[[legacy_image_249839]] Havia, desde o começo, muita curiosidade e até desconfiança pelo que o júri presidido por Kristen Stewart poderia premiar no Festival de Berlim. Kristen é uma popstar. Há muito que deixou de ser a protagonista de Crepúsculo, e há algum tempo se exercita no cinema autoral (Olivier Assayas, Mia Hansen-Love, Pablo Larraín). Stewart ajudou a entregar o prêmio de interpretação. Falou do que significa representar, em especial quando se é criança. Kristen sabia do que falava. O prêmio foi para Sofia Otero, do longa espanhol 20.000 Espécies de Abelhas, de Estibaliz Urresola Solaguren. A família da atriz de nove anos chorava copiosamente. Foram dias intensos de um festival que começou com uma fala, em vídeo, de Zelenski agradecendo o apoio à Ucrânia e teve manifestações diárias em defesa das iranianas. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Kristen fez um discurso apaixonado no palco, no sábado, 25. "Às vezes alguns filmes vêm nos dizer coisas necessárias sobre o estado do mundo que vivemos. Não são filmes fáceis. Nos obrigam a compartilhar sentimentos, a ter empatia." E anunciou que o Urso de Ouro ia para Sur L'Adamant. Chamado ao palco, o diretor Nicolas Philibert não conseguia ocultar a surpresa. "Mas vocês estão loucos?", dirigiu-se ao júri. Justamente a loucura. L'Adamant é o nome do barco, ancorado no Sena, em Paris, que abriga um centro de acolhimento a pessoas com distúrbios mentais No final, o diretor deixa o espectador com uma pergunta: Nesse mundo de ódio, até quando existirão pessoas assim, com seu olhar compassivo para a exclusão social e o sofrimento humano? O interessante é que um dos documentaristas mais prestigiados hoje, Mark Cousins, integrava o júri especial que premiou o melhor doc. Philibert foi ignorado nesta categoria. Ganhou a mexicana Tatiana Huezo, por El Eco, sobre tradições numa comunidade fronteiriça. É possível que a experiência de Kristen com autores franceses e a presença da atriz franco-iraniana Golshifteh Farahani no júri tenham influenciado as escolhas. Houve mais um francês premiado, e Philippe Garrel ficou tão ou até mais surpreso do que Philibert. O júri justificou a escolha de Le Grand Chariot citando a juventude do cineasta de 74 anos. Eterno nouvelle vague, Garrel dedicou seu Urso de Prata a Godard, morto em 2022.