[[legacy_image_90072]] Aos 24 anos, o guarujaense Wevertton Nascimento dos Santos tem uma carreira internacional consolidada no balé clássico. Ao lado da bailarina Lamis Costa, ele retornou à sua comunidade no bairro Morrinhos II para atuar como professor voluntário da modalidade de dança no Centro de Atividades Educacionais e Comunitárias (Caec) André Luiz Gonzalez. Atualmente, o curso já teve suas vagas preenchidas. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Como agente transformador em sua própria vida, Wevertton acredita no balé como forte instrumento de mudança. “Hoje meu maior sonho com o ballet é desenvolver novos bailarinos, despertar mais sonhos, criar novos artistas e poder construir uma escola ou companhia com tudo que um bailarino(a) precisa”, afirma. Baseado nesse sonho, o artista realiza o trabalho voluntário com a mesma paixão que ferve nos grandes palcos. “É um sentimento maravilhoso poder compartilhar com a comunidade tudo o que eu adquiri com a minha vivência profissional dentro da dança, poder transmitir de forma solidária todo o meu conhecimento. Vejo alunos entrando animados para fazer as aulas, participar das atividades, e é um sentimento que não tem preço". Os dois fazem parte da ONG Felicidade, e buscam viabilizar o sonho de abrir sua própria escola de dança. “Hoje estamos em andamento com novos projetos para realizar esse sonho de abrir uma escola para o público de dentro e fora da comunidade, além de descobrir novos talentos e desenvolver artistas”. Para Lamis, que iniciou no balé aos cinco anos pelo projeto Pés de Cristal, na Vila Baiana, em Guarujá, é gratificante poder ajudar outras pessoas nos primeiros passos — ou melhor, nos primeiros saltos. "Fico feliz em poder levar a dança para as crianças e jovens da comunidade. Meu início na dança foi assim, e é gratificante dar a chance para outros inícios. A dança dentro da comunidade traz arte, cultura e oportunidade”. A bailarina ainda destaca os benefícios da dança no aprendizado lúdico, auxiliando crianças e adolescentes a expandirem a imaginação. “A dança tem muitos benefícios e descobertas. Além de viver novas experiências, desenvolve a criatividade, motivação e relação social”. Atualmente professora de balé clássico com formação em BabyClass e Jazz infanto-juvenil, Lamis concilia o trabalho como professora em escolas com outros projetos de dança da Cidade. Entre eles, o Projeto Jovem Cidadão, Roda Dançante e mais. Carreira internacional Wevertton ingressou na modalidade repentinamente. Por influência de uma amiga, que sempre o encorajou a seguir na profissão, ele embarcou nessa jornada aos 13 anos e nunca mais parou. "Embora eu sempre gostasse de dançar, nunca tinha achado algo com que me identificasse. Foi depois da minha primeira aula que me apaixonei pela arte do balé”. Ele passou pelo Roda Dançante e pelo Balé Jovem de São Vicente, com uma bolsa de 100%, para iniciar sua jornada nos estudos. De repente, em 2014, uma oportunidade mudou toda sua perspectiva sobre a dança. “[Fiz] uma audição em São Paulo para o Miami City Ballet School e fui contemplado com bolsa de 100% para o curso de férias (Summer Program) de cinco semanas. Porém, só tive a oportunidade de ir em 2015”. Após três anos na Miami City Ballet School, fez uma audição para o Atlanta Ballet, companhia mais longeva de desempenho contínuo nos Estados Unidos, fundada em 1929. “Eles estavam em busca de novos bailarinos, e foi ali que percebi que meu sonho estava se tornando realidade”. Contratado, Wevertton dançou uma adaptação de A Bela e a Fera, um dueto de repertório da Bela Adormecida com a bailarina Ellie Borick, uma remontagem do Quebra-Nozes, entre vários outros clássicos que representam a realização na profissão. “Jamais imaginei conhecer Nova York, o que dirá ser contratado”. Desafios Wevertton enfrentou as mudanças pelo esforço e determinação. Quando se mudou para os Estados Unidos, não sabia falar inglês, além de ter que acelerar o ritmo de dança para acompanhar as aulas. “O nível das aulas era bem difícil, também pelo fato de que comecei o balé tarde, então tive que correr atrás para aprimorar minha técnica. No fim do curso de férias, eles me convidaram para fazer parte da escola no Pre Profissional ll (o nível avançado da escola), com 100% de bolsa incluindo moradia e alimentação”. “De segunda a sábado, eu acordava oito da manhã para as aulas de balé, técnica masculina, Pas de Deux (dança de dois) Jazz, Contemporâneo, aulas de preparo físico, preparo de carreira, e aulas extras de uma hora e meia a duas horas cada”. Somadas às aulas, estavam ensaios para apresentações e mais horas extras para aulas técnicas. Para desenvolver o idioma, Wevertton apostou na cultura pop. “Eu assistia Bob Esponja nos dormitórios da escola, pois já sabia de cor as falas em português, só para aperfeiçoar o inglês”. Outra barreira foi o preconceito, que infelizmente, ainda é frequente na percepção de que existem modalidades específicas para cada gênero. “É triste. Depois de tudo que já vivi, de ver a diferença cultural de outro país, onde é tão admirada pelo público a figura masculina no balé”. Ofensas como “balé não é para homem”, ou até que não dava “futuro”, foram frequentes, mas Wevertton não se deixou abalar. Ele seguiu em frente sempre “colocando o balé em primeiro lugar” e procurando pontos positivos para se inspirar. Mesmo com tantas dificuldades, Wevertton acredita que tudo valeu a pena por sua grande paixão. “O balé exige muito da condição física do ser humano. Tinha dias que acordava com muita dor, mas sempre realizado de estar concretizando o sonho de me tornar um bailarino profissional”, ressalta.