[[legacy_image_91302]] Imagine um matuto nos cafundós do sertão, cujo único contato com o resto do universo é um radinho de pilha. De repente, ele sintoniza uma estação que só toca Beatles. À surpresa, une-se o encanto: que tipo de forró arretado é esse? Pois bem: o matuto existe nos palcos e em um álbum, responde pelo nome de Seu Quité, e é uma criação do músico Rafael Beibi, o mentor por trás da banda Beatles Cordel. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! “Como músico, tenho história que mistura muita coisa: música brasileira, Beatles, Led Zepellin... mas aprendi a cantar e compor com a zabumba no peito. Me formei nos palcos tocando forró”, diz. E tocando forró foi tocando a vida, na banda Zaíra (ex-Dona Zaíra), criada em Piracicaba – a terra de Rafael –, em 2005. À frente do grupo, gravou quatro álbuns e excursionou a Europa. Em 2014, surgiu a ideia: por que não misturar Beatles e os ritmos nordestinos? Nascia a Beatles Cordel, que nada tem a ver com a Zaíra, a não ser as influências. Música e mais um poucoA gestação durou cinco anos. Em 2019, o projeto virou show. Um espetáculo que transcende a música, mas que nasceu e cresceu por ela. “Assistia Luiz Gonzaga no palco, ele gostava de contar ‘causos’ entre uma música e outra”.A gestação durou cinco anos. Em 2019, o projeto virou show. Um espetáculo que transcende a música, mas que nasceu e cresceu por ela. “Assistia Luiz Gonzaga no palco, ele gostava de contar ‘causos’ entre uma música e outra”. Assim nasceu Seu Quité. O show, agora parcialmente reproduzido em um álbum nas plataformas de música, é a história da descoberta dos ‘quatro rapazes de Liverpool’ por esse sertanejo, que ‘ouve’ as canções da forma como a Beatles Cordel as interpreta – em forró, ciranda, baião, xote. Ou seja, ele se apropria de canções de tempo e lugar diversos dos seus, e as incorpora à sua própria história e cultura. No desenrolar bem-animado e cômico, Seu Quité vai se tornando íntimo de João Eleno, Paulo Macarti, Jórgi Réro, “e por último um nome esquisito/chama Ringo o ritmista”, como declama em um dos cordéis (veja ao lado). Nessa apropriação, motivada pelo encanto, Seu Quité não deixa de pedir um ‘help’ para Dona Socorro, a filha de Dona Eleonor, sempre antenada com as novidades desse mundão de Deus. E, aqui, por certo, os fãs dos Beatles já abrem um sorriso com tantas referências... Cuidado musicalPegar clássicos universais da música e virá-los do avesso é um ato, no mínimo, temerário. Aí, entra a perícia e a larga experiência nos ritmos nordestinos dos músicos envolvidos no projeto (veja ao lado). “Tivemos muito cuidado. A gente não queria descaracterizar as músicas”, explica Rafael.Pegar clássicos universais da música e virá-los do avesso é um ato, no mínimo, temerário. Aí, entra a perícia e a larga experiência nos ritmos nordestinos dos músicos envolvidos no projeto (veja ao lado). “Tivemos muito cuidado. A gente não queria descaracterizar as músicas”, explica Rafael. À transposição, observaram detalhes das canções originais que servissem como ‘a ponta de um novelo rítmico’. Encontrada essa ponta, era só puxar. Assim, de repente, um rock virava um xaxado de muito bom gosto. Em Come Together, por exemplo, canção do álbum Abbey Road, de 1969, a ponta do novelo foi o bumbo da bateria, bem marcado. “Qual ritmo nordestino tinha essa semelhança? A gente chegou na ciranda. E fica mais sincopado no refrão, com o maracatu”, explica Rafael. Com Love Me Do, o single de estreia dos Beatles, de 1962, a identificação foi mais evidente. “É um xote. Tem todos os elementos ali, até a gaita puxa pra isso. Os Beatles queriam fazer um xote, mas não sabiam”. [[legacy_image_91303]] Massificação culturalAs peculiaridades de Seu Quité, o isolamento imposto pela falta de acesso a bens e serviços básicos e, consequentemente, a produções culturais diversas, ainda é uma realidade em muitas partes do Brasil, avalia Rafael.As peculiaridades de Seu Quité, o isolamento imposto pela falta de acesso a bens e serviços básicos e, consequentemente, a produções culturais diversas, ainda é uma realidade em muitas partes do Brasil, avalia Rafael. Por outro lado, ele pondera, a situação propicia uma certa imunidade à massificação cultural. Essa é a base da transformação dos Beatles em um grupo nordestino. “Eu cresci nos anos 80, ouvia uma música no rádio, não sabia o que era e não havia Google onde se pudesse buscar essa informação. Então você usa mais um lado básico da gente, que é a imaginação, um artifício poderoso para fazer a gente sair de onde está”. Ou seja, um poder transformador, inclusive contra a opressão. Mais detalhes e músicas nas plataformas YouTube Music, Spotify e Deezer. A FormaçãoAlém de Rafael Beibi (vocal, backing vocals, zabumba, ganzá, mineiro, cowbell, blocks, reco-reco), o Beatles Cordel é formado por Rafael Virgolino (filho de Enok Virgolino), sanfoneiro de berço, compositor, produtor musical; pelo baixista e violonista Matheus Tagliatti, co-fundador da banda Zaíra e músico há 18 anos; pelo também violonista Alysson Salvador, que trabalha com forró e música brasileira há 20 anos, com trabalhos autorais em linguagens brasileiras, e por Guegué Medeiros, percussionista, produtor e educador musical, com dois álbuns próprios, além de trabalhos com Gilberto Gil, Lenine, Chico César e Zeca Baleiro, entre outros. Seu Quité é interpretado pelo ator Giovani Bruno da Companhia D’Vergente de Teatro. Ficou curioso? Ouça o som deles abaixo: