Formado em 1999, o duo Choro de Bolso prepara o terceiro álbum para o final do ano e uma série de apresentações para celebrar a data (Alexsander Ferraz/AT) O que dá a soma de Led Zeppelin e Chico Buarque? No caso do violonista Marcos Canduta e da flautista Débora Gozzoli, deu Pixinguinha: há 25 anos, celebrados este mês, os músicos santistas criaram o duo Choro de Bolso. Desde então, dedicam-se a levar mundo afora o mais brasileiro de todos os ritmos – sem abrir mão de outros ritmos e sonoridades. Para comemorar o jubileu de prata, haverá uma série de eventos até o fim do ano. Um deles é o show desta quarta-feira (11), às 20 horas, na Tasca do Porto (Rua XV de Novembro, 115, Centro, Santos). Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! “O Choro de Bolso não toca só choro. A gente toca tudo: até Chitãozinho e Xororó, Wando... o que você possa imaginar, tem”, vai avisando Canduta. Ao que Débora emenda: “Mas com a cara Choro de Bolso de ser”. Essa cara Choro de Bolso começou a se formar muito antes sequer de existir o nome. Tudo começou a partir da relação musical em comum com o flautista e saxofonista José Simonian. Em 1999, no carro, na volta de um show com Simonian na Capital, papo vai, papo vem, a música começou a uni-los. “A gente viu que tinha muito em comum e podia fazer alguma coisa juntos”, relembra Débora. Logo depois, Canduta recebeu um convite para tocar no Sesc Bertioga. De imediato, lembrou de Débora. Assim, em 4 de setembro de 1999, o duo tocaria pela primeira vez, sem choro no nome, nem no repertório: nas primeiras apresentações, tocavam bossa nova e MPB. Até que uma livraria entrou na história. Toque literal Cinco anos e centenas de shows depois, e já com um repertório de choro, certo dia foram tocar na Realejo Livros, na Avenida Marechal Deodoro, no Gonzaga, em Santos. O livreiro José Luiz Tahan quis saber: afinal, qual o nome do duo? Canduta e Débora se entreolharam: e agora? Em um canto da livraria, havia um estande que acomodava livros do tipo ‘de bolso’. Na hora, veio a iluminação: Choro de Bolso! O livreiro aprovou, o público acolheu: em 8 de novembro, o duo completará 20 anos tocando na calçada em frente à Realejo, toda sexta-feira, faça chuva ou faça sol. Ou quase isso: em caso de chuva, o show é cancelado. Caminhos Canduta e Débora trilharam caminhos musicais diversos – mas que se mostraram complementares. Se ele foi tateando pelos sons até se descobrir, ela nasceu em berço musical, com o avô maestro e a mãe pianista, que geraram ainda uma irmã também pianista e um irmão violinista. “Minha primeira lembrança era da minha mãe lavando roupa, cantando, e ensinando pra gente os hinos nacionais, da Bandeira, da República, da Independência”. À parte a música clássica na vitrola da família, Chico Buarque era quase onipresente – e foi a primeira influência de Débora. “Minha mãe era muito fã. O presente de natal dela era sempre um disco do Chico”. Mas o rock rompeu barreiras e encontrou Débora nos anos 80: Legião, Paralamas, Titãs. “Minha mãe enlouqueceu. Cabeça Dinossauro (dos Titãs, de 1986), eu ouvia o dia inteiro”. A flauta foi outro ‘achado’ de Débora. Com piano e violino em casa à disposição, ela escolheu seu instrumento ao ver a apresentação de um regional de choro na tevê. “É esse que eu quero, falei quando vi”, recorda. Da bateria à guitarra Canduta queria tocar bateria. “Mas era muito caro, minha família não tinha dinheiro”. Até o dia em que o avô o levou ao circo. “Não pergunte por quê, mas no circo vendiam discos”. Eram os anos 70. Canduta saiu do circo com dois compactos, um de David Bowie, outro dos Rolling Stones. Logo depois, o então menino de 10 anos descobriu Alice Cooper. “Aí, falei: quero tocar guitarra!”. Da decisão, veio a revelação: Led Zeppelin. “Sempre foi uma das maiores referências na minha vida. Até hoje, por incrível que pareça, no meu jeito de tocar tem Jimmy Page (guitarrista da banda britânica)”. Canduta, então, acomodou-se no pop e no rock. Mas a evolução musical não tirou férias e logo trouxe outra epifania sonora: tudo mudou – de novo – ao lhe cair nas mãos o álbum de Milton Nascimento Milagre dos Peixes Ao Vivo, de 1974. “Esse disco me fez descobrir e pirar com música brasileira: Toninho Horta na guitarra, uma orquestra, arranjo do Paulo Moura, Milton no auge... pensei: ‘é isso. Led, vou continuar com você, mas quero fazer isso’. Da música brasileira para o jazz foi um pulinho”. Do jazz ao choro, a volta para casa – como se a pauta musical completasse um arco, retornando ao mesmo ponto do espaço, em outro ponto do tempo. Aliás, tempo que hoje promete maravilhas para se criar e gravar música. Mas ao choro pode haver alguma inteligência que seja artificial? Tecnologias Com dois álbuns lançados e o terceiro em produção, previsto para dezembro, o duo se volta apenas ao streaming: será o primeiro lançado unicamente nas plataformas, fruto muito mais da época, do que do gosto. “É muito caro e as pessoas nem têm mais onde ouvir (CD ou vinil)”, diz Canduta. Ambos ainda preferem o bom e velho CD. “Sinto falta dos encartes: gosto de saber quem está tocando, quem compôs as músicas”, diz Débora. Canduta concorda. E vai além: “Outra coisa que é um horror nas plataformas: a remuneração. Tem uma faixa, parceria minha e do (Manoel, escritor) Herzog, em que Débora toca e o Chico Buarque canta (Futebol na Praia, do álbum Canções de Amor Caiçara, de 2019), essa música foi ouvida em 80 países, tem uma cacetada de streamings, mas a grana que entra não dá para comprar um pastel”. Uma vantagem nisso tudo: a música chegou a 80 países. Como as lives que realizaram na varanda de casa, na época da pandemia, assistidas por gente de todo o Brasil, Portugal, França. “Foi a lugares onde possivelmente a gente nunca vá tocar fisicamente”. Fisicamente, carne e osso: até isso não é mais necessário em música. Será? A inteligência artificial (IA) vai se impor a esse ponto? “Quando a Madonna esteve aqui, fui brincar dizendo que era o karaokê mais caro do mundo, porque não havia nenhum músico no palco”. A IA deve ser utilizada para retoques ou em emergências, mas não no ofício direto da música, creem. Até porque, há um elemento que inteligência artificial alguma consegue reproduzir. “O sentimento, a energia que você coloca ali. No fim das contas, a música é isso”. Vinte e cinco anos estão aí para confirmar.