[[legacy_image_131081]] Nos anos 70, ele foi amigo do Charlie Brown, recolheu os seus retalhos de cetim e amou como nunca. Agora, aos 80 anos, Benito di Paula vive o seu Infalível Zen – nome do novo álbum recém-lançado nas plataformas. Produzido pelo filho, Rodrigo Vellozo, o trabalho vem coroar uma obra já sedimentada no imaginário do Brasil. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! “Meu pai tem uma discografia definitiva. Quem me dera ter feito um só disco daqueles. Como fã número 1, via a discografia completa, mas podia ter essa ‘coisinha’ (...) Muita gente não tem ideia da capilaridade do meu pai, que vai além do samba, vai para outras vertentes. Faltava esse toque de um disco livre, que colocasse o lado experimental dele”, analisa Rodrigo, respondendo à pergunta ‘o que esse álbum tem de bom?’. A seu lado na entrevista, o pai também deu a sua resposta. “Eu é que não é...”. Risada geral. Assim é Benito: espirituoso, sabe rir de si mesmo, das coisas boas ou nem tanto.Ri ao recordar o longo caminho que o levou ao zen (do álbum). Da infância humilde em Nova Friburgo, em uma casa com outros 12 irmãos, onde aprendeu de ouvido a tocar o violão do pai, ao pulo do gato de transpor o violão ao piano, a conversa é uma risada só. “Não sou sambista, sou sambeiro, não sou pianista, sou pianeiro, porque sou autodidata. Chegava mais cedo na boate, passava as músicas do violão para o piano. Um dia, tava esperando meu horário pra cantar e o pianista não foi. O dono da casa chegou e falou ‘o pianista não veio...’. ‘se quiser, eu toco..’. Toquei. No dia seguinte, o pianista chegou, aí o dono falou que ele não precisava mais vir. Eu chamei o dono e falei: ‘eu toquei pra ele, que não pôde vir, não pra você’. Pô, tinha que preservar o emprego dele”. O episódio ocorreu na boate Balalaika, em Copacabana, no início dos anos 60. Mal sabia Benito que seu próximo destino seria Santos. El Morocco e Pelé Era mais uma noite de música na Balalaika. Após a apresentação, um casal se aproximou de Benito, disse ter gostado do show e perguntou quanto ele ganhava. “Ganho mil’, respondi. ‘Quer ganhar dois mil?’. ‘Em Plutão, em Marte, qualquer lugar”, disse. O casal então ficou de vir buscá-lo às seis horas do dia seguinte. “Eu disse, ‘duvido que vocês venham, porque toda noite eu sou contratado...”. Vieram em um cadilac. Cansado, Benito adormeceu. Quando acordou, estava em Santos. O casal era dono da boate El Morocco, uma das mais populares da boca santista nos anos 60. Começou na boca, mas expandiu a geografia, para outras boates e regiões da cidade, como a Palma de Ouro, na Floriano Peixoto (“homenagem ao Anselmo Duarte”, relembra Benito). Já era figurinha carimbada na noite santista. A ponto de, certa vez, quando estava na porta da boate, parar uma Mercedes e o motorista perguntar pra onde ia. “Fiquei olhando aquele carro bonito... (risos). ‘São Vicente’, respondi. ‘Entra aí’. No carro, escuto ‘eu venho muito aqui te ver cantar’. A partir daí, ele sempre me dava carona. Era o Pelé”. Charlie Brown Um clássico do cancioneiro e um dos maiores sucessos de Benito di Paula nasceu aqui, em uma pensão no Gonzaga. É ele mesmo quem relembra: “Era uma pensão de uma família italiana. E eles recebiam umas revistas, todos se divertiam. Eu pedi pra traduzir, adorei. Era o Snoopy, Charlie Brown”. Com o novo álbum e o apoio do filho, Benito é um jovem senhor de 80 anos. Mas que tem consciência do tempo – do seu tempo e da sua história. “Eu errei muito. Quem não erra? Quem não peca? Me arrependo dos meus erros e defeitos. Quem não os têm? Jesus: esse não tem. Eu lamento a minha simplicidade, estudei até a terceira série primária... mas faria tudo igual – com menos erros e burrices”.