[[legacy_image_350505]] Muitos anos depois, diante de uma tela de computador em branco, este então jovem repórter lembraria do dia em que, pela primeira vez, leu a frase de abertura de um dos maiores romances do século 20, Cem Anos de Solidão. A tela foi preenchida, a matéria sairia de qualquer forma, mas a evocação de Gabriel García Márquez, que também foi jornalista, é emblemática: o seu maior romance, citado acima, de 1967, e que lhe valeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1982, consolidou o Realismo Fantástico, além de desvelar a alma da América Latina sob uma lupa jornalística, mas com a profundidade que só a ficção pode proporcionar. “O Jornalismo é uma arma muito mais rápida que a Literatura. (...) Os tempos é que são diferentes: o Jornalismo é uma arma de emergência, para batalhas a curto prazo, enquanto a Literatura é uma arma mais lenta, embora muito eficaz”, disse o escritor em entrevista a Eric Nepomuceno, publicada na revista Veja, em 1980. Quando García Márquez escreveu sua obra-prima, entre 1965 e 1967, a América Latina vivia – mais um – período de turbulência, com ditaduras militares se instalando no bojo da Guerra Fria, que opunha Estados Unidos e a então União Soviética. Cem Anos de Solidão surgiria como a síntese da identidade do continente que seguia vítima dos jogos de poder colonizadores. Na saga de 100 anos da família Buendía, na fictícia Macondo, havia de tudo: caudilhismo, o colonialismo industrial, machismo, rebeliões, pragas tropicais e a violência política. Ou seja, todas as grandes questões que fizeram – e fazem, com seu peso histórico – a América Latina solapar a si mesma. “Eu acho que meus livros têm impacto político na América Latina porque eles ajudam a criar uma identidade latinoamericana, eles ajudam os latinoamericanos a terem uma consciência maior de sua cultura”, disse o próprio Gabo, como era conhecido, em uma entrevista ao jornal The New York Times, em 1988. No caso de Cem Anos de Solidão, o alcance vai além. “É o livro que redefiniu não apenas a literatura latinoamericana, mas também a literatura. Ponto”, afirmou o escritor e pesquisador da cultura latina, Ilan Stavans, em entrevista ao site BBC News Brasil, em novembro de 2018. Vida inspira obraSe toda grande obra tem várias formas de ser lida, também é certo que não passa incólume à vida de seu criador. Com Gabo não foi diferente: nascido em Aracataca, no norte da Colômbia, em 6 de março de 1927, teve cidade natal como inspiração para a sua fictícia Macondo. Segundo Gerald Martin, autor da biografia Gabriel García Márquez – Uma Vida (Ediouro Publicações, 2019), Aracataca viveu o apogeu no começo do século 20, pela presença da United Fruit Company, empresa norte-americana de cultivo e exportação de frutas tropicais, especialmente banana. O crescimento atabalhoado, resultado de um extrativismo sem compromisso com as sociedades locais, sempre pairou nas obras de Gabo. A relação conturbada com o pai, um telegrafista que teve 11 filhos legítimos e quatro ilegítimos e que fora obrigado a fugir de várias cidades por causa de problemas com mulheres, o fez morar com os avós durante toda a infância. A convivência com o avô, bom contador de histórias, e com a sabedoria prática da avó, iria instalar nele o gérmen do realismo mágico e se transferir a personagens como o Aureliano Buendía e a Úrsula, de Cem Anos. “A irrealidade da América Latina é uma coisa tão real e cotidiana que está totalmente mesclada com o que se entende por realidade”, afirma Gabo no livro Duas Solidões, que apresenta a transcrição de um bate-papo entre o autor e o também escritor, o peruano Mario Vargas Llosa, na Universidade de Lima (Peru), em 1967. FonteEm termos literários, a fonte dessa irrealidade é uma só: A Metamorfose, de Kafta. Um jovem Gabo ficou impressionado com a transformação de Gregor Samsa em um inseto gigantesco já na primeira frase do livro. Daí vem, por exemplo, as borboletas amarelas que sempre precediam as aparições do personagem Maurício Babilônia; ou a sina de Remédios, que de tão bela, ascendeu ao céu em corpo e alma – ambos personagens de Cem Anos de Solidão. “O Nobel é um prêmio que se dá a uma obra, no momento em que se dá: não quer dizer que a obra está terminada”, disse Gabo certa vez. Está coberto de razão: mesmo após sua morte, e ao contrário do que aconteceu aos Buendía, cuja estirpe não teria uma segunda oportunidade sobre a terra, a obra de García Márquez continuará ecoando pelos séculos afora.