[[legacy_image_51371]] Enquanto há 70 anos o Cinema Marrocos, no coração do centro de São Paulo, era considerado o melhor e mais luxuoso da América do Sul, a realidade hoje é de um espaço apagado, cujos dias de glória parecem ter ficado para trás. Em 2015, ele foi ocupado por duas mil pessoas de 17 países - entre eles, pessoas em vulnerabilidade, imigrantes e refugiados. Capturando a essência da desigualdade no país e buscando uma reinvenção artística, o documentário Cine Marrocos, dirigido por Ricardo Calil, responde com propriedade que a arte não tem prazo de validade e que o cinema de rua nunca ficará obsoleto. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! O documentário mostra a nova função do local, como abrigo, após 20 anos de portas fechadas. Depois de conquistar prêmios em festivais como É Tudo Verdade (Brasil), Festival de Guadalajara (México) e DOK Leipzig (Alemanha, sendo o festival de documentários mais antigo do mundo), Cine Marrocos estreia hoje nos cinemas como uma ode à resistência da sétima arte. Com olhar digno à realidade dos moradores, o longa se destaca na naturalidade em contar histórias. Para Calil, que mantém contato com todos que aparecem no filme, essa proximidade também impactou na vida de cada um. Alguns dos artistas ficaram mais próximos, com histórias bem marcantes que são retratadas de forma vívida no documentário. “Por sorte, trombamos com histórias de vida muito ricas no geral. Entre elas, de um refugiado africano, o Joseph, de Camarões, que teve o pai assassinado, e mãe e irmã estupradas pelos integrantes do Boko Haram (grupo terrorista surgido na Nigéria). “Teve também o Valter Machado, que foi iluminador teatral e entrou em uma depressão profunda depois da morte do pai. Ele foi morar na rua, depois, acabou indo para a ocupação. É uma figura muito próxima, um amigo querido (...) Ele acabou sendo uma espécie de mestre de cerimônias no filme”, destaca. [[legacy_image_51372]] Ideia Ao passar pelas portas colossais pela primeira vez em 2015, Calil sentiu na pele a urgência de contar e reinterpretar sua história, que de paredes vermelhas elegantes e esculturas de gesso, recebeu divisórias de escritório delimitando dormitórios. “Vi um paralelo muito grande entre a ostentação do passado e a precariedade do presente. O que buscamos foi propor uma nova contraposição entre realidade e ficção, entre a vida real daqueles moradores e a fantasia dos filmes exibidos no Festival de 1954”. O evento em questão foi o primeiro festival internacional de cinema do Brasil, com participação de astros de Hollywood e do cinema mundial. O cinema é para todo mundo, deve ser democratizado e não deve deixar ninguém de fora Na ocasião, foram exibidos clássicos como O Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder. Antes limitados à alta sociedade, os longas tornaram-se mais acessíveis com o passar dos anos. Em Cine Marrocos, Calil e sua equipe “reviveram” a telona e exibiram os filmes da mostra de 1954 aos moradores, além de convidá-los para uma oficina de teatro, que durou um mês. Para Calil, a oficina realizada com os moradores também é um gesto político. “O filme tem uma importância simbólica (...) É um filme de amor ao cinema e à sala de cinema, então ele tinha que ocupar a tela grande”. “Cinema, sweet, cinema” “As pessoas veem a história do Marrocos como de glamour nos anos 1950 e depois de decadência, mas acho que o momento mais bonito dele foi a ocupação. O gesto de reabrir o cinema para os moradores era dizer que aqueles filmes maravilhosos que foram exibidos no festival em 1954 para a elite também deveriam estar acessíveis a quem vive numa situação de grande vulnerabilidade social. O cinema é para todo mundo, deve ser democratizado e não deve deixar ninguém de fora”, afirma Ricardo Calil.