[[legacy_image_333784]] É como se ele já tivesse nascido ao piano. Aos 70 anos de carreira – e quase 83 de vida: faz aniversário em 2 de março –, fundador do lendário Zimbo Trio, Amilton Godoy segue firme em seu sacerdócio: o de tocar e exaltar a Música Popular Brasileira – com maiúsculas. Profundo conhecedor de música – na teoria e na prática – faz questão de separar ‘o joio do trigo’, ou o que é do Brasil daquilo que não é. “O músico recebe uma influência, digere, depois devolve. Acontece com todos nós: ouve-se um cara tocando jazz e absorve o que ele fez de bom. Agora, a música de cada país tem um fundamento próprio. Ambos são maravilhosos, mas não dá pra confundir, por exemplo, Villa-Lobos com George Gershwin (compositor norte-americano, responsável por vários standards do jazz e musicais)”. É preciso voltar os olhos – e ouvidos – às raízes. Heitor Villa-Lobos (1887-1959), por exemplo: viajou o Brasil para preencher a sua taça erudita nas riquíssimas fontes sonoras regionais, que só um país imenso pode oferecer. “As Bachianas são uma valsa, mas não têm nada a ver com a valsa vienense de Strauss (Johann, 1825-1899, compôs, entre outros, O Danúbio Azul); e Festa no Sertão? Não havia no mundo nenhum erudito fazendo aquilo: era a pegada do ritmo nordestino”. O mergulho vai ainda mais fundo no século 19. Compara Scott Joplin (1868-1917), pianista norte-americano, Rei do Ragtime, com papel preponderante no desenvolvimento do jazz, e Ernesto Nazareth, pianista carioca, grande nome do maxixe e do choro. “Os dois distribuíam os acordes da mesma forma, a montagem era idêntica, mas não dá pra confundir o suíngue americano com um choro brasileiro”, afirma. “Se tivesse um piano aqui, dava para mostrar”. Mas na redação de A Tribuna, onde ocorreu esta conversa, não há pianos. O jeito foi afinar a memória e recordar melodias da alma, que vêm sendo compostas desde Bauru, sua terra natal. Casa musicalO berço de Amilton era uma clave de sol: o pai, Dorival Godoy, tocava violino, a mãe e os irmãos, piano, o tio, Dorival Godoy, era trompetista. Na sua casa, como diz, a música rolava “ao vivo e a cores” – o que rendia boas histórias. Como a dos dois primos do pai, que nos domingos pela manhã se achegavam para mostrar suas modinhas sertanejas. Em um desses domingos, logo após o pai haver comprado um gravador de fio – em que o registro era feito em um fio de aço fino –, os irmãos começaram a tocar e não perceberam que o pai discretamente colocara o microfone na janela. Após a apresentação, com os irmãos já botando as violas no saco, o pai de Amilton chamou-os de canto para mostrar uma coisa. “Dorival, parece nós... mas como a nossa música tá tocando no rádio?’, eles ficaram assombrados”, relembra Amilton, às gargalhadas. Era impossível não ser contagiado por essa atmosfera. “Desperta em você a vontade de fazer parte daquilo”. Então, quando o pai e o tipo se cotizaram para comprar um piano, o destino de Amilton, com 13 anos à época, foi selado para sempre. “Tinham que me tirar do instrumento. Dedicava todo meu tempo à música”. Mas a música é muito ampla: se o piano ditou o destino, logo uma avalanche viria definir o seu rumo. Dimensão diferenteEm algum momento entre agosto e setembro de 1958, Amilton estava na rádio PGR8, emissora de Bauru, como de costume. Ele era músico contratado para tocar acordeon em um grupo – que incluía violão, cavaquinho e pandeiro –, para acompanhar calouros. “O Gérson, violonista, chegou pra mim: ‘tem uma gravação nova, queria que você ouvisse... mas não liga pro cantor: presta atenção no violão”. Amilton foi para o estúdio, onde a reprodução era melhor, colocou para tocar o compacto de 78 rotações e sua vida mudou: era Chega de Saudade, com João Gilberto. “Foi uma emoção, ‘nossa, está acontecendo algo novo, a música brasileira está ganhando uma dimensão diferente, eu quero aprender a fazer isso’”. Tão grande foi o impacto que Amilton é categórico ao afirmar: o Zimbo Trio, que formaria em 1964 com Luís Chaves no baixo e Rubinho Barsotti na bateria, e que faria história na música brasileira, jamais teria existido sem a bossa nova. O finoUm ano depois da criação, o Zimbo já era o grupo que acompanhava Jair Rodrigues e Elis Regina no programa O Fino da Bossa. “Um dia, perguntei: ‘Elis, o que você vai cantar?’. E ela: ‘você’”, ri Amilton. Brincadeiras à parte, sobrava-lhe talento: “Ela dizia não só a música como o tom e para onde a harmonia iria”. Com o Zimbo, viajou para mais de 40 países, inclusive alguns que jamais haviam recebido um músico brasileiro, como Panamá, Costa Rica e El Salvador. “Com a bossa nova, passamos de ser um país do ‘yes, nós temos banana’ a mostrar uma nova música”. Uma nova música de mãos dadas com a longa estirpe brasileira. A síntese foi no antológico show do Zimbo no Teatro João Caetano, no Rio, com Elizeth Cardoso e Jacob do Bandolim, em 1968, lançado em um álbum duplo. A ‘velha’ e a ‘nova’ escola, juntas no palco. “No dia, o Jacob chegou, perguntamos: ‘o que você quer tocar?’. Ele: ‘Chega de Saudade’. Eu fui na introdução, ele saiu improvisando, o teatro veio abaixo, foi um dos números bisados. O que ele mostrou? Que a música tem o poder de unir as pessoas”. E as gerações.