[[legacy_image_265973]] Não há meias palavras. "Peri é uma caricatura de índio ridícula, a que estamos sujeitos há 150 anos." Assim o filósofo, líder indígena e escritor Ailton Krenak se refere ao personagem da ópera O Guarani, de Antônio Carlos Gomes. "Os povos originários se sentem ofendidos pela narrativa da ópera. E ela traz um dano cultural enorme por ter sido perpetuada acriticamente por tanto tempo", completa. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Foi com isso em mente que Krenak se aproximou do projeto de uma nova produção da ópera, que estreia nesta sexta-feira no Teatro Municipal de São Paulo. Ele assina a concepção da produção - a direção cênica e a reflexão sobre como levar essa discussão para o palco ficaram a cargo da diretora Cibele Forjaz. "O Guarani nos propõe esse tema relacionado à identidade, à relação com o outro", ela explica. Quando subiu ao palco pela primeira vez em Milão, em 1870, O Guarani, baseado no romance de José de Alencar, foi um enorme sucesso. Pouco depois, no Brasil, impacto semelhante. O país enfim tinha uma ópera vista como essencialmente nacional, cujo herói era um dos personagens-símbolos da arte brasileira do século 19: o indígena. Mas o tempo passou. E o fato de a ópera "essencialmente nacional" ser cantada em italiano, em uma linguagem musical europeia - e retratar um indígena que desiste de suas crenças para ser aceito pelo colonizador português e se casar com a jovem Ceci -, começou a gerar certo desconforto já nas primeiras décadas do século 20, entre autores como Oswald de Andrade. "Carlos Gomes é horrível", ele escreveu em um texto de 1922, meses antes da realização da Semana de Arte Moderna. Para Krenak, porém, a crítica modernista se resumiu "a piadinhas sem grande consequência", sem que se fizesse uma discussão de fato a respeito da questão. "O Guarani... Não sei se o verbo existe, mas a obra ‘despessoa’ o sujeito e o transforma em uma figura mítica. E uma pessoa mitológica não precisa de comida, de terra, de vacina." O filósofo acredita que sua concepção, na qual trabalhou com o artista Denilson Baniwa e com a dramaturgista Ligiana Costa, pode despertar incômodo no público mais conservador. "A ópera estará lá, todo o libreto, toda a música. Mas temos legitimidade para discuti-la e não faz sentido tentar nos desautorizar afirmando que se trata de uma obra consagrada." GenocídioCibele Forjaz acredita que, em O Guarani, o "sentido de integração nacional, de catequese, e o idílio amoroso entre Peri e Ceci servem como símbolo da formação de uma identidade na qual o invadido precisa se vestir da cultura do invasor". "Essa integração é uma forma de genocídio e extermínio. Toda a luta do povo indígena nos últimos cem anos é o oposto disso, é o direito à diferença, a culturas vivas, que dialogam com o contemporâneo a partir de suas crenças, culturas e línguas", explica a diretora. Para dar forma a essa ideia, Cibele trabalhou a noção do "duplo" De um lado, está o cantor lírico interpretando Peri, cantando em italiano. E, de outro, estará o ator David Vera Popygua Ju, do povo guarani Mbya. Dele veio uma sugestão importante, conta Cibele: um guarani nunca está sozinho, como acontece na ópera. E a montagem ganhou então um grupo com músicos guaranis que estarão no palco. Os cenários vão evocar uma metáfora do Padre Antonio Vieira, recuperada pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro em O Mármore e a Murta. A rigidez do mármore está associada ao colonizador, enquanto a murta, a planta, está sempre em movimento. "Serão três planos", explica Cibele. "A obra de arte, pois é importante que a força da ópera esteja íntegra. Uma pedreira de mármore. E, atrás da pedreira, a aldeia, que começa invisível, invisibilizada, e vai aparecendo ao longo da ópera, crescendo, até atravessar a pedreira", conta a diretora. "Vamos criar arestas, encontros, desencontros, tensões a partir da beleza da ópera, da música. E pensar também como hoje é dominante a violência com relação à terra, o clima. Se não mudarmos nossa atitude, criamos nosso fim. E ouvir pensadores indígenas sobre o tema é ver como estão avançados. Eles mostram que não há separação entre cultura e mundo natural, entre nós e a natureza." Dois elencos vão se dividir na produção. Nos dias 12, 14, 17 e 20, Peri será vivido pelo tenor Atalla Ayan; Ceci, por Nadine Koutcher; Gonzales, por Rodrigo Esteves. E, nos dias 13, 16 e 19, assumem os papéis Enrique Bravo, Debora Faustino e David Marcondes. Em todas as récitas, Licio Bruno interpreta o Cacique A regência e direção musical é de Roberto Minczuk. O Guarani Teatro Municipal Praça Ramos de Azevedo, s/nº 6ª (12/5), 3ª (16/5), 4ª (17/5) e 6ª (19/5), 20h.Sáb. (13/5), Dom. (14/5) e Sáb. (20/5), 17h.R\$ 12 / R\$ 158