[[legacy_image_93324]] Os fotógrafos têm sido nossos olhos para o mundo enquanto ficamos em casa durante o isolamento. A pandemia trouxe inúmeros desafios, mas acima de todas as dificuldades, a paixão pela contação de histórias através das lentes deu motivação suficiente para manter os fotojornalistas, profissionais de linha de frente da informação durante a pandemia, em atividade ininterrupta. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Segundo Matheus Tagé, que estuda fotografia e cinema desde a escola, os riscos desconhecidos no começo de pandemia foram uma grande preocupação. “A gente não tinha noção do risco, como pegava (a doença), as situações... Acabamos desencadeando um monte de TOCs, protocolos, lavar as mãos sem parar, banhos de álcool... Não teve como fazer a foto em home office, então estivemos presentes em todos os momentos”. A experiência nas ruas serviu como objeto de pesquisa para artigos científicos. Segundo o pesquisador, o registro histórico desse momento serviu de reflexão no exercício diário da profissão. “Essa escalada da pandemia é feita pelas imagens. Se você pegar os jornais no mundo inteiro e for vendo as capas, vemos como isso fica mais dramático. Esse exercício de linguagem é interessante, porque como você conta a história em imagem de algo que você não vê?”. Respeito Para Alexsander Ferraz, outro desafio pandêmico foi a falta de respeito com os fotojornalistas nas ruas. “Muitas pessoas foram grosseiras. Não entenderam a nossa função, o porquê de estarmos na rua. Vários me agrediram verbalmente, e três quase vieram às vias de fato”. Nesses momentos de ataque nas ruas, o machismo também prevaleceu. Vanessa Rodrigues passou por momentos intensos. “Foi muito difícil. Por ser mulher, as pessoas provocam muito. Homem não intimida homem, mas intimida mulher, então era muito difícil ouvir xingamentos, palavras chulas, ofensas. Cheguei a ser vaiada por mais de 50 pessoas”. Outros desafios mencionados pela jornalista foram o exercício criativo em meio a um cenário de mesmice e trazer a informação enquanto o mundo ficava em casa. “Na fotografia, buscamos compreender o humano inserido no ambiente, então era muito difícil fotografar as coisas sem ninguém. A rua vazia era a informação, claro, mas era muito estranho fotografar esse vazio. Também era desafiador fazer uma imagem que as pessoas não podiam ver, porque estavam dentro de casa e não sabiam o que estava acontecendo”. Pontos positivos Obviamente, vários aprendizados surgem da turbulência. Para Isabela Carrari, as fotografias durante a pandemia foram retratos históricos da realidade mundial. “Sensibilizamos o público sobre todas as faces da pandemia, com UTIs lotadas, situação dos profissionais da saúde e de linha de frente, ruas vazias, as milhares de covas sendo abertas nos cemitérios, famílias que perderam seus entes queridos, pessoas uniformizadas com EPI limpando as ruas, enfim, são muitas imagens que não irão sair de nossa memória”. Por outro lado, algumas fotos não saem da memória por bons motivos. Um exemplo foram as fotos de vacinação, que abriram um capítulo mais otimista dessa história. “Foram muitos casos emocionantes. Um senhor que perdeu a mãe de seus filhos e o melhor amigo para a covid chorou muito quando recebeu a primeira dose, e você acaba se emocionando também. Eu tento ser positiva, por isso escolhi falar da vacinação, pois sinto esperança de que vamos superar a pandemia”. [[legacy_image_93325]] Alex Ferraz seguiu os passos do pai, e começou na fotografia aos 12 anos. “Eu não gostava de fotografia; adorava desenhar, mas meu pai me arrastou, então já tive contato desde moleque”. Aos 49 anos, mantém o amor pela profissão na adrenalina de novas histórias e emoções. Foi com essa garra e olhar atento que venceu o Prêmio Vladmir Herzog em 2009, por um registro após um homicídio. “Quando eu abri a foto, já senti aquele calafrio, tipo ‘que foto’. Essas histórias mexem com a gente, principalmente quando envolve personagens”. [[legacy_image_93326]] Para Vanessa Rodrigues, a inspiração veio da mãe. “Sempre gostei e observava minha mãe fotografar. A foto vinha em negativos, gostava da expectativa de como ficou. Tinha essa paixão pelo revelar e registrar as memórias”. Desde o Ensino Médio, vem realizando de 20 cursos teóricos e práticos, além da graduação, especializações e amplas leituras de cabeceira, completando mais de 10 anos de aperfeiçoamento na profissão. Entre as experiências, viveu fotografias políticas, esportivas e ensaios de moda, que estão entre suas favoritas. Entre todas, relembrou os registros da supermodelo Gisele Bundchen, que acompanhou por cinco anos. “Peguei a despedida da carreira da Gisele. Ela desfilava duas vezes por ano, na coleção verão e inverno, e na despedida dela a gente não precisava ir, mas eu fiz questão. Peguei meu carro e fui sozinha, muito empolgada. Eu precisava desse registro, tinha feito cinco anos dela”. [[legacy_image_93327]] Aos 33 anos, Matheus Tagé é professor e pesquisador além de jornalista. Inspirado pela mãe e tios, ambos professores, sempre foi curioso e buscou entender o mundo através das lentes. “Na pós, mestrado, doutorado, sempre pesquisei audiovisual, estudando as relações estéticas de imagem e conteúdo”. Mesmo se aprofundando nos estudos de linguagem, a maior inspiração de Tagé está justamente no que não é possível prever nos livros: os acasos. “Por mais que você planeje uma imagem, o mais interessante dela é o acaso. Você tem que ir de peito aberto fazer as coisas, não pode fotografar com raiva, tem que gostar do que está fazendo. Quando você vai com amor, as coisas aparecem na sua frente”. A história de uma pauta comum que sai do ordinário é uma de suas favoritas. “Fui fotografar a obra do VLT, mas reparei que tinha outra pauta ali: tinha um triciclo de bebê na obra. Coloquei isso em cena. Achei muito interessante ter uma obra, trator, gente trabalhando, mas ter esse destaque colorido no meio de uma rua quebrada. Tem alguém que vive ali, que brinca ali, que passa ali todo dia, e isso muda a história, é uma outra nuance”. [[legacy_image_93328]] Isabela Carrari já rodou o mundo fotografando, buscando explorar novas culturas em vários países. Apaixonada pelo street photography (fotografia de rua), ela também passou por campanhas políticas e fotografias cotidianas. “Procuro fazer viagens temáticas e roteiros que tenham alguma relação histórica, e vou fotografando o que eu vejo, o que eu vivencio”. A emoção em contar histórias de superação foi uma realização que deu forças durante a pandemia. Isabela relembra uma história particular da vacinação, que a emocionou muito. “Estava fotografando a vacinação e a paciente deu um abraço na enfermeira. Ela se emocionou muito. É um dos motivos que nos fazem sair de casa todos os dias e registrar o cotidiano da cidade”.