[[legacy_image_118574]] Seguindo o fenômeno de Nomadland, a queda da romantização de ‘lutas’ femininas — o retrato falacioso das mães ‘guerreiras’, ilustradas como heroínas enquanto são desprezadas pela sociedade — parece uma tendência a se acompanhar nos filmes e séries contemporâneas. A mais nova pedida é Maid, minissérie intimista da Netflix que tem se mantido firme entre o top 10 da plataforma desde sua estreia, em 1º de outubro. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Questionadora, a série oferece dinamismo à discussão sobre abuso psicológico, maternidade solo e pobreza ao acompanhar a história de Alex (Margaret Qualley), uma jovem mãe que foge de casa com a filhinha Maddy após episódios de violência doméstica de seu ex-companheiro, Sean (Nick Robinson). Ela busca dar um futuro melhor para as duas, procurando empregos, lares temporários e alternativas para garantir o bem-estar da bebê. O caminho, como é de se esperar, é extremamente tortuoso. Após The Leftovers e uma participação notável no último longa tarantinesco, Era Uma Vez em Hollywood (2019), Margaret assume uma personagem mais madura e prova estar apta a papéis desafiadores. A versatilidade da atriz se prova na atuação revigorante que promove nessa produção, capaz de convencer do medo, tristeza e solidão sofridos pela personagem com um realismo tocante. O acerto na escolha da protagonista é um ponto-chave para o bom funcionamento da série, que podia pender ao melodrama com extrema facilidade. A jornada de Alex é brutal, descrita com a visceralidade que o tema pede, desde que a mesma se sente parte de uma família ‘white trash’ — termo pejorativo que caracteriza as famílias jovens americanas pobres. Em um primeiro momento, a jovem se recusa a aceitar que é uma vítima ou pária da sociedade; Alex nega a percepção de que está só e luta contra os rótulos impostos a ela. Conforme sua jornada se desenrola, a personagem amadurece e começa a revidar. Desse momento em diante, a personagem luta pela liberdade em um sistema concebido como seu inimigo. Além de retratar o preconceito e as falhas do sistema social estadunidense (bem relacionáveis ao Brasil), a maternidade é outro tema encarado com sensibilidade. Adaptada do livro autobiográfico Maid: Hard Work, Low Pay and a Mother’s Will to Survive (Criada: trabalho duro, salário baixo e a vontade de uma mãe de sobreviver, em tradução livre), de Stephanie Land, a jornada de Alex em meio à herança de abusos que carrega da mãe (Andie Macdowell, que curiosamente é mãe da atriz na vida real) e do ex-namorado é mais inquietante a cada episódio. No entanto, a realidade injusta e universal de sua narrativa não deve ser vista com pesar, mas como diz um dos diálogos mais marcantes da série, deve ser encarada com raiva, com busca por soluções. Ou melhor, quem sabe, pela busca de revoluções — cada vez mais urgentes, especialmente quando se é mulher.