chegasse! Nada disso seria, entretanto, a morte. Para ele podia mortificá-lo, mas o homem que renovara o mito de Sísifo colocando-se sob a epígrafe de Píndaro: “Oh, minha alma, não aspire à vida imortal, mas esgote o campo do possível”... este, sem dúvida, enfrentaria o absurdo da existência humana, não em termos de filosofia, como alguns o querem ainda enquadrar, mas no de uma “sensibilidade absurda que se pode encontrar esparsa no século”. Devia-se, então, esgotar o campo do possível. Para isto, era preciso que se voltasse à trágica esperança – o mito de Sísifo, do moderno Sísifo, tem um anteparo poderoso na obra de Kafka, e o traço de união liga os termos tremendos do desesperado O Processo à marcha no estreitíssimo caminho que conduz a O Castelo. Entre os dois livros de Kafka, ninguém melhor estabeleceu o liame do que Camus. (Agora jazes morto num monte de ferro retorcido, à fulguração... Foste a revolta, a contradição viva, a pungência da força lançada na terra para vencer todas as distâncias do possível. Levavas contigo apenas essa flama que era o amor. Derrotado, jamais caíste... Puseram-se em marcha sob a clamorosa mágoa de teu apelo os jovens e adolescentes, os homens do grupo de Le Soleil Noir quando colocaram, como querias, “la révolte en question”). De fato, nenhum escritor de nosso tempo esteve tão dentro do problema humano como este, e precisamente porque a sua não foi uma posição política, uma posição partidária, mas a posição mesma que Malraux definiu como “obsessão da justiça” pois é a situação do homem que exige justiça a que se refaz no mito de Sísifo, para recomeçar a tarefa da esperança. Outros foram ‘contra’, outros foram ‘a favor’. Camus permaneceu adstrito à sua sensibilidade de jovem que se formara em choque constante diante da opressão totalitária: “a débil voz”, a que se referiu um cronista, vinda de Noces e durante a guerra das páginas de L’etranger (O Estrangeiro) levantar-se-ia para clamar nas páginas de L’homme Revolté (O Homem Revoltado) que a sua posição, sem pretender tudo resolver, pelo menos podia trazer face às coisas. Resolutamente, mesmo no instante fatal do desastre, essa a coragem com que Albert enfrentou o minuto, a àrvore e a destruição.