[[legacy_image_70030]] A última eleição presidencial deixou muitas marcas no povo brasileiro. Intolerância, esperança, medo, amor, ódio foram alguns dos sentimentos distintos que marcaram os primeiros dias do Governo Bolsonaro. O escritor e cineasta José Roberto Torero canalizou alguns desses sentimentos e passou a publicar o Diário do Bolso, textos de humor no qual simulava uma agenda do presidente eleito. Agora, reuniu uma centena desses textos na obra 'Diário do Bolso - Os 100 Primeiros Dias' (Padaria de Livros). “No dia 3 de janeiro estava cabisbaixo, chateado. A eleição de Bolsonaro me parecia o começo de algo muito ruim. Um período de tristeza e morte. Queria fazer alguma coisa para combater aquilo. Como só sei escrever, teria que ser algo por aí. Mas o que eu devia fazer? Um livro? Pixar muros? Por coincidência, naquele dia li uma reportagem falando sobre diários como gênero literário. Somei um mais um e decidi fazer um falso diário do presidente”, explica Torero. O projeto inicial foi postar esse diário fake no Facebook. O primeiro texto, contando o dia da posse, teve grande repercussão na rede social. Foram 1,5 mil curtidas e quase 500 compartilhamentos. A partir disso, Torero investiu ainda mais no projeto. Depois, precisou migrar de plataforma. “O Facebook já me censurou cinco vezes. Na última fiquei uma semana sem poder postar nada ou usar o Messenger. Escrevi para eles tentando entender qual o motivo, qual a frase, qual a palavra que provocara a censura. Mas eles respondem sempre você violou nossa política de relacionamento. É uma saída meio covarde, porque evita se explicar. No fundo, imagino que o motivo tenha sido político. Algum leitor bolsonarista pediu a retirada do texto e algum examinador bolsonarista acatou o pedido”. Entretanto, a censura deu ainda mais força para o escritor. Ele duplicou o número de leitores da página e passou a ser publicado pelos sites Jornalistas Livres, Rede Brasil Atual e Carta Maior, que juntos têm mais de 1,5 milhão de seguidores. O santista afirma que não enfrentou nenhum problema com os membros da família do presidente. “Nenhum Bolsonaro, seja o 03, o 02, o 01 ou o próprio 00 me procurou. Acho que eles têm coisas mais sérias com que se preocupar, como o The Intercept ou a Coaf. Quanto aos bolsonaristas xiitas, não me enchem muito, não. Só de vez em quando postam alguns palavrões. Curiosamente, sempre em maiúsculas. O humor tem um certo salvo conduto para criticar”. Torero conta ainda que a proposta do diário era ser algo semanal. A mudança veio por conta do volume de notícias nesse início de governo. “Bolsonaro e companhia produzem tanto material que me sinto tentado, quase obrigado, a escrever bem mais. Esta semana, por exemplo, escrevi todos os dias. Creio que vou continuar com o Diário do Bolso até o final do governo. E imagino que faça um ou dois livros por ano”. Sem dar muitas pistas, o escritor também comentou que está escrevendo, junto com outras pessoas, um falso documentário em que conta “os anos de governo (2010 a 2030) de um personagem que não é o Bolsonaro, mas quase”. O escritor santista afirma que Bolsonaro já tem um perfil definido após seis meses de governo: “Está fazendo exatamente o que disse que faria: liberação de armas, licenças para agrotóxicos, liberdade para desmatamento etc. E isso é péssimo. Muita gente, muitos amigos meus na Baixada Santista, achavam que no governo ele seria mais ponderado do que nos tempos de deputado. Mas não. Ele está até pior. Acho que isso o faz diferente de antecessores como Sarney e Temer. Estes eram de direita, mas não eram malucos. Respeitavam certa institucionalidade, certo bom senso. Bolsonaro não. É só id, sem nenhum superego”.