[[legacy_image_314167]] Passaram-se datas...O 60º aniversário da morte de Eça de Queirós, no mesmo ano em que morrera seu amigo Eduardo Prado; domingo último ninguém se lembrou da morte, no México, há 20 anos, de Leão Trotski, cujo assassino saiu este ano da cadeia e mergulhou no mundo... Desapareceu Jayme Cortezão, a quem se deve tanta história brasileira. Chega-nos o casal Sartre e Simone de Beavouir. Assunto não falta, enquanto as editoras continuarem soltando livros, no romance, no conto, no ensaio. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Mas publicou A Tribuna um artigo sobre o último romance de Vergílio Ferreira, o escritor português que situou a dramática história de Aparição precisamente onde Eça de Queirós fundou o seu jornal político, o Distrito de Évora. Não vamos falar dos mortos, falemos dos vivos. No artigo publicado domingo, saiu apenas leve referência ao romance anterior de Vergílio Ferreira, romance que, afinal, chegou a Santos, nessas contradanças da distribuição de livros, enquanto Aparição não chegou. Afinal, Mudança, que comprei ali no Boqueirão, no Recanto do Livro, é o único livro, antes de Aparição, a ter segunda edição, na obra de Vergílio Ferreira. O meio rarefeito dos leitores de boa literatura em Portugal, exigiu, em 1958, essa segunda edição do romance admirável, ao iniciar a editorial Arcadia seus ‘livros de bolso’. Mudança é o número 1. A primeira edição é de 1949... Leva tempo a chegar um escritor português ao Brasil. Mas este Mudança tem valor principalmente atual – porquanto jamais se colocou em tela tão fortemente o debate sobre o governo que reina em Portugal. E Mudança, pelo título, pela época, reflete, embora timidamente, a mudança que ia haver... Mas não houve! De fato, preparam-se as gentes, ao fim do livro, para a mudança que a guerra mundial terminada determinara. O ditador tremera nos seus alicerces, e Vergílio Ferreira nos dá conta, na ‘cor local’ da possibilidade da mudança, lembrando, na epígrafe, o verso do Poeta da Raça: “todo mundo é composto de mudança”. A referência não domina o romance, como pode parecer a quem leu a crônica até aqui. Mas explica o título, e este tem outra explicação na vida do pobre heroi, vida frustrada (esperara tanto que Hitler ganhasse a guerra para um sossego conformado de mil anos), vida frustrada no poderia econômico perdido do pai industrial que a crise mundial levara à falência e se matara, vida frustrada na união conjugal que não soubera manter embora amando a mulher e amando por ela mas derrotado até pela invenção de um adultério que não houve, vida frustrada do advogado sem visão para além dos mecanismos legais e que diante da morte sentia a terra fugir-lhe sob os pés... Assim, apanho a referência para chamar a atenção para um romance que tenou levantar a fimbria de uma possibilidade, aquela que Salazar negou até agora, 10 anos passados de Mudança, e o livro, desatualizado, em segunda edição. Mas vale a leitura pelo pequeno espaço dedicado a esse aspecto político. Na verdade, o drama de Carlos Bruno é muito maior, distendido sobre os aspectos humanos, numa dobra da Serra (Vergílio Ferreira é natural da Serra da Estrela, onde nasceu, em Meio, em 1916). Atento à área territorial o romance evoca, nas páginas notáveis de Mudança toda essa paisagem prestigiosa, com a sua atmosfera, o sol, a neve, os pinheiros. A chegada de Pedro à pg. 101 e seguintes da edição da Arcádia é qualquer coisa de comovedor que se possa escrever, modernamente, em língua portuguesa, sobre o raiar da madrugada e todas as implicações que ela traz, com o viajante que a contempla, no desdobramento das imagens físicas a se acumularem, assim: “O ar é lavado, sem o vício de uma névoa. Serena, a montanha abre-se à concórdia universal, fronte erguida, olhos firmes. Então do Oriente, uma estranha mão de fogo rompeu ao longo do céu e colheu as últimas estrelas. Depois o braço do fogo fechou um arco à roda do horizonte e todo o mundo ardeu no mesmo anseio vermelho. Tubas heroicas gritavam a ressurreição para os quatro cantos do céu. A flor dos campos e aldeias corria um frêmito de ansiedade. As casas abriam os olhos, pássaros nervosos crivavam o ar de estrelas de prata, de herdade a herdade, galos lançavam arços de triunfo”. E vai por aí afora. Vergílio Ferreira não perderá por esperar outra madrugada do tipo dessa. A mulherPensamento de Mark Twain: “Podem dizer-se muitas coisas a favor de uma mulher; mas as outras são mais interessantes”.