[[legacy_image_70023]] A versão pode conter elementos de ficção (não muitos) misturados à realidade (quase totalmente), mas a série 'Chernobyl', da HBO, é de fato intrigante. Nos seus cinco episódios soube conduzir o enredo com uma narrativa que misturou suspense e drama em dose certa. Muito provavelmente produziu uma espécie de túnel do tempo para quem já era grande o suficiente para entender o que se seguiu àquela madrugada de 26 de abril de 1986, e, particularmente, resgatou um pedaço vital de um passado recente, apresentando-o a quem chegou bem depois do desastre nuclear. Digo isso em relação aos jovens, maioria esmagadora dos adoradores das séries de TV e streaming. Boa parte só conheceu os ecos da Guerra Fria, entre União Soviética e Estados Unidos, nos livros e nas aulas de História dos colégios e cursinhos pré-vestibulares. Com personagens centrais, que existiram na vida real, Chernobyl cativa por tentar explicar a gênese do poder. A dificuldade (necessidade?) de camaradas em acreditar que aquilo de fato estava ocorrendo. É perceptível o tom patriótico enquanto o desastre estava intramuros, conduzido pelo comitê local com dirigentes da usina, técnicos e membros da comunidade. Havia um orgulho em jogo. E, óbvio, razões de Estado. Se um físico nuclear, com jeitão sério e de poucos sorrisos, e um burocrata do sistema, preso às suas convicções e ao alto posto no governo comunista, tornaram-se heróis improváveis é porque um desenrolar dramático se desenhava nos arredores da central nuclear, na Ucrânia soviética. E lá estava a pacata Pripyat. Falhas humanas e outras por pura irresponsabilidade – como mostra a série – foram o estopim para aquele desfecho que atravessou fronteiras geográficas, porque os marcos atmosféricos são difíceis de se limitar. Não é um spoiler, porque o desastre em si e seus efeitos são mais do que conhecidos. Basta uma rápida pesquisa na internet para ver imagens e relatos da época e até mesmo como está, hoje, aquele raio de 30 km delineado como perigoso pela excessiva radiação que ainda emana dos destroços do reator4 da Usina Vladimir Ilyich Lenin. Valery Legasov, o físico encarregado de investigar as causas do acidente, e Boris Shcherbina, o burocrata vice-presidente do Conselho de Ministros da extinta URSS, passeiam pela trama com indisfarçável tensão. O ator britânico Jared Harris, na pele de Legasov, e o sueco Stellan Skarsgård, interpretando Shcherbina, deram o componente déjà-vu que serve como um alerta que jamais poderia ter sido ignorado nos anos que se seguiram à tragédia nuclear. Sem contar as histórias paralelas e comoventes, como a de Lyudmilla Ignatenko, a esposa do bombeiro (Vasili Ignatenko, personagem do britânico Adam Nagaitis). Ela, interpretada pela irlandesa Jessie Buckley. Lyudmilla vive uma saga semelhante de outras milhares de pessoas que tiveram maridos, mulheres, filhos e amigos expostos à radiação em máxima potência. A série, em si, é um mergulho histórico. Até porque pode ter sido o início de um desmonte, como disse o então presidente da União Soviética, Mikhail Gorbatchov. Por fim, que venham mais produções como essa. Aliás, os russos prometem contar sua versão dos fatos. Que não seja uma reedição da Guerra Fria transportada para a telinha. Somos apenas telespectadores, pois. Está disponível na HBO GO.