[[legacy_image_103105]] Artista cubatense Tamirys O’hanna, de 27 anos, marca presença no elenco da nova temporada da série do Globoplay Segunda Chamada, que foi lançada no último dia 10. Atuando ao lado de renomados atores e atrizes, como Débora Bloch, Talita Carauta, Paulo Gorgulho e Ângelo Antônio, a experiência se tornou ainda mais simbólica pelo seu personagem representar parte de sua história. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Tay, como prefere ser chamade por conta de sua não-binariedade (identidade não-binária não é definida como masculina ou feminina - por isso chamade foi grifada dessa forma), interpreta a jovem Leandra. Na série, Leandra sofre um abuso de seu padrasto e, ao sua mãe não acreditar no que aconteceu, passa a viver nas ruas. Por conta da violência, ela resolve utilizar o gênero masculino para se proteger e usa o nome Leandro. O denominador comum entre Tay e Leandra, porém, não é a questão do gênero. Mas, sim, o fato de serem sobreviventes de um abuso. “Aos 13 anos, sofri uma violência assim e foi uma loucura na minha vida. Só depois de muita terapia e ajuda psicológica, consegui fazer a ligação de que eu não sou a culpada pelo que aconteceu”, conta. Para Tay, que já abordou essa questão da violência em outros trabalhos que fez, essa personagem da Segunda Chamada diz muito sobre suas vivências, o que foi muito especial. Bastidores A segunda temporada da série, de acordo com Tay, era para ter sido desenvolvida em cerca de 6 meses e demorou em torno de um ano e meio para ser gravada por conta das restrições da pandemia. O trabalho havia começado antes da pandemia, foi paralisado e retomou apenas neste ano. “O maravilhoso foi que não mandaram os atores embora durante a paralisação”, diz. Sobre o clima do set, diz ter sido incrível e que havia uma relação muito horizontal entre os colaboradores. “Foi muito massa descobrir de perto que eles são pessoas incríveis”, conta, apesar de não ter havido tanto contato físico por conta dos protocolos de saúde. Uma das coisas que mais comoveram nesta experiência foi ter passado por este momento tão difícil tendo a oportunidade de trabalhar com uma equipe que se apoiou tanto. “O setor cultural foi muito afetado nos últimos anos. Não é sobre dinheiro, mas estamos falando de fome. Muitos atores precisaram, por exemplo, de auxílio emergencial e de cesta básica”. Outro fruto do Segunda Chamada foi o namoro de Tay com a atriz Thalita Carauta. “Conheci minha preta na série”, diz e solta uma gargalhada apaixonada. Tay assume que não gosta muito de falar sobre sua relação, mas ressalta que foi um encontro muito verdadeiro de almas. “Encontrar minha parceira da vida no trabalho foi melhor ainda. Vamos se apoiando e ainda dando uns beijinhos na boca”, brinca. Vida e obra Tay começou sua vida artística no teatro aos 14 anos de idade. No andar de cima de sua sala de cursinho preparatório para entrar na escola técnica estadual (Etec), havia sempre um grupo de teatro ensaiando. Os barulhos despertaram sua curiosidade e, no fim, houve a troca de curso pelas artes cênicas. Desde então, o teatro seguiu em ascensão. Tay destaca peças de que participou dirigidas por Nelson Baskerville, João Falcão e Lili Monteiro. Além disso, Tay integra o Coletivo 302, de Cubatão. Sua formação é pela Escola de Artes Dramáticas da USP, além da Escola Livre de Dança em Hip Hop na Broadway Center Dance em Nova York. No audiovisual, foi protagonista no curta A Felicidade Dela, dirigido por Carol Rodrigues, e participou do longa-metragem O Homem Cordial, de Iberê Carvalho. No audiovisual, há a participação em 3%, da Netflix. “Quando fazemos cinema independente, é muito diferente. E quando você é colocado dentro da indústria, você vê ‘nossa, é assim que funciona!’. É um frisson”. “Há uma mitologia em Cubatão de que existem mais artistas do que pessoas de outras profissões. E eu acho que é real”, conta Tay. A cidade floresce artisticamente em várias vias, mas precisa demais investimento, defende. Além disso, o preconceito com a cidade, já reconhecida como “vale da morte”, é mais um obstáculo. “Cresci ouvindo que em Cubatão se nasce sem cérebro e feio. Há muito racismo e xenofobia atrelado ao território”. Indo na contramão de tudo isso, por meio da arte, no Coletivo 302, por exemplo, Tay explica que a equipe busca trazer questões de pertencimento, gênero e da causa indígena - que diz muito sobre Cubatão. Esse é um exemplo dentre diversas outras iniciativas.