[[legacy_image_46388]] Quando aceitaram o desafio de documentar os últimos dias da presidente Dilma Rousseff no Palácio Alvorada, durante o processo de impeachment, Anna Muylaert e Lô Politi sabiam que falar do assunto não era a resposta; o que realmente precisavam fazer era escutar, observar e mostrar os acontecimentos. Como resultado, o documentário Alvorada, que fez sua estreia mundial no festival É Tudo Verdade, em abril, aborda o tema de maneira única, usando o próprio palácio como um dos protagonistas da trama. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Aqui, o majestoso edifício designado como residência oficial dos Presidentes do Brasil revela, por dentro, suas fraquezas. Essas fissuras metafóricas, que vão desde o desinteresse de funcionários com o que acontece ao seu redor até o descaso e omissão de parlamentares durante esse processo, dizem muito mais que qualquer diálogo montado. Segundo Lô Politi, esses silêncios e olhares são a essência da trama. “A gente tinha essa ideia de recorte, de retratar e fazer do Alvorada um personagem. Mas o roteiro foi se fazendo conforme as coisas iam acontecendo e com as dificuldades que tivemos. As características de cada momento determinaram o andamento do filme”. Anna buscava um outro recorte sobre Dilma, mais pessoal. “Desde que eu a conheci, em 2010, me impressionei muito pela cultura, vivacidade, curiosidade, pelo amor à literatura e ao cinema. E eu nunca vi ela ser apresentada dessa forma nos seis anos seguintes. Quando a Lô me chamou para participar do projeto, uma das coisas que eu queria mostrar era que Dilma não era aquela pessoa grosseira e histérica que a imprensa misógina fez parecer que ela era”, afirma ela. Muitas dessas impressões se fortalecem em abordagem cheia de detalhes, simbolismos e metáforas, que deixam margem à interpretação dos acontecimentos, mesmo estes já sejam conhecidos pelo público. A visão feminina que norteia o filme tirou muitos estereótipos e cargas negativas da personagem. Dilma expõe facetas raramente vistas na campanha eleitoral e e mandato. “Acho que é um filme muito feminino”, afirma Lô. “E acho isso um diferencial de quase todos os filmes que fizeram sobre o assunto. Várias mulheres se levantaram, com um olhar feminino, para retratar uma mulher sendo tirada do poder”. Feminismo Dilma Rousseff era uma presidente de esquerda, mas nunca se declarou feminista. Mesmo sabendo que durante o processo de impeachment ela enfrentou ofensas e violências declaradas em discursos que se tornaram públicos - consequência da misoginia e machismo estruturais, é importante observar a aproximação dela a essas pautas. Em especial, no reconhecimento de determinadas situações de violência. “A encontrei em um almoço em Campinas e falei: ‘Isso tem muito de machismo’, e ela respondeu, ‘você acha?’. Hoje é fácil identificar a misoginia e o machismo, mas na época a ficha foi caindo. O ano de 2015 foi fundamental para o movimento feminista”, diz. E continua. “Claro que ela era feminista nas entrelinhas, mas eu nunca tinha visto ela tão identificada com essa pauta. Durante o golpe (ela refere-se ao impeachment), com o levante das mulheres, ela se identificou muito mais do que antes. E eu vejo um paradoxo nela. Ao cair e perder o poder, eu vejo a Dilma muito brilhante. Ela caiu da cadeira, mas viveu um momento muito solar como pessoa. Para os movimentos feministas, essa aproximação que conseguimos dela vai formando uma ideia. A primeira mulher presidente do Brasil caiu por machismo, violência e hipocrisia. Ela era uma mulher muito forte, interessante e digna”.