Aos 88 anos, o ‘eterno trapalhão’, como se descreve em seu perfil no Instagram, segue firme no circo (Arquivo/AT) Entre Manfried Sant’Anna, seu nome de batismo, e Dedé Santana, há ao mesmo tempo muito e quase nada. Se o ser humano e o personagem se tocam no jeito de ser, Dedé elevou Manfried a alturas jamais sonhadas. Aos 88 anos, o ‘eterno trapalhão’, como se descreve em seu perfil no Instagram, segue firme na luta da maior arena de todas as artes e onde tudo começou para si: o circo. Ele está em temporada em São Vicente, até 23 de fevereiro, no Reder Circus. Nesta entrevista, fala do início da vida sob a lona, no circo dos pais, da passagem redentora por Santos nos anos 50, de como conheceu o parceiro Renato Aragão, da camaradagem com Mussum. Histórias que se fundem no maior quarteto cômico do Brasil, Os Trapalhões. Você é de Niterói mesmo ou o nascimento lá foi por acaso? O seu nome de batismo, Manfried, tem uma história bonita... Nasci na barraca do circo em Niterói. Cada irmão nasceu em um lugar: um nasceu em Piracicaba e tem até um da Argentina. Quanto ao nome, minha mãe precisou de uma transfusão de sangue (no meu nascimento). Meu pai achou esse cara, um alemão. Em família cigana, como era a do meu pai, da Ucrânia, era comum colocar o nome de um benfeitor no primeiro filho. Esse alemão se chamava Manfried. Como foram sua infância e adolescência? Toda no circo. Eu entrei a primeira vez no picadeiro, em um espetáculo, com três meses, no colo da minha mãe. Naquela época, a primeira parte do circo era o picadeiro e a segunda havia teatro. Havia esse papel em que ela tinha um filho. Meu pai tinha preparado um boneco, mas minha mãe disse ‘vou entrar com o Manfried mesmo’. Você tem uma história especial com Santos e A Tribuna, não? Sim! Nós chegamos aqui com o circo ‘apanhando’, como se diz. Tínhamos pegado muita chuva, o circo meio destruído. Meu pai conseguiu montá-lo em um terreno na Avenida Ana Costa, que era cercado, não dava para ver o circo. Aí falaram pro meu pai ir na Tribuna. A gente não tinha dinheiro, mas ele foi, conversou e A Tribuna ajudou a levantar o circo, que começou a lotar. Com esse empurrão, a gente conseguiu uma estrutura quase nova, devemos muito a A Tribuna. Você chegou a ter outras profissões. Desejou abandonar o circo? Não, foi por necessidade. A gente ficava três meses em cada cidade, mas havia lugares onde a gente ficava mais. Por exemplo, em São Paulo, a gente podia ficar mais tempo com o circo. Meu pai alugou um porão numa casa pra gente poder estudar. Na época eu fiz de tudo: fui verdureiro, engraxate, ajudante de mecânico. Tinha uns 12, 13 anos. Você sempre quis ser artista? Meu sonho era ser diretor de cinema ou piloto de avião, o que meu pai não podia pagar. Como diretor, eu fiz uns sete, oito filmes. O mais elogiado de Os Trapalhões, O Mágico de Oroz, eu que dirigi (junto com Victor Lustosa). Minha escola de direção foi com Ary Fernandes, de O Vigilante Rodoviário. Aprendi sobre montagem de filme. Você aprende mesmo a dirigir na edição. Depois, tive outro professor, que foi o cara que transpôs a linguagem de Os Trapalhões ao cinema, o JB Tanko. Quando você saiu do circo para seguir outros caminhos da vida artística, o que fez? Fui para o Rio tentar o cinema. Passei fome, dormi na praia, até encontrar um rapaz que limpava um teatro. Fiz amizade com ele, ajudava ele a fazer faxina e passei a dormir lá. Um dia faltou o ator principal da peça, eu falei pra ele: ‘eu sei fazer isso aí’. Ele chamou o diretor, eu falei de quem era sobrinho (do ator e comediante Colé Santana), ele não acreditou. Substituí o ator no dia em que foi a crítica assistir. Um dos críticos colocou assim: ‘um garoto que a gente não sabe de onde é rouba a cena’. Dali não parei mais. O espetáculo era Very Good Brasil, teatro de revista. Eu tinha uns 19 anos. Reder Circus, com Dedé, está em temporada em São Vicente, até 23 de fevereiro (Arquivo/AT) Como você conheceu o Renato (Aragão)? Eu estava trabalhando no teatro. O Arnaud Rodrigues, que escrevia para o Chico Anysio, me convidou para a televisão. Ele falou ‘tem um rapaz aí que veio do Ceará, que só sabe trabalhar com um colega e eu acho que você é o cara’. Fui assisti-lo, achei ele ótimo. Fizemos a dupla na TV Tupi. Ele escrevia muito bem, mas eu juntava o humor dele com o humor circense. Por isso digo que levei o humor do circo para a tevê. Botei pastelão, tapa, torta na cara. Você e Renato já eram uma dupla bem-sucedida. Como surgiu a ideia, ou a necessidade, de se tornarem um quarteto? A televisão que nós estávamos (Tupi) enfrentava dificuldades. Nós saímos e acabamos indo para A Praça É Nossa, na Record. Um dia, o diretor Hélio Ansaldo chamou a gente. Pensamos que era pra mandar embora (risos). E ele: ‘o que vocês estão fazendo no programa dos outros? Têm que fazer o de vocês!’