[[legacy_image_323403]] Criação divina, ao reproduzir o mundo que o rodeia, o ser humano amplia o próprio olhar e retorna ao Criador. A imagem define a vida e a obra do artista plástico Paulo Frade, de 53 anos, cujas pinceladas têm o caráter de uma oração. Nascido em São Paulo, onde vive até hoje, abraçou o realismo clássico, ao qual dá vida especialmente pelo retratismo – um nicho que perdeu espaço nas artes plásticas a partir do final do século 19, com o advento da fotografia. “A pintura realista, mais para o estilo barroco, transcende a fotografia. Quando alguém tem contato com a obra de arte, a pessoa entra em contemplação, ela passeia pelas pinceladas”. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! A diferença entre um retrato pintado e um retrato fotográfico é uma só: a profundidade da alma. “A pintura tem uma expressividade que a foto nunca vai ter. Por exemplo, as marcas de pincel: nelas, o artista tenta modelar a forma, recriar aquela pessoa em um plano bidimensional”. Sua obra mais recente é o retrato do diretor-presidente da TV Tribuna, Roberto Clemente Santini, que está exposto na galeria de ex-presidentes da Associação Comercial de Santos (ACS). Como é de praxe no seu método, antes sequer de tocar em paleta e pincel, Paulo realizou uma videoconferência com Santini. Na conversa, captou sutilezas de sua personalidade para aprofundar a obra. Ou seja, o retrato não se resume a uma reprodução de um modelo no quadro, mas da impressão a tinta de uma vida na tela. “O retratista consegue colocar tudo isso na pintura. A matéria fotográfica traz os valores tonais, das cores, mas não consegue trazer a expressividade das formas. Um retrato pintado vai eternizar o legado da pessoa, você está pintando a história daquela vida”, explica. Primeiros traçosAos 53 anos, na infância Paulo ainda conheceu a tevê em preto e branco. Foi justamente em uma delas, na casa da família, na Vila Mariana, que começou a esboçar os primeiros traços – mas com rabiscando com o dedo no ar, enquanto assistia ao desenho animado Speed Racer. Ele tinha cinco anos. “Um dia, falei: ‘mãe, quero desenhar’. Ela me deu papel e caneta. Não parei mais”. Mas foi em outro bairro da Capital que teria a aptidão plenamente desenvolvida. Com quatro filhos, a família resolveu se mudar para uma casa maior, no Brooklin – um fato inusitado para Fábio, já que não tinham parentes, nem conheciam ninguém lá. “Um dia, minha mãe viu a placa de uma escola”. Era o ateliê do artista uruguaio Pedro de Alzaga. Sabendo do gosto do filho, resolveu levá-lo à escola. Nessa época, Paulo tinha 12 anos. “Ele (Pedro) olhou pra mim e disse para minha mãe: ‘vou fazer um teste, se ele ficar compenetrado e conseguir fazer...”. A mãe o deixou na escola às duas da tarde. Quando voltou, às cinco, Paulo tinha feito um trabalho com três vasos de barro que lhe rendeu a confiança do mestre, com quem ficou até os 22 anos de idade. “Ele foi fundamental na minha formação”, enfatiza. Católico praticante – Paulo frequenta as missas no Mosteiro da Esperança, na Capital – considera o encontro com seu mestre fruto da intervenção de Deus. “Se não tivéssemos mudado para o Brooklyn, minha mãe nunca teria visto a placa”. Outro sacerdócioPaulo também ministra cursos de desenho e pintura realistas, seja on-line ou em seu ateliê. Para ele, dar aulas é retribuir o que recebeu. “O artista não é uma estrela, é um servidor da sociedade”, afirma. Esse servir, porém, ultrapassa questões práticas ou mesmo morais. É uma missão quase espiritual, de estimular nos alunos, pelo domínio das técnicas, o pendor pela criação do belo. “Colocar a beleza à contemplação das pessoas é abrir uma janela à esperança”, crê. Mas criar o belo, para além de dominar a técnica, não necessita também de talento – como o próprio Paulo demonstrou quando menino? Talvez não, se a beleza extrapolar os limites das telas. Por exemplo, Paulo cita a médica que entrou no curso. Como muitos, nutria uma paixão pela arte, mas enveredou por uma profissão dita ‘mais rentável’. “Ela fala que anseia a chegada da terça-feira (dia de aula) para viver aquele momento. É um legado entre mestre e discípulo”. TecnologiaEmbora a fotografia, ou seja, a tecnologia, tenha encolhido o campo do retrato, Paulo não vê os avanços como um entrave. Muito pelo contrário: a tecnologia é aliada do pintor – e não é de hoje. Ele cita o italiano Caravaggio (1571-1610), que pegava uma lente, colocava em uma cortina e projetava uma tela, pela lente, a imagem ampliada. O pintor apenas a contornava. O próprio Paulo já fez isso na pintura do teto de uma igreja: fez um desenho pequeno e o projetou com o datashow. “Eu amo pintura barroca, mas eu vivo no século 21”. Para conhecer mais a arte de Paulo Frade, acesse o site do artista.