[[legacy_image_90922]] Tarcísio Meira costumava dizer que foi “o cara que mais decorou palavras no mundo”. Mesmo sem constar no Guinness Book, ele provavelmente tinha razão: só na tevê, foram mais de 60 trabalhos – sendo mais de 50 apenas na Globo –, entre novelas, seriados, minisséries, teleteatros e telefilmes. Acrescente-se aí algumas dezenas de filmes para o cinema e espetáculos para o teatro, de fato teremos muitas palavras. Cada uma delas dita com a precisão do riso ou da lágrima pedidos pelo drama. Na quinta (12), essa voz se calou, aos 85 anos, vítima da covid-19. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! “Relembro uma vez – e isso eu vi, ninguém me disse – com um camareiro que chegou pra ele se desculpando porque só havia um par de meias, que não combinaria com o terno para a cena, o Tarcísio o tranquilizou: ‘se as pessoas prestarem atenção na meia e não no que eu falar, que ator sou eu?”, recorda o ator santista Oscar Magrini. Essa passagem, e muitas outras, Magrini experimentou durante as gravações de Torre de Babel, em 1998, a única novela que fizeram juntos. “Dividíamos o camarim. A gente conversava sobre tudo, teatro, tevê, artes. Ele relembrava os tempos em que a tevê era ao vivo”. Tempos árduos, em que o ator saía de cena com poucos minutos para trocar de roupa e, muitas vezes, trocar também de personagem. “Isso é impensável hoje em dia”. “Ele era um pilar da cultura, um amigo. Tive a honra de trabalhar com ele. Que Deus conforte a Glória (Menezes) e o Tarcisinho”, encerra Magrini. Personalidade e carisma Embora não tenha atuado com Tarcísio, outro grande nome da dramaturgia brasileira, o também santista Nuno Leal Maia, ressalta a personalidade do ator. “Ele se destacou pelo carisma (...) era um ótimo ator, sério, tipo um Humphrey Bogart, mais dramático. Mas também fazia comédia muito bem”. Ao relembrar Tarcísio Meira, Pedro Norato, diretor do Tescom – Escola de Teatro, organizador do Festival de Cenas Teatrais de Santos (Fescete), faz uma viagem no tempo e no espaço. De repente, se vê na sala da casa de sua infância e juventude, em Penápolis, Interior de São Paulo. [[legacy_image_90923]] “De imediato, veio essa memória de assistir às novelas. Quando cito o Tarcísio e a família, penso também no casal, ele e a Glória (Menezes). Se fala tanto que no mundo artístico se casa e se separa, eles são um exemplo de solidez”. Pedro avalia Tarcísio como a referência de um ator com interpretação intensa, que defende o personagem até com energia física. “É um ícone. A gente se espelha nessas pessoas, nesses mestres. A gente percebe a atuação, as nuances, e assimila. Numa próxima vez, vou me portar dessa ou daquela forma. A gente vai aprendendo e será usado em algum momento”. Tarcísio Meira estava intubado desde sábado, na UTI do Hospital Albert Einstein, pelas complicações da covid-19. A mulher de Tarcísio há 60 anos, a atriz Glória Menezes, também está internada com covid-19 no mesmo hospital, mas em situação estável. Da união, nasceu o filho Tarcísio Filho, também ator. Diplomata Tarcísio Pereira de Magalhães Sobrinho nasceu em 5 de outubro de 1935, em São Paulo. Para a carreira artística, tomou emprestado da mãe o sobrenome Meira, que, além de ser mais sonoro, somava 13 letras com o primeiro nome – uma superstição da época. Quando jovem, queria ser diplomata. Desistiu da ideia ao ser reprovado na primeira prova que fez para o Instituto Rio Branco, em 1957. No mesmo ano, estreou no teatro com a peça A Hora Marcada. Em 1959, fez seu primeiro espetáculo profissional, O Soldado Tanaka, convidado por Sérgio Cardoso. Tarcísio estreou na tevê no Grande Teatro Tupi, um programa de teleteatro, onde contracenou pela primeira vez com Glória Menezes em Uma Pires Camargo, em 1961, de Geraldo Vietri. Os dois se casaram no ano seguinte. Em 1963, o casal trocou a Tupi pela Excelsior, onde participou da primeira novela diária da televisão brasileira, 25499 Ocupado, de Dulce Santucci. No mesmo ano, estreou no cinema em Casinha Pequenina, com Mazzaropi. Na Globo, estreou em 1968, na novela Sangue e Areia, de Janete Clair. A adaptação do romance do espanhol Blasco Ibañez escrita por Janete fez com que Tarcísio e Glória se tornassem um dos pares românticos favoritos do público. [[legacy_image_90924]] Sucesso estrondoso Irmãos Coragem (1970), novela na qual viveu o mocinho João Coragem, foi um dos maiores sucessos da fase preto e branco da TV brasileira. O penúltimo capítulo da trama deu mais audiência que a final da Copa do Mundo. Seu último trabalho na emissora foi Orgulho e Paixão, em 2018. Na trama de Marcos Bernstein, inspirada na obra da escritora inglesa Jane Austen, ele viveu Lorde Williamson, pai do mocinho vivido por Thiago Lacerda. Em outros trabalhos recentes viveu ainda Fausto Leitão, em A Lei do Amor, e fez uma participação como o Coronel Jacinto, em Velho Chico, ambas em 2016.