[[legacy_image_121279]] Imagine dois amigos de infância que crescem juntos frequentando um cinema na praia. Adultos e vacinados (essa expressão anda tão eloquente...) resolvem fazer um filme sobre o cinema de sua juventude. Esse roteiro de vida virou o documentário Lumière a Beira-Mar: Uma História do Cine Arte Posto 4, o tal cinema da memória dos amigos. Há 30 anos, hoje, o ‘cinema do postinho’ abria as portas e inaugurava em Santos uma nova perspectiva da sétima arte. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! “Ele foge do cinema tradicional. Foi a formação cinematográfica dessa faixa etária (de quem tem 40 e poucos anos). Lembro de ir à praia, solzão, passar na porta, olhar e ver o (cartaz do) filme e dizer: vamos no cinema?”, relembra a publicitária Denise Barbosa Lara, produtora executiva do documentário. Aliás, o filme está na programação do ‘postinho’ até o dia 17. Denise é casada com Gustavo Brandão, que ao lado do escritor Javier Contreras assina o roteiro e a direção. Eles são os dois amigos de infância mencionados no início deste texto. Do mergulho emocional nos anos de formação no cinema ao documentário na tela, foram três anos de pesquisa. E uma (quase) certeza: o Cine Arte é provavelmente o único do tipo no mundo. A dúvida nasce do filme Labirinto do Cinema (de Nobuniko Ôbayashi, 2021), que narra a saga de um grupo que volta no tempo para evitar o fechamento um cinema na orla da cidade de Onomichi. Fica a dúvida: esse cinema é de verdade ou é tudo ficção? Quem souber a resposta... Sérgio Mamberti Mas sendo o nosso Cine Arte o único ou não, ele é especial e merece tratamento único. Assim, uma voz especial surge na tela, seguindo o fio condutor do documentário: a do ator Sérgio Mamberti. “Pensamos nele, que é de Santos, e por todo o trabalho e relevância. Quando o contatamos, ele adorou a ideia. Talvez tenha sido o último trabalho dele”. Mamberti morreu em setembro deste ano. A importância do Cine Arte salta aos olhos – e ao bolso. Com preços fixados em R\$ 3,00, suba ou não o combustível (meia-entrada a R\$ 1,50), é mais barato do que a pipoca à entrada. O custo-benefício é astronômico, já que o espectador terá contato com produções de culturas e raízes diversas, que ele não assistirá em outras salas santistas. “É um ato de respeito à cultura por ele ainda ser mantido. Passaram diversos prefeitos e o Cine Arte foi conservado”. Origem Em 1991, a prefeita de Santos era a atual vereadora Telma de Souza (PT). Em seu governo, o Cine Arte foi idealizado. Uma conjunção de fatores contribuiu para isso: a nova destinação dos postos de salvamento da praia e o processo de transformar o ‘casarão branco’ no que viria a ser a Pinacoteca Benedicto Calixto, além das lembranças da própria Telma da antiga Cinelândia santista. “Eu tinha 5 ou 6 anos, minha avó materna me levava ao cinema, ela, principalmente, me ensinou esse gosto”, relembra. “Quando você chega à vida adulta, traz isso na cabeça e no coração”. Esse fato, e a Pinacoteca se formando, indicaram um caminho cultural aos postos de salvamento. Tanto que, além do Cine Arte, no Posto 4, surgiram ainda a Gibiteca Marcel Rodrigues Paes, no Posto 5, e a Biblioteca Mário Faria (Posto 6). “A praia se mostrou um lugar ao turismo, para tomar banho de sol, aos esportes, e também à cultura”.