[[legacy_image_124726]] Submissas, serenas e sexuais. Esses são alguns dentre os tantos estereótipos que acompanham mulheres asiáticas ao longo de suas vidas, deixando profundas marcas psicológicas e, muitas vezes, físicas. Dando voz a essa dor, duas jovens de Santos estão desenvolvendo o documentário Fetiche Asiático, produzido de forma independente a partir de vivências pessoais e mais de 100 depoimentos de mulheres asiático-brasileiras. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! “Não queremos que seja um filme sobre nossas feridas. Queremos poder criar afeto e acolhimento a quem assiste”, ressalta Victoria Lam, que idealizou a produção com Júlia Yamamura, ambas de 22 anos. Se apropriando de uma linguagem artística, subvertendo pré-conceitos, a ideia é que o projeto traga representatividade a mulheres asiático-brasileiras, amarelas ou marrons, cis, trans ou também não-binárias, que já se sentiram silenciadas ao falar sobre a questão. Em três atos, entrelaçados com os depoimentos coletados, serão feitas performances repletas de referências a outras produções asiáticas. “Vamos dar espaço a corpos que não estão presentes regularmente na indústria. Que normalmente estão apenas cumprindo um ‘papel de cota”, diz Victoria. SensibilidadeO lançamento de Fetiche Asiático está previsto para o ano que vem. O processo tem respeitado o tempo da equipe envolvida, que em sua maioria é composta por mulheres asiático-brasileiras. Ler e digerir os materiais coletados requer sensibilidade. “Os relatos são bem pesados e me levaram a lugares que eu não gostaria de não lembrar. Mas, por mais que seja um processo artístico dolorido, é também um processo de reconhecimento e de luta”, acredita Julia. ExperiênciasA partir de um questionário on-line, 150 mulheres brasileiras com ascendência asiática responderam perguntas sobre situações de fetiche a que foram expostas. Destas, mais de 100 enviaram depoimentos pessoais. Com todas essas experiências compartilhadas, Julia e Victoria expandiram ainda mais as percepções sobre situações de violência. Um dos pontos que mais as chocou foi a quantidade de relatos das mulheres sendo comparadas a atrizes pornô. De acordo com o relatório PornHub 2019 Year in Review, “japonesa” foi a palavra-chave mais buscada por homens no site pornográfico durante 2019 - “coreana” e “asiática” também apareceram dentre as mais pesquisadas. Além disso, os relatos mostram situações constrangedoras de assédio, em que são abordadas de forma invasiva – pelo estereótipo de submissão sexual que envolve as mulheres dessas etnias. As jovens ressaltam também a figura do Yellow Fever, ou Asian Fever, que são pessoas que só querem sair com pessoas asiáticas, como uma obsessão fetichista. A partir disso, de forma mais violenta, foram compartilhados casos de abuso sexual, estupro, stalker e, até mesmo, de cárcere privado. “É muito doloroso ficarmos perguntando o que fizemos de errado para sermos tratadas assim, do porquê as pessoas não nos enxergarem como realmente somos”, desabafa Julia. No caso dela, toda essa imersão a fez refletir sobre suas próprias relações, em que já chegou a “romantizar” esse fetiche quando adolescente, por ter sido a tônica de sua primeira relação amorosa, em meio a outras situações de aversão e preconceito. “Ninguém me explicou que aquilo podia acontecer”, diz, na esperança de que isso mude. O documentário virá para ajudar. [[legacy_image_124727]] Reconstrução"Com o aumento do hype em doramas e k-pop, a conversa sobre o preconceito com asiáticos tem aumentado muito, o que é muito importante. Mas não se fala sobre o fetiche, que é tratado como tabu por ir para um lado mais sexual. Temos que falar sobre isso para nos reconstruirmos", ressalta Júlia Yamamura. Ásia vai muito além do 'oriental'A Ásia vai além das gueixas japonesas, dos imperadores chineses e do regime de ditadura da Coreia do Norte. Inclusive, o oriental “não existe”, conforme desmistificam Victoria e Julia, sendo um conceito criado pelo ocidente em vista da diversidade da cultura asiática. As jovens se aprofundaram nessas questões históricas ao fazerem o curso Decolonialidade e Arte Asiática, ministrado por Ricca Lee, militante no assunto, no ano passado. Foi após esse curso, inclusive, que elas se aproximaram e passaram a trabalhar juntas. Culturas distintasVictória ressalta que a Ásia não se limita ao leste asiático – Japão, China e Coreia. Mas que, sim, engloba 45 países de pessoas amarelas e marrons. Além disso, a jovem cita que é comum pessoas asiáticas serem “lidas” como pessoas brancas em certos ambientes, sendo privilegiadas muitas vezes por conta disso. “Isso é muito violento. Porque quando convém, em situações ofensivas, de xenofobia, preconceito ou fetiche, aí você é lida como uma asiática”. Para ela, no processo de formação de identidade, isso faz com que a pessoa não entenda que lugar ela ocupa. Emerge, então, a importância do documentário Fetiche Asiático, criando uma rede de apoio por meio da arte. Mais informações serão divulgadas no Instagram @vivilam16 e @juliayamamura.