[[legacy_image_109354]] As atrizes santistas Juliana Bordallo e Julia Bertollini encenam o espetáculo Palhaças Coragem!uma obra pensada para apresentação durante a pandemia que aborda o papel da mulher na sociedade e seu protagonismo em tempos de conflitos sociais. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Dirigidas por Lily Curcio, as atrizes utilizam do ritmo e partitura cômica da palhaçaria feminina para reimaginar o texto Mãe Coragem e Seus Filhos, obra ácida do dramaturgo alemão Bertold Brecht. Escrita originalmente em 1941, a peça atravessou as fronteiras do tempo e manteve sua relevância como uma das principais obras de teatro contra a guerra de todos os tempos. Para a diretora, a peça apresentava desde o início um enorme potencial questionador. “Sabíamos perfeitamente que essa era uma forma de chegar à população, poder questionar e mostrar, de alguma maneira, como podemos lutar. Para mim, foi muito especial”. Ela incorporou a visão crítica de Brecht ao momento vivido pelo Brasil e pelo mundo, “desenhando uma realidade muito dura e muito real”. Do momentoA atualidade da obra é inegável em uma atmosfera de crises políticas, sociais e econômicas. Nessa perspectiva, um retrato da figura feminina ganha ainda mais potência na quebra de preconceitos e luta contra desigualdades. “Trabalhar com uma visão feminina representa o poder da mulher de estar enfrentando e se confrontando com essa realidade. Nós sempre fomos tornadas invisíveis, à sombra ‘dos grandes’”, destaca Lily. Juliana Bordallo conta como a obra de Brecht dialoga com suas pesquisas em torno da dramaturgia feminista. “Nos inspiramos no texto (de Brecht) justamente pela protagonista ser essa mulher potente, que luta, resiste e sobrevive neste caos social. O espetáculo acolhe essas fragilidades humanas, fortalece a gana de sobreviver e o cuidado generoso entre as palhaças. Através do jogo cômico e toda a condução amorosa da Lily, nós narramos os estados de sobrevivência que vivemos em tempos de crises sociais, históricas e políticas”. Olhares reaisJulia Bertollini também destaca o poder do espetáculo em trazer olhares reais para a maternidade. “Claro que ainda temos muitos desafios e preconceitos, mas estamos conseguindo romper com estereótipos muito ultrapassados. As mães artistas estão cada vez mais ocupando espaços e deixando sua marca, seu diferencial. Elas estão percorrendo um caminho de resistência, verdade, realidade, amor e poesia”. O projeto foi contemplado pelo Edital Proac Lab. A peça fica em cartaz até este sábado (2), com transmissão gratuita, às 19 horas, pelo Facebook e YouTube do Movimento Praiaças. Desafios“Nos inspiramos no texto(de Brecht) justamente pela protagonista ser essa mulher potente, que luta, resiste e sobrevive neste caos social. O espetáculo acolhe essas fragilidades humanas, fortalece a gana de sobreviver e o cuidado generoso entre as palhaças. Através do jogo cômico e toda a condução amorosa da Lily, nós narramos os estados de sobrevivência que vivemos em tempos de crises sociais, históricas e políticas” -Juliana Bordallo -Atriz“Claro que ainda temos muitos desafios e preconceitos, mas estamos conseguindo romper com estereótipos muito ultrapassados. As mães artistas estão cada vez mais ocupando espaços e deixando sua marca, seu diferencial. Elas estão percorrendo um caminho de resistência, verdade, realidade, amor e poesia”Julia Bertollini -Atriz Palhaçaria femininaAs Praiaças — Movimento de Palhaçaria Feminina da Baixada Santista completam cinco anos de existência em 27 de outubro. Após o desenvolvimento de várias pesquisas e produções em torno da dramaturgia feminista, o grupo segue firme pela resistência. “Continuamos aguardando a abertura de pautas e possibilidade para voltarmos seguramente às nossas atividades”, revela Juliana. Elas continuaram produzindo para a internet, garantindo a adaptação aos novos tempos.Julia explica como a palhaçaria feminina busca essas experimentações enquanto exercita a cidadania. O protagonismo promovido pelos movimentos de palhaças no Brasil tece uma rede de mudança, que segundo Juliana só se fortaleceu durante a pandemia. “A palhaçaria feminina se autentica, ocupando todos os espaços, produzindo conteúdo e protagonizando o cenário que escolhemos estar”, completa. Presença de Brecht é relevante no PaísA discussão de pensamento crítico proposta pelo texto de Brecht torna-se ainda mais importante no cenário político atual. Para Juliana, que é professora de Filosofia e Sociologia no Ensino Médio, a apresentação do espetáculo em escolas ajuda a ilustrar essa realidade de poucas oportunidades e promover o pensamento crítico em várias questões sociais, tais como gênero e cultura, aos mais jovens. “Acredito em Palhaças Coragem! como uma ponte para a reflexão sobre os temas que o espetáculo aborda. O bate-papo ao vivo com alunos e educadores vem de encontro a potencializar e reforçar essas provocações”. Como a visão feminina é central no espetáculo, a discussão sobre gênero se fortalece. “A relação de gênero nas artes é realmente um assunto que precisamos falar, e temos muito a dialogar sobre isso. As produções que contemplam a dramaturgia de gênero vêm ocupando os espaços e se tornando uma grande potência. Queremos dialogar com a sociedade para romper o conservadorismo e pré-conceitos determinados. A arte tem essa função social”, conclui Juliana. A obra de Brecht“Atemporal e necessária”, como bem define Julia, a obra do dramaturgo alemão faz duras críticas políticas aos governos totalitários. Em O Analfabeto Político, um de seus poemas, ele retrata uma sociedade alheia aos acontecimentos políticos, de uma passividade que se define pela ideia de “não gostar de política”. Quer queira, quer não, a política é onipresente. Por isso, essa discussão se faz constantemente essencial como parte do exercício democrático. “As pessoas não conseguem entender o quanto esse tipo de fala só serve para contribuir com a corrupção dos políticos. A obra de Brecht é essencial, um dramaturgo e poeta que nos faz refletir, repensar e analisar de forma crítica acontecimentos do nosso País e do mundo”, completa Julia. A visão crítica de Brecht é adaptada aos tempos atuais no Brasil, iluminando conflitos pertencentes à classe trabalhadora, que é uma das mais afetadas em tempos de crise. “Brecht entendia que o espectador deveria ser um observador crítico”, explica Juliana. “As palhaças Flóris e Catarina vivem situações no espetáculo que provocam esse público a refletir sobre as injustiças sociais. Essas são algumas formas que escolhemos para unir a palhaçaria e Brecht”.