. Mas como? ‘Escrevam o programa’. O Renato falou: ‘eu tenho escrito’. ‘Traz na semana que vem, eu vou botar o nome’. Levamos. O Hélio falou ‘olha, arrumei um nome que vocês vão amar’. Quando ele falou o nome... eu olhei pra cara do Renato... Os Insociáveis! ‘Quem vai ver um programa com esse nome?’, a gente se perguntou. Como nós tínhamos feito Os Adoráveis Trapalhões, as pessoas chamavam a gente de trapalhões. Eu falei pro Renato ‘vamos mudar esse nome’ e adotamos Os Trapalhões. Como chegam a Mussum e Zacarias? O Hélio Ansaldo chamou a gente de novo. Chegamos, ele falou: ‘olha, tem um problema aí com vocês’. ‘O que foi, seo Hélio?’. ‘Vocês estão ganhando do Fantástico. Pegam uma rabeira (do horário) e, nesse tempo, vocês estão na frente’. Ele falou que a gente precisava aumentar o programa em uns quinze minutos. Já estava pesado para nós dois e eu propus pôr mais um. O Renato: ‘quem?’. Eu já conhecia o Mussum, a gente tinha muita amizade, se tratava por compadre. Ele era engraçado em Os Originais do Samba: entrava no show, dava boa noite e já vinha com ‘tranquilis’, ‘sossegadis’. Mas pra convencer o Mussum... Deu trabalho? Foi difícil. Dizia ‘eu não sou comediante, sou tocador de reco-reco’. ‘Você é comediante, só que não sabe’. E ele ‘é, o Chico Anysio também diz isso’. A gente tinha uma brincadeira de um ficar xingando a mãe do outro. Cheguei na casa dele, falei com a dona Malvina ‘o Mussum tá aí?’, ‘O Carlinhos?’, ela chamava ele de Carlinhos (o nome do Mussum era Antonio Carlos Bernardes Gomes). Quando ele desceu a escada: ‘mãe, esse cara é que xinga você’. Ela saiu correndo atrás de mim com uma vassoura (risos). Mas depois ele se convenceu. Já o Zacarias, um dia o Renato chegou com ele lá, baixinho, careca, com uma voz bonita. Ele parecia um gerente de banco. O Renato disse: ‘não, é caixa’ (risos). A gente foi ensaiar e ele era um show à parte. Tem um documentário sendo produzido sobre Os Trapalhões, do jornalista Rafael Spaca, bastante crítico ao Renato, à relação dele com vocês, inclusive financeiramente. Você sabe desse documentário? Como o vê? Ele falou comigo, mas eu pretendo fazer o meu (documentário). Ele foi abordar umas coisas que não têm nada a ver... ele diz que não é por mal, que é fã dos Trapalhões. Você tem alguma mágoa do Renato? Como é a relação de vocês hoje? Não considero o Renato nem meu colega, nem meu amigo: ele é meu irmão. Agora, tem que botar uma coisa na cabeça: ele era o principal, nós optamos assim, eu optei assim. Quando começou a dupla, os dois eram comediantes. Eu falei que não estava dando certo, não pode haver dois palhaços. Eu me propus a fazer, como se diz, o escada. Ele perguntou: ‘mas por que?’, ‘porque você é mais engraçado do que eu’. Ele relutou, ‘mas você vai se apagar’ e eu disse: ‘o que importa é a dupla funcionar’. Deu certo. Arrebentou. Como vê o humor atualmente? Os Trapalhões existiriam hoje? Difícil... o politicamente correto amordaçou os comediantes. Os Trapalhões nunca fizeram nada com maldade, era o humor do circo, da época. O Mussum chegava pra mim e dizia ‘compadre, naquela hora você pode me chamar de negão?’. Eu chamava e ele ‘negão é o teu passadis!’. Sinto muita falta da convivência com eles. Os quatro da tela eram iguais na vida real? O Mussum era a mesma coisa. Eu ria com ele 24 horas por dia. Às quartas, ele saía correndo (da gravação) eu perguntei por quê. ‘Vou pra Vila Isabel encontrar o Zeca Pagodinho, o Martinho da Vila, Almir Guineto’. Pedi pra ele me levar um dia. Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Os caras tomavam cerveja, o Mussum uma pinguinha com mel. Eles eram muito engraçados. Depois de 15 dias, eu falei pro Mussum me levar de novo. Ele disse que não: ‘compadre, você fica tomando suco de laranja, não é da nossa roda’. E nunca mais me levou (risos). O quanto de Manfried há no Dedé? Sou eu mesmo: faço alguns personagens. Já o Zacarias e o Renato são diferentes. O Zacarias é um tremendo ator. Era muito espiritual, ele tinha um trabalho social (centro espírita), cuidava das pessoas. A gente viajava para os EUA a trabalho, vinha cheio de malas. Então chegava na Globo, abria a mala, tinha uma lembrança pra todo mundo. No espetáculo do Reder você resgata algo de Os Trapalhões? A gente faz o Mamãe, Eu Quero Me Casar. Eu faço o lugar do Renato. Eu mudei a letra. Uso as profissões atuais, como motorista de aplicativo. E o Tio Paulo faz o Zacarias. O que você sonha hoje, aos 88 anos? Tenho um filme, que eu gostaria de fazer, O Tribunal. Eu tive uma experiência com Deus muito forte. Era para eu estar morto hoje. Fiquei entre a vida e a morte no hospital. Apareceram dois pastores lá. Eu não queria deixá-los entrar, mas insistiram, entraram. Eles fizeram um barulhão, orações. No dia seguinte, eu estava curado. Dessa experiência eu escrevi o roteiro do filme.